Richard Branson e a Governança Cooperativa (APIMECMG Governança e Mercado – 09/2008)

Richard Branson e a Governança Cooperativa
Por Editora Sá | 10 de Fevereiro de 2009 | Em Notícias |

GOVERNANÇA CORPORATIVA: COMO OS CONSELHOS DE ADMINISTRAÇÃO PODEM FAVORECER O EMPREENDEDORISMO NOS NEGÓCIOS?

GOVERNANÇA E MERCADO Setembro de 2008 15Página 1 de 2POR MÔNICA MANSUR BRANDÃO (edições pares) e

Há algum tempo, aguardávamos um vôo no aeroporto de Confins, próximo a Belo Horizonte, para a cidade de SãoPaulo, quando nos deparamos, na livraria onde passávamos parte de nosso tempo de espera, com o livrodenominado Acredite em você mesmo e vá em frente, de autoria do célebre empresário inglês Richard Branson,acionista controlador do grupo Virgin. Há quem diga que não existe acaso, e se isso é verdade, parece se aplicar aopresente artigo, inspirado na primeira leitura que fizemos quando abrimos ao acaso o livro com a sorridente foto deseu autor na capa: lá estava a pequena história da abertura e fechamento de capital da Virgin, contada por Bransonno capítulo 5. Mas antes de refletir sobre essa passagem, vale a pena dizer algo sobre o autor.

Nascido em Londres em 1950, Richard Branson iniciou sua carreira empresarial aos 15 anos, por meio da criação darevista Student, seu primeiro empreendimento. O autor relata, no início do livro, a fórmula que fez a Student darcerto: planejamento e persistência. Branson afirma que ele e seu colega de escola Jonny Gems passaram dois anos,por ele considerados muito divertidos, escrevendo centenas de cartas com oferta de espaço de propaganda, além detambém tentaram entrevistas com pessoas famosas. Isso terminou dando certo. Apoiado pelos pais, Branson deixoua escola para cuidar da revista e acampado com Gems no porão da casa dos pais de seu amigo, passou a cuidarexclusivamente do empreendimento. Os jovens sócios conseguiram entrevistas com pessoas famosas como oscantores John Lennon e Mick Jagger e os atores Vanessa Redgrave e Duddley Moore, tendo sido os primeiros avender discos a baixo preço pelo correio. Com o tempo, passaram a vender discos em múltiplos pontos em váriascidades da Inglaterra. O negócio prosperou e a Virgin Music foi alcançando cada vez maior sucesso.

Outro capítulo interessante da trajetória de Branson diz respeito à criação de uma companhia aérea. Ahistória teve os seus primórdios em 1977, quando o empresário teve o dissabor de chegar ao aeroporto emuma ilha onde terminara de passar férias e ver cancelado seu vôo previsto para Porto Rico. Como ninguém semovia, Branson fretou um vôo por dois mil dólares, dividindo esse valor pelo número de viajantes, o queresultou no custo de 39 dólares por pessoa a viajar. Pedindo uma lousa emprestada, nela escreveu: VirginAirways, 39 dólares por pessoa. Vôo de ida para Porto Rico. Anos após, em 1984, o empresário recebeu aproposta de um novo negócio, visando a criação de uma companhia destinada a fazer vôos entre a Inglaterrae os EUA. A lembrança da história do fretamento e o modelo de negócio proposto impressionaram Bransone, após fazer pesquisas e enfrentar as opiniões contrárias aos seus planos, ele criou a Virgin Atlantic. Tornar aempresa um negócio atrativo não foi fácil, em função da regulamentação e, principalmente, das reações daconcorrência, mas a empresa parece ter superado os tempos pioneiros mais difíceis.

O livro de Richard Branson apresenta diversas outras passagens interessantes, abrangendo as aventuras de seu autorpor ar e mar, em geral, corridas de balão e de barco consistentes com a sua personalidade ousada e afeita a desafios.Mas o que mais nos chamou a atenção foi a pequena história da abertura e fechamento de capital do grupo, narradapelo empresário. Em 1986, a Virgin era uma das maiores empresas privadas da Grã Bretanha, com quatro milfuncionários e as vendas tinham crescido 60% no ano anterior. Branson foi aconselhado a vender ações para o público; dois de seus sócios não apreciaram a idéia, apontando o risco da perda de controle vis-à-vis do perfilpessoal do empreendedor. Pressionado por banqueiros e com o olhar voltado ao sucesso da abertura de capital deempresas como a Body Shop, de Anita Roddick e outras, o empresário foi em frente e abriu sua empresa na Bolsa deValores.

