Geração Delivery – Adolescer no mundo atual

GERAÇÃO DELIVERY

Adolescer no mundo atual

Cybelle Weinberg (Org.)

Ser adolescente, hoje, é muito mais difícil do que foi em épocas passadas, ainda que aparentemente as coisas estejam muito mais fáceis para os jovens. Os pais são mais compreensivos, mais tolerantes, há maior liberdade sexual, maior liberdade de expressão, maior liberdade para escolha profissional. Essa dupla mensagem da sociedade, por um lado acreditando que hoje tudo é mais fácil e por outro sendo cada vez mais exigente no que diz respeito à competência profissional, à estética, ao sucesso, etc, é responsável por novos sintomas que se manifestam nas relações familiares, na escola e no próprio corpo.

Por isso se justifica reunir num mesmo livro assuntos tão diversos quanto adoção, relações incestuosas, sexualidade e gravidez na adolescência, escolaridade, depressão pânico, drogadição, transtornos alimentares.

São assuntos delicados, exigiram talento, conhecimento e experiência dos autores dos diversos capítulos. Cada um, a seu modo e a seu estilo, e de acordo com sua especialidade, soube superar as dificuldades do tema, a principal delas a de não culpar ninguém, mas compreender.

Estas são as palavras de ordem do mundo contemporâneo. Se o mundo está difícil para nós, adultos, o que pensar para os adolescentes?

Adoção, relações incestuosas, sexualidade e gravidez na adolescência, escolaridade, depressão pânico, drogadição, transtornos alimentares,são assuntos delicados tratados por profissionais experientes, autores dos diversos capítulos deste livro, destinado prioritariamente a pais, professores, orientadores e outros profissionais que trabalham com adolescentes.

Vivemos a época do delivery – entrega-se de tudo hoje em dia: pizzas, vídeos, flores, livros, remédios, eletrodomésticos, maconha. Nossos jovens estão crescendo num mundo de entregas rápidas, de soluções imediatas, de falta de espaço para a espera e o amadurecimento.

É o mundo do fast food, do e-mail, do video clip. Do “tudo entregue na mão”. E já! Como exigir desses jovens, que têm tudo à mão, desde as entregas do motoboy, até as facilidades proporcionadas por pais e professores, que saiam à luta, que encarem as frustrações que toda conquista requer?

Na contramão do delivery

Esse é um dos sentidos do delivery de que falam os autores. O outro é o do próprio “delivery de adolescentes”: meninos e meninas sendo entregues aos cuidados da escola, do motorista, da professora particular, do médico, do terapeuta. Entregues a qualquer um que seja capaz de estabelecer limites, porque os pais, também estão tendo dificuldades em exercê-lo.

Geração perdida?

Pensando nas muitas queixas que tem ouvido de pais e professores, de
que “essa geração está perdida”, a autora convidou profissionais que trabalham com adolescentes, em diferentes áreas, para contarem sua experiência. E todos os autores presentes, com muita delicadeza, puderam mostrar que esta geração não está perdida. Que perdidos estarão os adultos se não compreenderem que, apesar do descartável e do vapt-vupt, os adolescentes precisam da solidez dos valores e da experiência dos mais velhos. Ainda que, do alto da onipotência juvenil, achem isso tudo muito ultrapassado.

Para o professor: para ser usado nas escolas, reuniões de pais e mestres, seminários de educação, etc. Indicado para Faculdades de Psicologia, Estudos Sociais.

Autores

Christiane Laurito Costa – Claudia Figaro-Garcia – Cybelle Weinberg – Francy Ribeiro Moreira – Isabel Cristina Hierro Parolin – José Outeiral – Lígia de Fátima Nóbrega Reato -Maria Cristina Perdomo – Maria Helena Hessel – Maria José Carvalho Sant’Anna – Maria Rita Kehl – Marilda S. da Rocha Britto – Nívea Maria de Carvalho Fabrício – Sylvia de França G. dos Reis – Waldo Hoffmann

Autora

autor_cybelle_weinbergCybelle Weinberg nasceu em Araraquara, SP, em 1950. Formou-se em Filosofia em 1972.

Trabalhou em escolas como professora de Filosofia e Psicologia. Como Orientadora, encaminhou seus estudos para a Psicopedagogia e para a Psicanálise. Atualmente atende adolescentes em seu consultório e é colaboradora do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de SP.

Leia um trecho

Seja jovem, seja feliz, seja magro, seja bem informado, seja alguém de sucesso!

Estas são as palavras de ordem do mundo contemporâneo. Se o mundo está difícil para nós, adultos, o que pensar para os adolescentes?

