A dança com a realidade (Revista Época)

Relançado o clássico A noite dos desesperados

No filme de Sydney Pollack, Jane Fonda e Michael Sarrazin (ao centro) dançam durante 879 horas, com raros intervalos

Horace McCoy (1897-1955) faz parte da safra de escritores americanos durões dos anos 30. Como vários de seus colegas, foi cooptado pela indústria do cinema de Hollywood, onde viveu, como eles, momentos infelizes. Os livros de McCoy foram escritos com a urgência da era da Depressão e dos gângsteres: são velozes, ácidos, temperados com palavrões, perfeitos para uma adaptação cinematográfica. Poucos romances daquele período, no entanto, conseguiram ser tão realistas e pontuais quanto A noite dos desesperados, de 1935. O autor situou a ação numa maratona de dança, então muito comum. A ela não faltam brigas, assassinatos, diálogos ásperos. Mas são elementos que compõem a atmosfera e não a essência da trama, centrada num casal de concorrentes criado por conveniência. O protagonista não é nenhum valentão, ainda que seja acusado de assassinato logo nas primeiras linhas. Mas a violência corre nas entrelinhas.

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir viram em A noite dos desesperados um exemplo de obra existencialista. Levada ao cinema por Sydney Pollack, em 1969, resultou em um belo filme. Em tempos tão deprimentes de gincanas realistas na TV, o relançamento do livro (já traduzido por Erico Verissimo, mas fora de catálogo) cai como uma luva.

Título: A noite dos desesperados
Autor: Horace McCoy
Editora: Sá
Preço e páginas: R$18/160

Cadão Volpato

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