Carlos Tramontina – Um urbano aventureiro (Contigo!, 11/12/2004)

TARSO ARAÚJO

Há sete anos, o jornalista Carlos Tramontina, 48, apresenta diariamente o SPTV 2ª Edição, na Rede Globo. Se não fosse a gravata cobrindo-lhe o pescoço, o telespectador mais atento perceberia que, desde março do ano passado, o âncora do telejornal regional usa um cordão inseparável. O acessório foi presente de um monge morador das distantes montanhas do Nepal, para onde Tramontina viajou nas férias do ano passado. Naquele mês, ele trocou o ambiente asséptico dos estúdios da Globo em São Paulo pela experiência radical de subir uma das montanhas mais altas do mundo, a Island Peak (6.189 metros), nas cordilheiras do Himalaia.

Por 27 dias, Tramontina deixou a mulher, Rosana, 42, e os filhos, Nathália, 16, e Caio, 14, para realizar a maior aventura de sua vida. Em 26 anos de profissão, o paulista de Adamantina já apresentou praticamente todos os telejornais da emissora, incluindo o Jornal da Globo e o Jornal Nacional, mas nunca havia sequer acampado. De volta ao Brasil, encarou outro desafio: escrever o livro A Morada dos Deuses – Um Repórter nas Trilhas do Himalaia, que ele lançou há duas semanas e no qual conta os detalhes da viagem.

Nesta entrevista, o âncora do SPTV 2ª Edição e editor-chefe do programa Antena Paulista fala sobre os fatos mais marcantes de sua expedição às montanhas geladas do Nepal e revela também algumas de suas intimidades.

Quando teve a idéia de ir para o Himalaia?
Estava de férias no Vale Nevado, Chile, e falei: “Vou para o Himalaia”. Imediatamente passei a planejar a viagem. Ninguém levou muito a sério, achando que era idéia de momento e que ia passar. Quando viram que eu ia mesmo, ficou todo mundo assustado.

Houve algum tipo de preparo?
Contratei um personal trainer e fiz preparação para sobrevivência em altitude e ar rarefeito. Como parte do treinamento, usei, por 40 dias, uma bota de caminhada dois números maior do que o meu – eu calço 41 e a bota era 43 -, de cano alto, com duas meias. As pessoas brincavam, perguntando onde era a festa junina. Estava amaciando a bota para não ter problema na montanha.

Na subida, sentiu medo?
Sim, quando estava numa barraca, numa encosta torta da montanha e amarrada apenas nas rochas (porque não tinha como furar o chão), e houve uma tempestade de neve. Eu pensava: “Meu Deus, o que estou fazendo aqui? Se rolar uma rocha dessas ou ventar mais forte, a barraca vai embora!” Foi quando me dei conta da minha fragilidade diante daquela situação.

Já tinha feito trekking?
Eu nunca tinha dormido numa barraca! Sempre fiquei em hotéis, com ar condicionado, lençol cheirosinho…

Por isso chama o primeiro capítulo do seu livro sobre a aventura de Idéia Maluca?
Sempre fui absolutamente urbano. Muitas pessoas dizem, ao me ver na TV, que eu dou a impressão de que acabei de sair do banho. No Himalaia, passei dez dias sem tomar banho, sem lavar o rosto, sem escovar os dentes. Em muitos dias, dormi em quartinhos de madeira, sem luz, com chão de pedra e um estrado para jogar o saco de dormir e enfrentando 5 graus negativos.

Tirou lições dessa viagem?
Sim. Que não existe a urgência que a gente se impõe aqui no dia-a-dia. As coisas não precisam ser tão imediatas. É possível resolver os problemas com mais calma. E devemos viver o momento, a família e os amigos com muito mais intensidade.

Como foi voltar ao trabalho, depois da viagem?
Cheguei numa quarta e na segunda seguinte voltei à Globo. Eu flutuava. Tinha a impressão de ainda estar lá.

E isso era bom?
Talvez as pessoas tenham percebido que eu estava mais feliz, com o espírito mais leve. Não transmitia preocupação exagerada nas notícias. E ainda continuo assim.

Como é o seu dia-a-dia na emissora?
Meu dia começa às 13h30, com uma reunião com a equipe de editores. Das 14h às 17h, cuido da entrada dos boletins e flashes ao longo da tarde. A partir das 16h, olho as páginas de texto, que altero quando preciso adequar a leitura a meu ritmo. Troco de roupa e faço a maquiagem por volta das 16h30. Às 17h, faço as chamadas do jornal, já com imagens do SPTV. À noite, depois do jornal, participo da reunião de pauta. Deixo a Globo às 21h. A cada três semanas, apresento as duas edições de sábado e fico na emissora das 9h às 20h. Ao mesmo tempo, cuido do Antena Paulista, do qual sou editor-chefe. Coordeno reuniões de pauta, escrevo, corrijo textos, gravo o programa e assisto aos VTs para liberar. Nas quintas à noite, fecho o Antena Paulista. Nas sextas, vou para a Globo às 7h30 e gravo os VTs.

E de manhã, antes da Globo?
Acordo cedo, para curtir meus filhos, tomar café da manhã com eles e levá-los à escola. Depois, treino vôlei, às segundas e quartas, e musculação às terças e quintas. Sábado e domingo, se estou disposto, corro.

Você se considera uma pessoa vaidosa?
Não sou vaidoso, mais cuido da minha aparência, sim. Trabalho num veículo onde a imagem é fundamental. Compro muita gravata, por exemplo. Tenho mais de 200. Terno e camisa mando fazer em vários alfaiates. Me desculpem os que só vestem grifes, respeito todos eles, mas um bom alfaiate é incomparável.

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