Livro relata drama de homem suspeito de terrorismo em Israel (Gazeta do Povo, 13/03/2006)
Gazeta do Povo – Curitiba/PR
SEGUNDA-FEIRA, 13 de março de 2006
O rosto por trás de um atentado
Quantas vezes você já ouviu falar de um atentado suicida no Oriente Médio? Jornais trazem ciclicamente fotos e textos sobre explosões terríveis que matam, mutilam e causam tragédias. Especialmente no caso de palestinos e israelenses, os homens-bomba são uma constante. E, às vezes, parece que justamente por sabermos de novos episódios a toda hora, o problema vai se banalizando. Não só fica parecendo que não há solução possível como também o leitor vai de deixando embotar e uma hora começa até a se irritar por aquela notícia continuar sendo imposta a ele.
Agora, a literatura vem dar uma contribuição para que o leitor possa perceber o que realmente há de trágico por trás de cada uma daquelas manchetes. O Atentado (Sá Editora, 256 págs., R$33,00) conta a história do terrorismo vista pelo lado de dentro. A personagem principal descobre, repentinamente, que sua vida foi duplamente afetada por uma explosão em Tel Aviv. E seu drama pessoal dá início ao livro.
Explosão
Amin Jaafari é um árabe que vive em Israel. Cirurgião, tem freqüentemente a missão de salvar pessoas atingidas por atentados. Um dia, o alvo é a lanchonete próxima ao hospital em que ele trabalha. Depois de operar várias vítimas, ele vai para casa e, cansado, dorme profundamente. Acorda com um telefonema. É chamado ao hospital novamente e não entende nada.
A notícia que ele recebe ao chegar lá é que sua mulher foi uma das vítimas do atentado. Amin acreditava que ela estava fora da cidade. O mais doloroso é que a polícia acredita que ela foi a responsável pela explosão. Segundo a perícia, o corpo dela, estilhaçado pela bomba, tem as mesmas características que os restos mortais dos autores de atentados deste tipo costumam apresentar. Amin desaba. Sua mulher, com quem ele dividia tudo na vida, está morta e é acusada de terrorismo.
O drama da personagem fica ainda maior pelo fato de ele ser um possível cúmplice na destruição da lanchonete. ??rabe, ele já seria sempre um suspeito. A polícia não acredita que ele não conhecesse as intenções e as atividades políticas de sua esposa. Que não tenha nem sequer notado que ela poderia ter apresentado algum comportamento estranho nos últimos dias.
Amin é rejeitado por todos. A vizinhança começa a hostilizá-lo. Um dia, quando vai reclamar com alguém que coloca mais um cartaz ofensivo em frente à pequena mansão onde mora, é cercado por judeus raivosos que começam a espancá-lo, em ato de vingança pelo que a mulher dele fez.
O Atentado, escrito pelo argelino Mohammed Moulessehoul, sob o pseudônimo feminino de Yasmina Khadra, vale principalmente pela discussão mais do que atual que levanta. Tenta mostrar o lado humano do que, normalmente, é mostrado apenas como política e sucessão de números. Para conseguir isso, centra sua trama na psicologia do médico Amin, revoltado com a situação criada pelo ato de terrorismo de sua mulher e destruído por um ato de que não participou.
Em alguns momentos, o livro pode ser até mesmo falho na linguagem ou usar alguns clichês em excesso. Mas seu valor como janela para um mundo desconhecido já vale a leitura.
Rogerio Waldrigues Galindo


