Bastidores do trabalho de uma grande artista gráfica brasileira

A capista Moema Cavalcanti fala sobre a concepção de seus trabalhos para edições da Sá Editora:

Três capas com sabor de jornalismo

As Sirenes de Bagdá

Não costumo usar fotografia nas minhas capas, mas no caso dos livros do Yasmina Khadra esse recurso se tornou imperativo.

Os seus textos além de atualíssimos, são praticamente relatos jornalísticos e nada melhor do que usar imagens reais e não ilustrações ou fotos feitas em estúdio para traduzir o conteúdo do livro.

Selecionar entre centenas, quase milhares de fotos num banco de imagens, é sem dúvida um grande desafio no meu trabalho.

Eu tive muita sorte ao encontrar a foto daquele rosto tão expressivo para a capa de “O Atentado”.

Na capa de “As andorinhas de Kabul” a foto das burkas azuis secando ao sol, como andorinhas em bando voando em completo desalinho ao mesmo tempo que denuncia o trabalho cotidiano da mulher, faz referência à busca desesperada pela mulher vestida de burka azul.

A imagem da capa “As Sirenes de Bagdá” é preciosa: uma mulher, uma criança (ou a sombra de uma criança…) , o sol inclemente, a areia escaldante, enfim, uma foto que na sua (pseudo) simplicidade já fala por sí.

Identificação feminina

Na primeira capa que eu fiz para o livro “A Segunda Vida das Mulheres” da Mme. Collange, com quem eu me identifiquei imediatamente, traz a imagem de uma mulher que resolve, num determinado momento da sua vida soltar suas amarras, ‘sair do chão’ se deixando levar por um impulso de liberdade. Fiz essa capa num momento especial da minha vida e sabia exatamente o que eu queria expressar através daquela imagem.

No segundo livro “Nós, as Sogras” preferi dar à capa um viés humorístico, mais gracioso e solto. Para isso escolhi a ilustradora Lúcia Brandão que tem um humor fino, às vezes cáustico e leve sem ser infantil, e que acrescentou detalhes que só ajudaram a explicar essa relação tão delicada entre sogra e nora: a sogra que carrega em seus ombros os filhos, genros e noras, netos e netas, cachorro, papagaio e passarinho apoiada firmemente numa… corda bamba.

Fiz questão de ‘sujar’ o fundo da capa, não deixando o branco imaculado, porque há sempre impurezas, sombras e subterfúgios nas relações familiares.

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