Culpa: do quarto para cozinha (O Tempo, 15/06/2008)

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Paradigma. Sociedade moderna vive mudança de valores e é refém da ditadura consumista

Hoje maior pecado é repetir a sobremesa e engordar alguns quilinhos a mais

Ana Elizabeth Diniz

Especial para O TEMPO

15/06/2008

Paula está com suas amigas em um bar. Elas falam sobre tudo, trabalho, a blusa da moda, a cor do novo batom que promete aumentar o tamanho dos lábios, da intimidade com aquele cara lindo e sarado que Denise conheceu semana passada, do Breno que chifrou sua namorada com a Camila, das noites de sexo selvagem que Tati teve com Augusto. “Você viu como a Jack engordou?”, ironizou Denise. Bebida, cigarros, risos, descontração e muitas gargalhadas. No final, o garçom sugere uma pizza de brigadeiro com morango e bordas trufadas. Foi a gota d´água. “Era só o que faltava. Acha que vou cometer esse pecado, comer doce? Nem pensar”, reagiu Paula.

É. Os valores mudaram. “A culpa saiu do quarto e foi para a cozinha. Hoje em dia as pessoas falam sem constrangimento sobre sua vida sexual e se sentem envergonhadas por comer a sobremesa, ou repetir o pudim. Se comem, é escondido, como era antes o sexo. É preciso purgar, pagar por aquele prazer. Se antes o padre recomendava rezar dez terços para pagar o pecado, hoje se recomenda cem abdominais para pagar (ou apagar) os excessos na mesa”, analisa Cybelle Weinberg, psicanalista, paulista, 58, coordenadora da Clínica de Estudos e Pesquisa em Psicanálise da Anorexia e Bulimia e autora dos livros “Do altar às passarelas – da Anorexia Santa à Anorexia Nervosa”, “Geração Delivery – Adolescer no Mundo Atual” e “Por que estou assim?- os momentos difíceis da adolescência”. Seu último lançamento é “Sabores Inconscientes: Receitas sem Culpa”.

O livro fala sobre dietas, jejuns e restrições de forma leve, divertida, “ou mais pesada se pensarmos nas calorias das receitas. Convidei profissionais acostumados a ouvir as histórias dos seus clientes e foi um desafio para eles escrever suas próprias lembranças”, diz Cybelle que se diz perplexa ao constatar que as famílias estão se desagregando e que o computador, a televisão e a Internet substituíram o diálogo, as trocas afetivas.

“Fazem muita falta, hoje, aqueles momentos de reunião familiar em torno da mesa. Era às refeições que se trocava idéias, que se ficava sabendo o que cada um estava pensando ou fazendo. Fico surpresa quando ouço as famílias dizerem que cada um come em um horário, em muitas casas nem se põe a mesa, a panela fica no fogão, cada um se serve e come em frente à televisão. O que faz, por um lado, com que as famílias não saibam que suas filhas não estão se alimentando (e desenvolvendo um quadro anoréxico), ou estão tendo compulsões e vomitando depois (um quadro bulímico) ou mesmo caminhando para a obesidade, quando ingerem comida sem ter noção do quanto comeram”, adverte a psicanalista.

A sociedade se tornou refém dos padrões de beleza. Ser gorda é quase um pecado. “Vejo essa ditadura do corpo magro, como algo muito perigoso. Trabalho com meninas que sofrem de transtornos alimentares (anorexia e bulimia) e sei o quanto elas sofrem”, pontua Cybelle.

Cybelle Weinberg diz que “talvez o conceito de pecado no sentido restrito de “ir para o inferno??? tenha mudado, mas no sentido de não ter “resistido à tentação???, continua o mesmo. Em lugar do ideal de santidade, da alma pura, temos o ideal do corpo magro, puro, lipoaspirado. O ideal de perfeição continua sustentando esses comportamentos???.

Para a psicanalista, os sete pecados capitais falam de tudo aquilo que é humano. E se fossemos deixar à solta tudo aquilo que é humano, a convivência social ficaria impossível. Cada época ou cultura elege um ou outro pecado para condenar com mais vigor e fecha os olhos para outros. Afinal, ninguém é de ferro para seguir à risca todas as proibições, não é mesmo????, ironiza.

Depoimento – Tadeu Juvenal da Silva
Família reunida à mesa, um ritual de partilha e gratidão

Uma boa mesa deve ter a família reunida, vela, flor e vinho. O hábito de reunir a família em torno da mesa vem da minha infância, mesa grande e todos lá, conversando, compartilhando experiências. Já adulto, vivi muito tempo viajando pelo mundo, o que inviabilizou essa prática. Quando casei e os filhos começaram a nascer, a reunião em torno da mesa aconteceu automaticamente. A família da minha mulher, que é belga, também tinha esse costume, o que reforçou nossa intenção em fazer das refeições um horário de encontro com os filhos. Aqui em casa, as refeições são sagradas, é um momento em que nos sentamos todos juntos, fazemos uma oração para abençoar o alimento, e conversamos sobre a rotina de cada um, os seus sentimentos, se existe alguma dificuldade e as alegrias, Minha mulher sempre faz para os meninos duas perguntas básicas: o que aconteceu de bom no dia e qual foi a dificuldade ou algo ruim. Cada um conta como foi o seu dia, os meninos entram na conversa do outro, dão palpites. Pela manhã, comentamos os nossos sonhos. É um momento precioso em que fortalecemos nossos vínculos afetivos, a partilha e o diálogo.

Publicitário e chef de cozinha

Depoimento – Uriel Luano Viana da Silva
Meu amigo ficou surpreso: “Vocês almoçam juntos????

Eu acho legal o jeito da minha família. Desde criança, nos sentamos à mesa para fazer as refeições. Eu gosto desse momento, pois é quando podemos conversar sobre tudo o que aconteceu no dia. Minha mãe sempre faz perguntas do tipo se estou tendo alguma dificuldade, como estão meus amigos, o que de bom aconteceu naquele dia. Às vezes não sou muito de falar, mas quando ela pergunta, fico à vontade para colocar alguma coisa que está pegando. É quando também eu fico sabendo o que está acontecendo na vida deles e dos meus irmãos. Certo dia, quando meus amigos vieram na minha casa, eles ficaram surpresos quando minha mãe colocou a toalha, os pratos e um lanche para nós. ???Vocês almoçam juntos, todos na mesma mesa????. Eu não sabia que aquilo era algo fora do normal. Eu já havia percebido que quando ia na casa dos meus amigos, eles comiam na frente do computador ou da TV.

Estudante, 14 anos

Publicado em: 15/06/2008

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