O terrorismo não é uma fatalidade (O Globo, 24/03/2006)

PROSA & VERSO – O Globo
Rio, 24 de março de 2006 Versão impressa

Deborah Berlinck
Correspondente

PARIS. Em tom de incompreensão e decepção, o argelino Yasmina Khadra, autor de “O atentado??? (Sá Editora, 254 pgs, R$ 33) conversa sobre o mal-estar nas relações entre Ocidente e Oriente. Seu livro conta a história de um ataque terrorista em Tel-Aviv. O médico israelense Amine, de origem árabe, entra em choque ao descobrir que a terrorista suicida era sua mulher. O livro acaba de receber o prêmio dos livreiros franceses e foi o primeiro nas listas de mais vendidos da Bélgica.

É preciso coragem para escrever um romance sobre o conflito entre israelenses e palestinos, sendo um escritor árabe. Há o risco de agradar a um lado e desagradar ao outro, não?

YASMINA KHADRA: Hoje o mundo precisa de coragem. O mundo vai mal. É preciso compreendê-lo, ter lucidez. Meu trabalho de romancista é, antes de mais nada, o trabalho de cidadão do mundo, para acalmar os espíritos e ajudar outras pessoas a compreender o que acontece. Minha dupla cultura é uma grande vantagem, pois compreendo o Ocidente e o Oriente.

Seu livro tem uma mensagem humanista forte e diálogos interessantes dos palestinos que decidem cometer os atentados. O que sentiu quando os escrevia?

KHADRA: A mídia se consagra aos fatos, sem mostrar sua motivação. Tentei dar palavra a quem não é escutado. Isso é muito importante para que o Ocidente compreenda o que acontece. O terrorismo não é uma fatalidade. Não caiu do céu. Por trás há seres humanos que em dado momento optam pela violência porque não são escutados de outra forma. Não quer dizer que concordo, mas ajudo outros a compreender.

Por que há dificuldade no Ocidente de compreender?

KHADRA: O Ocidente não compreende nada. Não é dificuldade, mas aptidão. O Ocidente só olha o mundo sob sua ótica. Houve época em que o Ocidente instalava sua verdade onde queria, mas agora não há mais fronteiras. Temos a internet, o terrorismo. Os modos de expressão se multiplicam e nações protestam contra o imperialismo intelectual ocidental. Os protestos, as manifestações, a raiva são a expressão que resta nestas nações. O Ocidente deve atenuar a arrogância, precisa entender que é só uma parte do mundo.

Por que o médico, personagem principal do livro, mesmo quando viu o que estava ocorrendo na Palestina opta pela não-violência?

KHADRA: O médico é alguém que, por vocação natural, salva vidas. Traz uma mensagem altamente humana.

Como viu na Palestina a ascensão do Hamas, classificado por EUA e União Européia de terrorista?

KHADRA: O Hamas se tornou o representante legal dos palestinos. É verdade que seu discurso é sempre violento, extremista, inconveniente. Mas será obrigado a assumir suas responsabilidades e negociar com Israel. É absurdo dizer hoje que o Estado de Israel deve desaparecer. Antes, o Hamas era sobretudo um movimento de combate. Mas na política deve-se passar do combate à diplomacia. Sendo dirigentes legais, eles precisam, imperativamente, aceitar as regras do jogo.

Mas o senhor mesmo esteve no Exército argelino e combateu islâmicos radicais. O Hamas é considerado um grupo radical…

KHADRA: Só conheço o Hamas através da mídia. Mas como desconfio de manipulações internacionais, fico alerta. Acompanhei na França a campanha que houve contra o Exército argelino, quando se fazia crer que na Argélia não existiam integristas (radicais islâmicos) , mas somente soldados islâmicos (dessa forma, o Exército seria cúmplice dos massacres contra a população argelina nos anos 90, o que teria ajudado a perpetuar o poder ditatorial) . Até hoje muitas pessoas crêem nesta versão. Mas eu estava no campo e via com meus próprios olhos o que acontecia. Escrevi cinco livros sobre a tragédia argelina.

O senhor também escreveu um romance sobre o Afeganistão e não esteve no país.

KHADRA: Isso não impede que meu livro seja considerado um romance afegão. Não é difícil para um argelino escrever sobre o Afeganistão, porque no sul da Argélia você encontra exatamente os mesmos vilarejos do Afeganistão ou do Paquistão.

Há uma legião de pessimistas em relação ao conflito israelense. Acredita em solução?

KHADRA: A esperança é o homem, sua vontade. Se quer resolver um problema, com certeza tem meios e capacidade para isso. Mas por que o conflito dura tanto? Porque o mundo está sendo governado pela finança internacional, para quem a paz é um desemprego técnico. Se o conflito em Israel terminasse, achariam outro. No meu livro, não quero apontar o dedo para ninguém, vítima ou carrasco. Falo do desperdício, da destruição humana. Estou escrevendo uma trilogia de mal-entendidos planetários. Comecei pelo Afeganistão, escrevi “O atentado??? e o próximo será sobre o Iraque. Será publicado em setembro.

Para muitos franceses, a França vive um período de mutações, em que os protestos nas ruas de jovens, no fim de 2005 e agora, seriam uma das faces. Nesse processo, até mesmo a difícil relação histórica com a Argélia estaria sendo revista.

KHADRA: As mutações na França provam que a coragem de assumir o passado começa a se instalar. É a melhor forma de avançar na vida. A Guerra da Argélia, que era tabu em Paris, está sendo vista com objetividade e responsabilidade. É verdade que ainda há pontos de tensão, reações racistas e de raiva, mas o bom senso ganha da hipocrisia. Estou confiante. Já o problema da imigração não tem tanta relação com o passado colonial. Trata-se, para a França, de se abrir a negros, magrebinos, asiáticos. Infelizmente, nisso, há uma regressão cidadã e uma aberração intelectual com racistas de todo tipo e partidários da violência.

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