Vivemos numa época em que as mudanças, decorrentes de novas descobertas e invenções, ocorrem num ritmo vertiginoso.

A minha questão é: o que os jovens estão fazendo com essas novas informações, em que estão sendo beneficiados e/ou perturbados pelas transformações sociais?

O que tenho ouvido na clínica e fora dela são queixas de adolescentes que se sentem perdidos, apáticos ou ansiosos quanto ao seu futuro. Os pais parecem ainda mais perdidos do que eles. O que significa, então, adolescer no mundo atual?

Outro dia, conversando com um jovem rapaz sobre seu amigo que caíra em profunda depressão, ele me fez a seguinte observação, num tom mais de constatação do que de melancolia: “É, deu tudo errado!”

Perguntei-lhe o que significava esse seu comentário, e ele me disse: “Veja meus pais e os amigos dos meus pais: são gente boa, deram duro na vida, investiram na gente, fizeram tudo o que puderam. E olhe nós: um drogado, outro deprimido, outro que morreu, outro que surtou, outro que não conseguiu estudar, outro que não tem profissão… É isso, eu não sei por quê, mas deu tudo errado!”

Este livro, destinado prioritariamente a professores, orientadores e outros profissionais que trabalham com adolescentes, é uma tentativa de responder a esse jovem. E a todos aqueles que sentem que deu tudo errado.

Todos os que aqui escrevem – médicos, psicanalistas, psicopedagogos, professores – têm como objetivo mostrar que esses adolescentes, assim como seus pais, “não deram” nem “fizeram” tudo errado. Mas esta geração, por ser de transição, fim de milênio, uma época de mudanças de valores, sofre “na pele” as conseqüências dessas transformações.Ser adolescente, hoje, é muito mais difícil do que o foi em épocas passadas, ainda que aparentemente as coisas estejam muito mais fáceis para os jovens. Os pais são mais compreensivos, mais tolerantes, há maior liberdade sexual, maior liberdade de expressão, maior liberdade para escolha profissional, maior liberdade para isto, maior liberdade para aquilo.

Os adultos dizem que no seu tempo não era assim, que era tudo mais difícil, que seus pais não os compreendiam, que era preciso “pegar cedo no batente”, que logo deixaram a casa dos pais e foram cuidar da própria vida. Então, parece que realmente hoje está tudo mais fácil.No entanto, o que vemos são jovens com pouca iniciativa, angustiados diante da escolha profissional, deprimidos, estressados, com dificuldade para sair da casa dos pais e definir seu próprio caminho. Evidentemente, isso não pode ser generalizado, mas é espantoso o número de meninos e meninas nesta situação.

Analisemos, então, algumas destas “facilidades” do mundo moderno – sexo, por exemplo. Realmente, falar sobre sexo, hoje, é muito mais fácil do que antigamente. Discute-se sexo na escola, em casa, na televisão. É mais fácil fazer sexo, também. Existe a pílula anticoncepcional e uma maior tolerância dos pais com relação à prática sexual dos filhos.Por outro lado, o sexo, hoje, está associado ao perigo da Aids. Morte e sexualidade caminham juntas. À insegurança das primeiras experiências sexuais juntou-se o medo da contaminação. Além disso, sabendo dos riscos de uma gravidez precoce, alguns pais, aflitos (e com razão!), se antecipam aos pedidos dos filhos, levando a pobre menina de doze anos ao ginecologista, assim que ela diz que “ficou” com aquele menino. Ou comprando caixas de camisinhas para o moleque que mal saiu das fraldas! Isso apavora qualquer criança, principalmente numa fase da vida em que a privacidade é tão prezada.Aliás, esta é outra questão: há privacidade no mundo contemporâneo? De tudo se fala abertamente. Pais comentam com os filhos sobre sua vida sexual. Se são separados, contam aos filhos sobre seus namoros, paqueras, com quem “ficaram”. Não parece que as coisas estão um pouco invertidas? Não é (ou era) esse justamente o papel dos pais, escutar as aventuras dos filhos?

Será que ser amigo é ser confidente? Atendo uma garota que me diz que ela e a mãe são muito amigas, que a mãe lhe conta tudo, não tem segredos para com ela. Só que ela não conta tudo à mãe. Primeiro, porque não sobra espaço para ela, pois sente que suas histórias “são um lixo” comparadas com as grandes histórias da mãe. E depois, porque a mãe faz tantas coisas de adolescente, que ela se pergunta quem deve dar conselhos a quem.Na televisão, e em qualquer revista, já faz parte de toda entrevista perguntar sobre a vida sexual do entrevistado, quando transou pela primeira vez, se foi bom, com quem foi, se já teve experiências homossexuais. Na novela, todo mundo transa “no ar”. Eu me pergunto o que esse saber acrescenta na formação de uma criança.

