A Viagem da Viagem (babel.no.com.br)
A viagem é um peso para Pedro Rosa Mendes. A afirmação do jornalista português pode, num primeiro momento, parecer paradoxal. Afinal, aos 33 anos, ele conseguiu notoriedade em seu país e inicia carreira internacional – em 2002 será escritor residente em Berlim – justamente por conta de uma viagem, a travessia por terra de Angola a Moçambique que resultou em “Baía dos Tigres???. Ao se ler o livro, que sai agora pela Sá Editora/Rosari, dá para entender as razões de seu autor: com o subtítulo “romance???, trata-se, antes de mais nada, de uma aguda reflexão sobre qualquer viagem, na qual a viagem, real e concreta, fica realmente num segundo plano.
Jornalista do “Público??? desde a criação daquele que é o mais interessante jornal português, Pedro carrega por certo a expectativa de uma reportagem sobre países devastados por guerra civil, fome e miséria. É o tal peso da viagem. Carrega, ainda, a óbvia “dívida??? colonial portuguesa. Mesmo que o leitor não queira, acaba indo à “Baía dos Tigres??? em busca de tudo isso mesmo, um relato realista das peripécias de uma trajetória suicida, que atravessa campos minados (literal e figuradamente) e dá nome e consistência a dramas que, no grosso do noticiário, se diluem em estatísticas e boas intenções de organizações humanitárias. Se é isso que se busca, não é difícil a decepção. O que está longe, muito longe, de ser ruim.
“Este é um livro sobre coisas simples: a tranqüilidade do medo e a vitalidade da morte???, adverte o autor numa nota que resume de forma exemplar os seus objetivos. Esta é uma lição que ele tira menos do jornalismo – que empresta ao livro, é claro, a atenção integral do repórter – do que de um Paul Bowles. Não por um acaso, um volume de contos de Paul e de sua mulher, Jane Bowles, foi uma companhia constante por toda a viagem com outro volume do estradeiro Jack London. O autor de “O céu que nos protege??? está longe de ser um manual de sobrevivência na ??frica. Muito pelo contrário, ele é uma lição de como suportar a diferença radical, para um europeu ou mesmo um brasileiro, que representa a imersão não-distanciada e não antropológica na cultura africana.
Distância, aliás, é uma noção que não procede no livro. Não há cronologia, não há evolução de fatos, penetra-se na costura das narrativas centradas principalmente em personagens, no tempo suspenso da viagem. O tempo que o escritor italiano Cesare Pavese definiu exemplarmente como “conforto dos estranhos??? – e que assim seu colega inglês Ian McEwan batizou o seu livro fenomenal tendo esta epígrafe pavesiana: “As viagens são uma violência. A pessoa se vê forçada a confiar em estranhos e a perder de vista todo o conhecido aconchego do lar e dos amigos. Vive em constante incerteza. Nada lhe pertence a não ser o essencial – o ar, o sono, os sonhos, o mar, o céu – , tudo o que se aproxima do eterno ou do que dele imaginamos???.
Nesta “pobreza??? essencial e, sem dúvida, estimulante, Pedro Rosa Mendes se apaga o tanto quanto possível para contar histórias. São personagens meio sonhados, meio vividos – e não necessariamente nesta proporção. O bluesman perdido na miséria, vinhos destilados em fundo de quintal, o homem que calcula calendários com detalhes, o fabricante de toscas próteses para os mutilados de minas terrestres. Todos se confundem num longo pesadelo em que ecoa “o horror??? vislumbrado pelo Coronel Kurtz de “O coração das trevas???, livro de Joseph Conrad que ronda, de diversas formas, as narrativas de “Baía dos Tigres???.
Se um “romance??? tão rico em sugestões pudesse se resumir em uma idéia, esta seria a solidão, acachapante, de um homem que se despe de suas referências e fica frente à frente com seu destino. Dito assim, pode parecer grandiloqüente, mas é precisamente disto que se trata quando decisões banais, uma refeição precária ou um banho podem alterar fundamentalmente o curso das coisas: “Em cada milímetro deste chão está o último instante da minha vida. Posso contemplá-lo a perder de vista???.
Pela estrutura não-cronológica, assistemática, “Baía dos Tigres??? se adequa de forma notável ao hipertexto. Experimente viajar no site excepcionalmente bem feito em que as narrativas se bifurcam borgianamente numa viagem sem começo nem fim. E é esta a viagem e as viagens de Pedro Rosa Mendes, percursos em que estar em movimento, viver, é princípio, meio e fim.


