Os bastidores do reality show num livro corajoso (AOL Notícias, 26/04/2004)
Por Antonio Gonçalves Filho
Vanessa Cristina Soares Dias é a primeira participante do Big Brother a escrever um livro sobre sua experiência no reality show. Tina – Bastidores de uma Panela de Pressão (Selo Planetário da Pandora Books), lançado na Bienal do Livro, surpreende pela coragem. Primeiro, porque Tina deixou de bater panelas em protesto contra a competição injusta e foi à luta para denunciar o jogo sujo de uma seleção nada natural. Segundo, porque, ao revelar os bastidores do programa mais visto do País, arriscou a própria carreira na televisão – afinal, Tina virou produtora e nada indica que o livro possa ajudá-la a conquistar aliados nessa luta contra a máquina de triturar cérebros.
Tina é um livro que se deve ler do fim para o começo. Em março, quando escrevia as últimas linhas, refletiu sobre o que procurava num programa como Big Brother (além do prêmio, é claro) e concluiu que não estava lá a resposta. Como todo jovem que busca o sucesso e a afirmação individual, Vanessa caiu numa armadilha preparada pela máquina. Só a duras penas conseguiu recuperar o equilíbrio, depois de confrontar adversários e os organizadores do Big Brother Brasil.
Como se suspeitava, a parte mais chocante do programa não é invasão da privacidade dos participantes, que, afinal, concordaram com a baixaria ao assinar o contrato. As provas preliminares são mais cruéis. Elas lembram aquelas maratonas de dança que os Estados Unidos produziam na época da Depressão. Nos anos 30, com milhares de desempregados, alguém teve a maquiavélica idéia de organizar maratonas em que os participantes eram obrigados a dançar noite e dia sem parar. Os infelizes comiam em pé e dormiam nos ombros dos parceiros, acompanhados pelos olhos de uma platéia idiotizada. Ginásios onde eram realizadas essas maratonas ficavam lotados dessa gente esfomeada, disposta a ver outros em situação pior.
O escritor Horace McCoy tem um notável livro a respeito, They Shoot Horses, Don’t They? (A Noite dos Desesperados, Sá Editora). Nele, a personagem Glória é a correspondente americana da Tina brasileira. Cedo ela percebe que todas as promessas da maratona não passam de uma grande farsa. O prêmio não existe. Nenhum produtor de Hollywood virá resgatá-la da pista de dança. Ela só faz parte de um show miserável para gente igualmente miserável. Desiludida, Glória pede a seu parceiro Robert que a mate com um tiro na cabeça, no que é atendida prontamente. Afinal, não é assim que se matam cavalos?
A morte do humanismo, na novela de McCoy, encontra correspondência em várias cenas descritas no livro de Tina, da primeira entrevista, em que um dos inquisidores promete “morte lenta” à participante, à pressão dos parceiros, que ficam sem comida numa prova do Big Brother por sua causa, linchando-a moralmente. A morte está simbolicamente presente na “voz do além”, que dá ordens aos participantes da casa como um ditador ausente, decidindo o que eles devem fazer e onde devem dormir. E, de uma forma ainda mais dramática, na sirene de despertar, nada distante daquelas existentes nos campos de concentração, a crer na descrição de Vanessa.
A casa, mais que vigiada, é uma metáfora exemplar da sociedade em que vivemos. Jovens são conduzidos a uma ratoeira com a promessa de sucesso fácil e acabam destruindo o que há de melhor dentro deles em troca de fama, sucesso e dinheiro fácil. Tina virou, segundo Vanessa, uma “celebridade instantânea”. E recomenda, sarcástica: “Basta acrescentar água”. Mas a grande ironia, conclui, está no fato de milhões de pessoas “serem vigiadas pela própria sociedade em que vivem” sem consciência disso. Big Brother está de olho em você. É é mais poderoso que o modelo original de Orwell, garante Tina. Aliás, Vanessa.


