A esposa-bomba (Diário do Comércio, 13/04/2006)

Moisés Rabinovici

A mulher entra no fast-food lotado da rua Hasmonaim, na região do Ministério da Defesa de Israel, em Tel-Aviv. É uma palestina. Veste-se como grávida. Gesta um cinturão dos kamikazes. E dá à luz a O Atentado , o livro de Yasmina Khadra que ganhou o prêmio dos livreiros franceses e foi lançado no Brasil pela Sá Editora.

A forte explosão foi ouvida até no hospital Ichilov, ao sul de Tel-Aviv. E lá soa o alerta vermelho. O doutor Amin Jaafari começa a esperar as vítimas. Foi “uma carnificina”, alguém grita. Chegam as ambulâncias.

“Imprensado entre duas macas, um ferido urra, debatendo-se como o diabo (…) O corpo retalhado, põe-se a dar socos no vazio. A enfermeira que está a seu lado parece perder o controle. Os olhos dela iluminam-se quando me vê”. –Rápido, rápido, doutor Amin…

“Quando me debruço sobre ele, ameaça-me com o olhar e retorce os lábios numa careta de ultraje: –Não quero que um árabe toque em mim – repele-me com a mão raivosa. –Prefiro morrer”.

O doutor Amin é filho de beduínos, os senhores do deserto. Sua façanha não foi apenas a de romper a vida nômade ancestral, mas a de fixar-se como cirurgião, muito respeitado, num hospital de Israel, e com a mulher palestina, Sihem, num bairro luxuoso de Tel-Aviv.

A trama de O Atentado usa mais fios incríveis, a começar pela própria autoria, atribuída a Yasmina Khadra, mulher do verdadeiro autor, Mohamed Moulessehoul – um escritor argelino que foi comandante no exército da Argélia na luta contra o terrorismo, marcada por acusações terríveis de massacres e violações dos direitos humanos entre os presos. “Entrei para a clandestinidade”, ele explicou numa entrevista, ao se esconder sob identidade feminina. Mas provocou certa confusão. A França até acolheu com entusiasmo a árabe que se tornava autora emergindo da fechada sociedade muçulmana da Argélia, a ex-colônia, independente desde 1962.

Yasmina/Muhamed escreveu O Atentado em francês, a língua do colonizador, e não no árabe de seus primeiros livros. Talvez por isso o seu estilo seja bastante singular, filho da união de duas línguas. O leitor se depara com um fumante que “mama cigarros”, bate contra um “poste anêmico”, avista uma “nuvem arrepiada”, ou um “azul aflitivo”, ou uma “treliça avarenta”, sente a brisa que “forrageia” e se perde nas “tetas da salvação” – alguns exemplos pinçados entre dezenas de termos raros e bizarros.

A tradutora Ana Montoia ateve-se fiel ao estilo do autor. Acertar as metáforas esdrúxulas mesmo em francês seria um atentado dentro de O Atentado . E ela fez um excelente trabalho. Pena que alguns nomes próprios tenham ficado em francês quando já são conhecidos em português, como Janin (e não Jenin), Nabulus (Nablus), souk (shuk, o bazar árabe) e Yacine (o sheik Yassin). Há um momento em que o doutor Amin estranha que “nenhuma alma cristã” apareça para socorrê-lo. Pudera: está num bairro judeu de Tel-Aviv!

Esses detalhes não chegam a comprometer a narrativa, construída como um thriller pronto para ser filmado. O doutor Amin deixa exausto o hospital Ichilov, às 22 horas. No caminho de casa, é barrado em bloqueios militares levantados depois do atentado. Salvou vidas há pouco no centro cirúrgico, mas agora tratam-no como suspeito, porque árabe-israelense. Frustra-se ao perceber que sua mulher, a bela Sihem, não tenha voltado ainda de uma visita de três dias a avó, em Kfar Kanna, perto de Nazaré, ao Norte de Israel.

O doutor Amin acorda com o telefone tocando, 3h20 da manhã. É o seu amigo e alto funcionário da Polícia, Naveed Ronnen. Quer que ele reconheça um corpo, o corpo da mulher-bomba que se imolou horas antes. E a terrorista era Sihem, revelam o material de imprensa e a orelha do próprio livro. Não se trata de contar o final da história. Na verdade, a história está só começando.

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