Romance faz inventário da loucura americana (Jornal da Tarde, 17/12/2000)
“A Noite dos Desesperados”, escrito por Horace McCoy e publicado em 1935, é o retrato cru da América em dissolução. Lançamento, em nova tradução de Renato Pompeu, é na terça-feira, no Shopping Villa-Lobos
Mais de meio século antes que os reality shows se tornassem febre na televisão, um americano do Tennessee escreveu um clássico do gênero. Um casal se inscreve numa maratona de dança que oferece U$ 1 mil para o vencedor. As regras são claras: você deveria dançar durante uma hora e cinquenta minutos e descansar apenas dez. A competição termina quando sobrar apenas um par de dançarinos, os vencedores.
Horace McCoy sabia do que estava falando quando escreveu A Noite dos Desesperados, publicado em 1935 com o título original They Shoot Horses, Don’t They? (Eles matam cavalos, não matam?). Estava, como o personagem Robert Syverten, vivendo de bicos durante a depressão americana e louco para trabalhar no cinema. Maratonas se multiplicavam por todo o país atraindo gente como Robert, que, por causa do desemprego, não tinha onde cair morto.
De pires na mão Publicada no Brasil em 1947, pela Livraria do Globo em tradução de Érico Veríssimo, a obra mais conhecida de McCoy ganha nova tradução, dessa vez assinada por Renato Pompeu, e nova casa, a estreante Sá Editores, de Eliana Sá, ex-editora de livros da Globo por 11 anos.
McCoy já era escritor quando publicou A Noite dos Desesperados. No final dos anos 20 ele colaborava em várias revistas e havia criado um nome respeitável na galeria dos cultores dos policiais hard-boiled ao lado de, entre outros, Dashiel Hammet, Chandler e James Cain, cujo romance The Postman Always Rings Twice (O Destino Bate à sua Porta) teve a honra de sugerir motivos aos existencialistas franceses.
Trouxera para o gênero sua experiência como repórter do Dallas Journal e sua participação como aviador na Primeira Guerra Mundial, durante a qual chegou a ser condecorado.
Em 1927, a revista Black Mask publicou a primeira das 17 McCoys Stories, escritas em estilo hemmingwayniano. Tudo caminhava para transformá-lo num escritor de sucesso, mas aí veio o crash de 29 e McCoy perdeu seu cargo no jornal.
Durante a Depressão ele tentou se tornar ator em Hollywood. Foi para Los Angeles com o pires na mão levando invariavelmente com a cara na porta toda a vez que procurava uma ponta nos filmes.
As agruras de McCoy na Califórnia tiveram um efeito vindicativo contra a utopia americana, pois poucos livros revelam uma América mais cruel com seus filhos do que A Noite dos Desesperados.
Enquanto está sendo julgado por homicídio, o figurante desempregado Robert Syverten relembra o dia em que conheceu Gloria Beatty, outra candidata fracassada à atriz e uma garota desiludida e obcecada com a idéia da morte.
Ela o convence a participar de uma maratona de dança na praia.
Chancela de Beauvoir-Sartre A competição, organizada num velho salão de danças debruçado sobre o Pacífico, reúne 144 casais num teste de resistência que consiste em dançar, com breves intervalos de dez minutos a cada duas horas, até que apenas um par reste na pista.
McCoy optou pelo flashback. Ele lembra o momento em que conheceu Gloria enquanto é julgado. Repassa todos aqueles dias de provação e convivência com a obsessão da garota pela morte.
Durante mais de um mês, Robert conviveu com farrapos humanos que são postos à prova como animais para divertimento de uma platéia cada vez mais ávida à medida que aquele espetáculo se torna mais grotesco.
Publicado em 1935, o livro conquistou a simpatia de uma dupla de respeito.
Simone de Beauvoir e Sartre o classificaram como exemplo de existencialismo americano, mas foi em 1969, quando Sidney Pollack o adaptou para as telas com Jane Fonda e Michael Sarrazin, que o livro de McCoy se tornou um clássico.
Depois do sucesso de A Noite dos Desesperados, Horace McCoy conseguiu trabalhar no cinema assinando roteiros para filmes de Irving Rapper e Nicholas Ray, entre outros, e ainda publicou vários romances de sucesso, até morrer em 1955.
Lançamento de `A Noite dos Desesperados’, de Horace McCoy, com a presença de Renato Pompeu, Gabriel Prioli e Nelson Ascher. Terça-feira, a partir das 18h30, na Livraria Cultura, Shopping Villa-Lobos, av. Nações Unidas, 4.777.
André Nigri