Segundo Branson afirma, cerca de 60 mil pessoas manifestaram interesse nas ações da Virgin por correio.Adicionalmente, filas se formaram na City Londrina, com muitos desejando comprar pessoalmente as ações daempresa. Branson diz que jamais se esquecerá de sua caminhada ao longo da fila, agradecendo ao público aconfiança depositada em seu trabalho. Alguns diziam que estavam abrindo mão de suas férias para investir naempresa; outros, que estavam colocando suas economias baseadas na confiança em Branson. Mas apesar desseinício emocionante, não demorou muito tempo para o empresário detestar o novo sistema. Ao invés de reuniõesinformais com seus sócios em sua casa-barco, agora tinha que conviver com um conselho de administração e essaconvivência incluía aspectos como aguardar a reunião mensal para tomar decisões relevantes, conviver comconselheiros que não tinham bom conhecimento do negócio de música e ouvir críticas sem fundamentação profundaa artistas que desejaria contratar, como Mick Jagger. Acostumado a tomar decisões de forma rápida, o empresário sesentiu tolhido. Quando as ações da Bolsa de Valores começaram a cair, ainda que não por sua culpa, Richard Branson tomou uma decisão: recomprar as ações e trazer a empresa ao status inicial. A decisão foi implementadapelo valor de 182 milhões de libras e Branson afirma que no dia em que voltou a ser dono de suas ações, sentiu-sealiviado e, novamente, senhor do seu destino.

Feitas essas considerações, retornemos à questão do título desse artigo: como os conselhos de administração podemfavorecer o empreendedorismo nos negócios? A pequena história da abertura e fechamento de capital da empresa deRichard Branson faz pensar. Não se discute a grande importância dos mercados financeiros e de capitais para ofortalecimento das economias capitalistas e para a democratização do capital na sociedade; nessa lógica,fechamentos de capital incomodam, pois sempre se espera e torce para que as empresas tenham sucesso ao seabrirem para o mercado. Talvez exista algum exagero de nossa parte nesse incômodo, mas mesmo assim, nosatrevemos aqui a comentar dois aspectos apontados por Richard Branson ao relatar suas dificuldades com a novaforma de governança dos negócios.

Primeiramente, desponta o aspecto de que a necessária burocratização dos trabalhos de um conselho deadministração não deveria prejudicar negócios que necessitam de decisões ágeis, travando o empreendedorismoempresarial. Em um contexto de concorrência acirrada, em que os agentes se movem de forma rápida, é razoávelesperar pelo próximo mês para discutir o que deve ser discutido no momento presente? A nós, parece que não. Emsegundo lugar, aparece a relevante questão da escolha de conselheiros que busquem compreender os negócios sobreos quais devem tomar decisões. Conselheiros não precisam entender de todos os negócios, mas devem estardispostos a buscar entender razoavelmente bem os vários modelos de negócios abrigados sob um grupo empresarial.Em suma, os conselhos de administração devem estar afinados com a dinâmica real do ambiente da empresa.

Richard Branson é um empresário bem sucedido, que faz diversas recomendações em seu livro a quem desejaempreender com sucesso, entre as quais planejar, perseverar e fazer acontecer. Auto-ajuda pura e simples? Pode atéser ou parecer, mas a nós, parece que os conselhos de administração necessitam utilizar formas concretas de ajudaras diretorias executivas no fazer acontecer quando e onde necessário. A tecnologia está aí para ajudar.Este artigo será publicado no portal www.apimecmg.com.br e na Revista RI – Relações com Investidores,editada pelo Instituto Brasileiro de Relações com Investidores – IBRI.

POR MÔNICA MANSUR BRANDÃO (edições pares) e MARCELO DOMINGOS (edições ímpares). Excepcionalmente na
presente Edição, Marcelo não estará presente NA SÉRIE GOVERNANÇA E MERCADO.
Mônica é conselheira da Apimec-MG, profissional de Finanças e Estratégia, professora e Mestre em Administração
(mbrandao@apimecmg.com.br). Marcelo é sócio-diretor da DLM Invista, gestor de recursos, MBA em Finanças e mestrando em
Administração (marcelo@dlminvista.com.br).

Fonte:
ApimecMg – Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais

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