Ao sete anos, o pequeno Sérgio Sá aprendia as primeiras noções de melodia e harmonia. Aos 11, ganhou dos pais o primeiro piano. Era o começo de uma carreira de sucesso do artista, compositor, arranjador, intérprete, tecladista e produtor. Cearense, portador de deficiência visual desde que nasceu, ele diz que a música foi o seu “principal brinquedo. Ele possui consagrada carreira no cenário musical brasileiro há mais de quatro décadas, enveredando para o universo da escrita, em 2000.
Com canções gravadas por artistas como Tim Maia e Fábio Junior, o cantor e compositor Sérgio Sá lança hoje nova obra, na livraria Feira do LivroHoje, às 19h, lança o seu quarto livro “Aos olhos de um cego”, na livraria Feira do Livro, Montese, como parte da atração mensal do programa Quintal Literário. O autor explica que a obra é um aprofundamento das ideias lançadas em ´Feche os olhos para ver melhor´, lançado em 2004, prometendo juntar os dois trabalhos em um áudio-livro, com acesso mais fácil do que a tradução em Braille.Antes de terminar sua temporada em Fortaleza, domingo, no Cantinho do Frango, a partir das 18h, ele realiza o show “In concert”, no qual contará as histórias de como foram criadas algumas composições, parcerias, além de cantar sucessos e músicas inéditas. “Estou aqui para plantar sementes”, diz o artista que atribui à família não apenas a ajuda na superação da limitação visual, mas também o aprendizado de superar o problema, utilizando a arte como uma das ferramentas para transpor as barreiras impostas pela falta de visão. Conta que, desde criança, brinca com a música.
Sérgio Sá explica que os dois livros abordam a predominância da imagem no dia a dia da sociedade contemporânea. “As pessoas cheiram, tocam e sentem com os olhos”, provoca, convidando as pessoas a prestarem mais atenção aos outros órgãos dos sentidos. Demonstrando disposição em levar adiante sua bandeira em defesa da inclusão das pessoas portadoras de deficiência visual, realiza palestras em empresas Brasil afora, pretendendo transformar em workshops, daí estar em busca de patrocínio. Usando os seus livros, o primeiro foi escrito por encomenda, no fim da década de 1990, “Fábrica de sons” pretende conscientizar familiares e profissionais que lidam com pessoas portadoras de limitações visuais. Após o primeiro livro, afirma: “a febre da escrita me pegou em cheio”. Em seguida, vieram mais três trabalhos, citando o “Ecos do amanhã”, nome de um CD independente.
Com conhecimento de causa, assegura que há muita informação que se perde porque as pessoas não exploram todos os canais que possibilitam perceber o mundo. Em “Aos olhos de um cego”, o autor fala de cada sentido, baseado na sua própria experiência de vida. Destaca a importância do “afeto e da compreensão” da família. “Minha família me preparou para encarar o mundo dessa maneira. Dos 70% do que sou hoje atribuo a ela”, diz, com gratidão, afirmando que todo mundo é deficiente. “Existe deficiência pior do que a de caráter?”, indaga, propondo que essas deficiências deveriam ser melhor trabalhadas.
Na sua opinião, a falta de visão “é apenas uma limitação com a qual as pessoas que nascem assim tem de conviver”, defendendo a inclusão da sociedade como um todo, justificando ser este o planeta da mistura. Diz não compreender posições defendidas por grupos de pessoas deficientes visuais que não permitem a inclusão de pessoas que veem. “É preciso incluir as pessoas com visão no mundo dos cegos”, reforça, admitindo que, ao contrário, não é inclusão.
O artista que possui mais de 300 canções gravadas por cantores como Roberto Carlos, Simone, Tim Maia, entre outros, saiu de Fortaleza aos 13 anos, indo morar em São Paulo, começando sua carreira aos 16. Ressalta como a música foi fundamental na vida do garoto prodígio, que fez do batuque e do som seus primeiros brinquedos. Sérgio Sá encara a sua deficiência com naturalidade e aprendeu a ver o mundo com todos os demais sentidos. “A falta de visão não é um bicho de sete cabeças”, diz, destacando que essa é a mensagem que tenta passar com os seus livros. As pessoas precisam exercitar mais esses sentidos. No seu caso, a música e a família foram essenciais.
A escrita convive muito bem com a música, pelo menos, é o que garante o artista cearense. Enquanto lança mais uma obra, realiza palestras e planeja estender para workshops, Sérgio Sá não deixa de lado os projetos musicais. No momento, está em busca de patrocínio para materializar o Projeto Sérgio SA que consiste na gravação de um CD com vários cantores da música brasileira. São eles: Gilberto Gil, Elba Ramalho, Zeca Baleiro, Jane Duboc, Cláudia Albuquerque, Vânia Bastos, Jorge Vercilo, Ed Mota, Lucinha Lins e Tribo de Jah. Afirma que a maior parte das letras são de sua autoria com a produtora e letrista, Cristina Reis. O projeto conta com apoio da Lei de Incentivo à Cultura, no entanto, busca patrocínio de empresas para viabilizar o disco, que não pretende que seja independente. O CD deverá ser transformado em DVD, projeta Sérgio Sá.
Além de compositor, assinou arranjos para nomes como Gilberto Gil, a exemplo do seu projeto Quanta, Zizi Possi, Jane Duboc, Ivan Lins, entre outros. Vale lembrar que o artista foi um dos primeiros a mesclar sintetizadores a sons acústicos e um dos pioneiros em gravações digitais. Também é interprete, contabilizando oito discos, várias apresentações no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa.
Mais informações:
Lançamento do livro “Aos olhos de um cego” do escritor e produtor cultural cearense Sérgio Sá. Às 19h, na livraria Feira do Livro (Rua Benjamin Carneiro Girão, 87, Montese). Preços: R$ 30 (livro) e R$ 20 (CD)
IRACEMA SALES
REPÓRTER