Para Lula ler (Folha de S.Paulo, 02/03/2006)
COLUNA DEMÉTRIO MAGNOLI
Nas suas andanças pela ONU e pela OMC, propagando a causa do combate à fome, Lula declarou vezes sem conta que a ajuda internacional aos pobres é do interesse estratégico das grandes potências pois removeria as causas do terrorismo. Lula deveria ler “O atentado”, o mais novo romance de Yasmina Khadra e o primeiro publicado no Brasil (Sá Editora, 2006). Depois disso, nem mesmo ele insistiria na associação entre o terror e a pobreza.
Há maldade gratuita na observação anterior. Lula, o cavaleiro andante do lugar-comum, está longe de ser o único a sugerir essa associação banal, impertinente e, sobretudo, falsa. Ela aparece, sob formas menos vulgares, é certo, na boca de autoridades americanas, em textos analíticos dos serviços de segurança ocidentais e nos discursos de altos funcionários das agências multilaterais. Está na mídia, nas salas de aula e à mesa de jantar, como uma dessas verdades “naturais” que se impõem pelo peso da sua lógica aparente. Lula não lerá o romance, mas isso pouco importa.
Como fazer um sumário de “O atentado” sem cometer o equívoco da orelha da edição brasileira, que entrega uma das surpresas da trama? Primeira tentativa: o romance narra a saga de um bem-sucedido cirurgião árabe-israelense nas semanas seguintes a um atentado suicida em Tel Aviv, uma explosão sangrenta numa lanchonete, cujas vítimas ele atendeu, horas sem fim, na sala de operações. Segunda tentativa: o romance é a história da dupla viagem concomitante do cirurgião, ao seu país e às suas crenças íntimas, à sua pátria no mundo e à sua “pátria interna”, que o leva a conhecer o sentido da dor, da perda e do tempo. Terceira tentativa: o romance é um diálogo entre duas éticas incompatíveis, separadas pela mais opaca das incompreensões, mas unidas no tempo, na geografia e na irredutível humanidade que as inspira.
Yasmina Khadra é o pseudônimo de Mohamed Moulessehoul, argelino estabelecido na França desde 2001, autor de trajetória fulgurante, traduzido em vários países, mas ainda virtualmente ignorado no Brasil, que escreve em francês, mas acredita que “todos os países devem ser bilíngües”. Esse “cidadão de dois mundos” não cede à tentação fácil de escrever a respeito da fronteira, um ofício menor que cabe a nós, especialistas. Na sua escritura, a fronteira é um nexo subterrâneo, uma mola invisível, o sopro mágico que organiza as palavras. O Muro de Sharon, um traço brutal da paisagem de Israel/Palestina pela qual se desloca o cirurgião, transfigura-se num milhão de muros que espreitam a cada página da narrativa.
“Sharon lê a Torá ao contrário”, explica um eremita, milagreiro e charlatão, ao cirurgião que, daquilo que restou dos pomares da sua infância, contempla o Muro. Os judeus nunca suportaram viver atrás de muros, tanto que construíram um para se lamentar. Como podem ignorar que um Muro, no lugar de protegê-los do inimigo, converte seu país num novo gueto?
O mundo é estranho. Na Espanha, sites ligados ao Hamas saudaram o novo romance de Yasmina Khadra como uma celebração da sua “verdade”. Na França, intelectuais de esquerda escandalizaram-se com a sua clara e firme denúncia dos crimes cometidos contra a população civil pelos integristas argelinos. No fundo, é um bom sinal: literatura verdadeira não é para quem acredita no Bem e no Mal.
Demétrio Magnoli escreve às quintas-feiras nesta coluna.


