Era Trágica (Valor Econômico, 18/12/2000)

Sá publica uma nova tradução de “A Noite dos Desesperados???, de Horace McCoy.

Por Antonio Gonçalves Filho, de São Paulo

Editora nasce com o épico da Depressão

Lançamento amanhã, às 18h30, na Livraria Cultura do Shopping Villa- Lobos (Av. Nações Unidas, 4.777, São Paulo) com exibição de trechos do filme e debate com a participação dos jornalistas Nelson Ascher, Renato Pompeu e Gabriel Priolli.

Jane Fonda no filme “A Noite dos Deseperados???, que recebeu cinco indicações para o Oscar: no limite da degradação.

Uma nova editora nasce amanhã e já oferece como primeiro berro a novela máxima da Depressão americana. Isso em plena era das abomináveis maratonas televisivas, que testam os limites de nossa sociedade autodestrutiva. Sá, a nova editora, encomendou ao jornalista e escritor Renato Pompeu uma nova tradução de “They Shoot Horses, don’t They????, livro do americano Horace McCoy, que ganhou no Brasil o título do filme baseado em sua obra, “A Noite dos Desesperados???. O livro será lançado amanhã na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos, com exibição de trechos do filme de Sydney Pollack e debate.

O livro já foi traduzido nos anos 50 por Érico Verissimo. Com o respeito que o escritor gaúcho merece, não foi um de seus melhores trabalhos. A sociedade brasileira da época, promotora de maratonas de carnaval entre miseráveis, era puritana demais para aceitar os palavrões de McCoy, ex-motorista de táxi, guarda-costas de político e ele mesmo participante de maratonas de dança, típicas da época de Depressão, em que casais testavam sua resistência dançando até mil horas sem parar.

O tradutor Renato Pompeu, ao contrário de Verissimo, não tem medo da boca suja de McCoy, que reduz a linguagem a cacos em “A Noite dos Desesperados???. Morto aos 58 anos, em 1955, Horace McCoy foi autor de novelas policiais sobre a escória humana (“Kiss Tomorrow Goodbye???) e sua vocação para a sarjeta (“I Should Have Stayed Home???, que tem mais gigolôs e vagabundas em suas páginas do que em toda Hollywood).

McCoy sabia do que estava falando. Começou a trabalhar aos 12 anos, saiu do Tennessee para vender bugigangas no cafundó dos Estados Unidos e dançou em maratonas a troco de um prato de comida. Sabia que nesse jogo todos já entram perdedores.

A primeira frase de “A Noite dos Desesperados??? revela o absurdo camusiano da maratona de dança, em que Glória acaba com um tiro na cabeça –um tiro de misericórdia como o dirigido a cavalos agonizantes. “Fiquei de pé???, lembra o réu, que, sem culpa, despachou Glória para o inferno. Seu parceiro no “dance hall??? freqüentado por pulgas e esfomeados, Robert ficou finalmente em pé depois de se arrastar pelo salão da maratona como um rato atingido no lombo. Foi a única vez que conseguiu ficar de pé em sua luta pela sobrevivência.

Enquanto Glória e Robert, dois aspirantes ao cinema, dançam no triste cenário da maratona, Ginger e Fred enchem as telas com um convite irresistível e alienante, “Shall We Dance???. McCoy, que escreveu roteiros para o cinema, usa a grande metáfora da tela prateada para iluminar o salão do concurso de resistência, em que casais de famintos disputam um prêmio que jamais chegará às suas mãos.

Numa das mais ternas cenas do filme de Pollack –uma feliz e fiel adaptação do romance–, o patético Robert (Michael Sarrazin) deixa-se banhar por um raio de sol que penetra, clandestino, por uma fresta na porta dos fundos do claustrofóbico salão de danças.

No livro, um massagista interrompe o estado hipnótico do infeliz, ameaçado de desclassificação por ousar abrir a porta do inferno. No filme, a luz nas trevas assume dimensão assustadora. É uma metáfora exemplar sobre cegos que procuram um raio de esperança num mundo marcado pela escuridão, pela regressão à caverna, pela volta ao instinto básico de sobrevivência.

Assim era em 1935. Assim é no ano 2000. O que assustava na época da Grande Depressão (desemprego, pobreza e migração) ainda assusta no limiar do novo século. A idéia de vida no microcosmo criado por McCoy no salão da maratona é a de que sempre haverá alguém em pior situação do que a sua. Também por essa razão outros miseráveis saem de casa para acompanhar a procissão dos desvalidos, a queda dos que dançam e participam de corridas comandadas pelo sádico Rocky, mestre-de-cerimônias desse inferno.

Um espectador do filme, pela internet, chegou a classificá-lo como uma tragédia grega. Outro o definiu como uma versão irônica do holocausto, acompanhada pelo som das “big bands???. Não há exagero nessas definições, apenas o sentimento comum de que vivemos, como definiu D.H. Lawrence, numa época essencialmente trágica.

A morbidez de Glória é apenas um sintoma do terrível desconforto diante de um mundo reduzido ao egoísmo e ao desespero. Ela despreza Ruby, a maratonista grávida (“mais um infeliz no mundo???) e Alice, a “starlet??? alienada. Mas, como elas, ainda sonha encontrar um salvador na platéia, mesmo ferida como uma cadela faminta e sarnenta (“merda para a minha oportunidade???, responde Glória ao parceiro, quando este insiste em apresentar a companheira ao gerente de publicidade de uma cervejaria, que toma por produtor).

A essa altura da novela, 897 horas de danças ininterruptas afastaram qualquer possibilidade de salvação. Vinte casais disputam o osso prometido pelo mestre-de-cerimônias Rocky antes do desabamento moral de uma sociedade que desclassificou a solidariedade e expurgou a esperança da pista de dança.

Em boa hora a Editora Sá recoloca no mercado um livro que volta para incomodar o coro dos contentes, que parecem testar seus limites morais empurrando contra a parede uma massa de Glórias e Robertos, obrigados a dançar a música dissonante do consumo e da alienação. Enquanto isso, a arquibancada ruge, se acotovela e pede bis. Como no livro de McCoy, que termina invocando a piedade de Deus para um réu que apenas aliviou o sofrimento de outra infeliz, não há saída de emergência nesse inferno. Mas não custa perseguir um raio de sol nas frestas dessa maratona infernal.

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