Antigamente, havia coisas que as crianças não podiam saber. É verdade que alguns pais exageravam. Mas, de qualquer forma, havia uma limite, um saber que separava o mundo adulto do infantil. Hoje, caiu-se no extremo oposto. As crianças sabem tudo. (Aliás, mais do que nós, adultos: chamamos as crianças para programar o vídeo, para fazer a gravação da caixa postal do celular, para fazer os gráficos das nossas palestras…)Esse saber, penso, roubou o “infantil” das crianças. Aliás, não só o saber, mas também a moda e o excesso de erotização. O que se vê são crianças falando como adultos, se vestindo como adultos, dançando e rebolando como adultos. E, em contrapartida, adultos cada vez mais infantilizados… mas muito moderninhos!

Outra “facilidade”: famílias mais abertas, sem aqueles papéis rígidos de antigamente. É claro que isso é muito bom. Porém, com medo de repetir a educação repressora que tiveram, alguns pais caem no extremo oposto. Passam do “não poder nada” de antes para o “pode tudo” de hoje. O resultado é que esses pais se perdem no meio do caminho, e o que mais tenho ouvido são pessoas pedindo, pelo amor de Deus, que alguém os ensine a ser pais.Além desta dificuldade, acrescente-se a competição que se instalou dentro da família.

Há uma falsa promessa, veiculada pela mídia, de que ser jovem é ser feliz. Ninguém quer envelhecer, ninguém quer sair do palco. Pais e filhos estão competindo: quem tem mais sucesso com as mulheres, quem usa a saia mais curta, quem tem os seios ou o bumbum mais arrebitado – nem que para isso se carregue quilos de silicone ou se faça implante na careca.Os pais estão se pregando uma peça quando saem do seu papel, quando pretendem ser coleguinhas dos filhos: os jovens precisam de adultos fortes, que resistam a um enfrentamento. Do contrário, o que sobra para o adolescente é um profundo sentimento de decepção. Passaram a vida toda esperando “crescer” e, quando crescem, se perguntam: “Mas, espere aí, foi para isso que eu cresci? Para ser igual a vocês? É melhor continuar criança!”

Ou, como me disse um rapaz: “Ser adolescente é cair na real, é sair do sonho da infância e cair na real, que vai durar para o resto da vida”.

Esse “cair na real” é, também, admitir que os pais são frágeis, que tentaram e fizeram o que puderam fazer, que não são imortais, mas que, pelo contrário, não só vão morrer um dia como já estão envelhecendo. Porém, se os adultos se recusam a envelhecer, como é que fica?Outro problema é que os pais, que passaram a vida dizendo ao filho que o importante é ser feliz, se arrepiam quando eles jogam tudo para o alto e obedecem direitinho. Outra contradição da modernidade.

Enfim, essa dupla mensagem da sociedade, de um lado acreditando que hoje tudo é mais fácil e por outro sendo cada vez mais exigente no que diz respeito à competência profissional, à estética, ao sucesso, etc., é responsável por novos sintomas que se manifestam nas relações familiares, na escola e no próprio corpo. Por isso se justifica reunir num mesmo livro assuntos tão diversos quanto adoção, relações incestuosas, sexualidade e gravidez na adolescência, escolaridade, depressão, pânico, drogadição, transtornos alimentares.

São assuntos delicados – exigiram talento, conhecimento e experiência dos autores dos diversos capítulos. Cada um, a seu modo e ao seu estilo, e de acordo com sua especialidade, soube superar as dificuldades do tema, a principal delas a de não culpar ninguém, mas compreender.Crise de pânico, depressão, violência, drogadição, anorexia… Talvez sejam essas as formas, bastante trágicas, que nossos adolescentes encontraram para denunciar. Ao ideal do prazer e da beleza respondem com a morte e com a dor. Ao seja feliz respondem com a busca de um prazer ilimitado. Ao seja esbelta respondem com uma magreza cadavérica.

E os outros, os adolescentes que não adoecem, que não dão trabalho, onde estão?Vivemos o fim das ideologias, não há conflito de gerações, não há contra o quê se rebelar. Eles estão em casa, pedindo pizza pelo telefone, assistindo ao filme alugado, navegando na Internet. Sair de casa? Pra quê?

E-book: você pode ler o livro nas versões em inglês, espanhol e português em seu tablet, Ipad ou celular, comprando e baixando o texto direto das livrarias que vendem livros digitais!

Impresso: ainda estamos comercializando parte da tiragem impressa deste livro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *