Argelino usa nome de mulher e romanceia o terrorismo (Folha de S. Paulo, 18/02/2006)
Yasmina Khadra narra história de mulher-bomba em “O Atentado”
EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL
Quando surgiu na cena literária francesa, em 2000, a escritora Yasmina Khadra foi louvada como a mais nova (e autêntica) voz da mulher árabe a chegar ao Ocidente, falando da realidade em países como Afeganistão e Argélia. Acontece que Khadra não é mulher, é homem. Não se trata de nenhuma enganação, como a sugerida em torno da identidade do americano JT LeRoy. A autora é autor. E o pseudônimo foi tomado emprestado por Mohammed Moulessehoul, 51, do nome de sua mulher, para burlar a censura dos antigos patrões do escritor: o Exército argelino.
“Foi minha mulher que me apoiou a optar pela clandestinidade depois da censura militar aos meus trabalhos literários, em meu país. Ela disse: “Você me deu seu nome para a vida, eu te dou o meu para a posteridade’”, conta o autor à Folha.
Modéstia à parte, o próprio Khadra afirma que não era considerado apenas a mais autêntica voz feminina do mundo árabe, mas a mais autêntica de todas. O autor de 21 romances diz que luta pela emancipação da mulher árabe e que usar o pseudônimo feminino, para um árabe, representa uma tomada de posição revolucionária.
“Desta maneira, eu tento mexer com certos tabus e fazer despertarem as consciências. Temos um bloqueio frustrante ao nível de nossas mentalidades e urge remediar isso”, defende.
Publicado na França em setembro do ano passado, onde já vendeu mais de 120 mil cópias, o mais recente livro de Khadra, “O Atentado”, é o primeiro do autor a ser lançado no Brasil, antes mesmo de chegar aos Estados Unidos, em maio, pela Random House. A editora escolheu o romance para iniciar uma parceria com a produtora Focus Films (de “O Segredo de Brokeback Mountain”) para adaptar seus livros ao cinema.
A obra acompanha a história de Amin, cirurgião israelense de origem árabe, que evita se envolver nos conflitos entre sua nação de origem e a de adoção, até que é obrigado a reconhecer o corpo de uma terrorista kamikaze, sua própria mulher, Sihem, acusada de ser mulher-bomba num atentado a um restaurante em Tel Aviv.
“Para escapar dos clichês, evitei a confrontação judeu-árabe e resolvi criar um personagem capaz de representar os dois lados do conflito, alguém que encarna a mais bem-sucedida das integrações. Mas a felicidade de Amin era inconsistente, pois sua mulher não compartilhava dela”, diz Khadra, explicando as razões pela escolha de uma mulher-bomba.
“Primeiro para dizer que a mulher não é um objeto de seu marido, é uma pessoa à parte, com sua própria idéia de vida e felicidade. Depois, porque no mundo muçulmano a mulher recusa seu status subalterno e busca provar aos homens que é capaz de todos os combates, inclusive os do terrorismo”, teoriza.
Ex-comandante do Exército argelino, Khadra diz que vivenciou muito de perto o terrorismo, que combateu nos anos de farda. Com “O Atentado”, quis falar exclusivamente do conflito no Oriente Médio, sem cometer um romance militante, mas marcando sua opinião: o medo é o espaço vital do terrorismo.
“Paradoxalmente, este mesmo medo autoriza e legitima toda sorte de manipulação política, religiosa, civilizatória etc. É preciso ficar atento: o mundo atravessa uma crise monstruosa. A única chance de se livrar dela é manter o sangue frio.”
Desde que se aposentou do Exército, em 1999, Khadra vive na França, país onde pode tocar sua carreira literária sem as limitações que sofria na Argélia, como a dificuldade de obter um visto de viagem. O escritor diz que sua obra reflete a influência do Ocidente, resultado do colonialismo francês em seu país, e a cultura de seu povo. De um, vem o rigor analítico; de outro, a poesia.
“Orgulho-me desta cultura dupla. Ela me permite compreender ambas. E é graças a elas que consigo ser eventualmente compreendido pelas duas.”
O Atentado
Autor: Yasmina Khadra
Tradução: Ana Montoia
Editora: Sá
Quanto: R$ 33 (256 págs.)
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1802200622.htm


