De bem com a maturidade (Folha de Londrina, 27/11/05 )

Mulheres com mais de 40 anos dão lição de jovialidade, uma revolução que não passa só pelo corpo, mas pela mente

Dorico da Silva

Dorcas Valle, 45 anos: ‘‘Ninguém se realiza sendo apenas mãe, ou esposa, ou profissional, esse conjunto precisa ser bem sucedido’’

Luzia Yamashita Deliberador, 54 anos: ‘‘Não dá para se aposentar na fase mais rica em experiências, é quando a gente tem muito para doar’’
Célia Rossi da Silva, 51 anos: ‘‘Nem as ruguinhas me incomodam, eu me aceito, estou bem melhor do que há dez anos’’

O que muda na vida de uma mulher quando ela inicia o processo de maturidade? Frente ao espelho, novas marcas de expressão. No calendário, alguns meses a mais desde a última vez que pensou em idade. Entre as dúvidas, aposentar-se ou não. E os filhos, que já não são crianças e dependentes dos pais? Afinal, serão essas as principais constatações feitas pelas mulheres com mais de quarenta anos?

Christiane Collange, autora do recém-lançado ”A segunda vida das mulheres” (Sá Editora), afirma em seu livro que a segunda revolução da condição feminina está acontecendo.

Segundo ela, ”essa segunda vida eclode a partir de uma grande mudança familiar, psicológica e profissional, que traz em seu cofre secreto três principais dádivas: liberdade de ser você mesma, disponibilidade de tempo e descoberta de novas teias de ligação com a vida”.

A verdade é que as mulheres dessa geração estão cada vez mais ativas, dinâmicas, autônomas e conscientes de sua maturidade, independente de classe social ou ocupação profissional, deixando para trás todos os inconvenientes físicos e psicológicos negativos do envelhecimento.

Aos 51 anos, a cabeleireira e dona de casa Célia Regina Rossi da Silva se sente melhor atualmente do que quando era mais jovem. Para conservar sua jovialidade garante: não bebe, não fuma, se acha bonita e é otimista. Nem mesmo um incidente com sua saúde (aos 33 anos teve de retirar os ovários, as trompas e o útero devido a um mioma) a impediu de levar a vida de maneira tranquila. ”Mesmo depois da cirurgia eu continuei alegre e não entrei em depressão. Sou a mesma pessoa”, declara com confiança.

Célia tem dois filhos e é casada há 28 anos. Ao lado do marido é ministra de uma igreja em Londrina. Quando não está em seu salão de beleza instalado ao fundo de sua residência faz crochê, tricô e cozinha. ”Procuro sempre estar com a mente trabalhando, por isso não dá tempo de pensar em nada. Mulheres que não trabalham perdem muito, pois ficam presas aos seus mundinhos”, acrescenta. Um dos sinais negativos que se apresentam na maturidade é a perda da libido. Mas sua vida sexual continua ativa e não ainda não precisou recorrer a reposição hormonal.

Frente ao espelho, Célia se auto-examina: ”Eu tenho uma cicatriz no rosto em decorrência de um acidente que sofri. Muitas amigas minhas já me perguntaram se eu não vou fazer uma plástica, eu respondo que não me incomoda. Nem as ruguinhas me incomodam. Eu me aceito. Estou bem melhor do que há dez anos. Eu me inspiro muito na minha mãe que tem 81 anos e é bonita com todas as rugas que ela tem. Sempre está cheirosinha, passeia, sai sozinha, tem muita alegria de viver”.

Com respeito às mulheres mais jovens, ela afirma que em momento algum se sente inferior. ”Não é ser metida não, mas me sinto uma mulher, aos 50 anos, bonita e com alto astral”, orgulha-se.

A despeito do que a autora do livro aborda, Célia afirma administrar muito bem o lazer, a família, e seu tempo de individualidade. ”Às segundas-feiras eu me dou folga. Saio sozinha, faço caminhada, vejo lojas. É gostoso isso. A mulher precisa desse tempo”.

A maturidade também pode ser encarada sob um ponto de vista filosófico. Dorcas Valle, professora de yoga, vem preenchendo sua bagagem de vida desde que viajou à Índia, cerca de 15 anos atrás. Aos 45 anos, tem quatro filhos adolescentes e já foi casada duas vezes. Para ela, a maturidade não tem a ver com idade, mas com o desenvolvimento que a pessoa possa vir a ter. ”De acordo com o yoga, nós temos setes pontos de energia no corpo (chacras), e podemos dizer que amadurecemos quando todos esses pontos são desenvolvidos de uma maneira integral. Muitas pessoas são fragmentadas. Algumas pessoas até mais jovens podem desenvolver esse potencial. Porém as pessoas podem chegar aos 70 anos e não ter desenvolvido esse potencial”, pondera.

Afinal, o que faz uma mulher com seus quarenta e poucos anos se aceitar de maneira saudável? Dorcas sugere que ter vivenciado todas as oportunidades de da vida seria uma das alternativas: ”a pessoa não se realiza apenas sendo mãe, ou esposa, ou uma profissional, é necessário esse conjunto ser bem sucedido”.

Luzia Yamashita Deliberador tem 54 anos e coloca em prática a premissa de que ”o tempo não pára”. Casada há quase 26 anos e com dois filhos, trabalha com educação há mais de três décadas. Atualmente é professora aposentada da Universidade Estadual de Londrina (UEL), presidente da mantenedora de uma faculdade em Maringá, coordena um grupo de idosos da Associação Cultural e Esportiva de Londrina (Acel) e é secretária de uma entidade assistencialista em Londrina. Para ela, maturidade é ter consciência de seu tempo e enxergar a vida não apenas no presente, mas avaliando o passado para realização de projetos futuros. ”A maturidade te dá uma noção do que você pode realmente contribuir, colocando em prática toda experiência que você acumulou durante os anos. É quando a gente tem muito o que doar. Não dá para se aposentar na fase mais rica em experiências”, afirma.

Filha de imigrantes japoneses, Luzia cita acontecimentos marcantes para sua geração, entre eles, a época universitária vivida em plena censura. ”Foi muito difícil, mas eu acho que justamente por isso nós amadurecemos. Essa experiência não deve ser enxergada no sentido negativo”, ressalta. Ela acrescenta, ainda, que sua geração cresceu permeada de valores muito diferentes dos atuais, mas sempre encara essa fase como uma lição que a tornou mais forte. ”Agora eu sou contra essa história de que mulher é mais ou menos forte que o homem. A sociedade precisa dos dois para realmente evoluir. Temos que brigar contra preconceitos e radicalismos de qualquer tipo”, ressalta.

A postura otimista, através dos anos, Luzia atribui à convivência com idosos: ”É pos

sível chegar à velhice com uma história de vida, construções e lutas. Essa serenidade eu aprendi com eles”, conclui.

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