Viagem ao coração do terrorismo (O Estado de São Paulo, 05/04/2006)
Em O Atentado, que será lançado hoje com debate, Yasmina Khadra aprofunda a tortuosa relação entre palestinos e judeus
Ubiratan Brasil
O terrorismo vem se tornando perigosamente um assunto corriqueiro. Atentos a isso, artistas criam obras que denunciam o horror – é o caso do cineasta Hany Abu-Assad, diretor de Paradise Now, sobre dois palestinos escolhidos para um ataque suicida, e do escritor argelino Yasmina Khadra, autor de O Atentado (Sá Editora, 256 págs., R$ 33), livro que será lançado hoje na Fnac Paulista.
O tema é forte: uma mulher faz explodir uma bomba em um restaurante lotado em Tel-Aviv, aumentando o trabalho do médico Amin, cirurgião de origem árabe, para socorrer os sobreviventes. Horas depois, ele é chamado para reconhecer o corpo mutilado de sua mulher que apresenta os ferimentos típicos daqueles que carregam bombas amarradas ao corpo.
O lançamento será marcado por um debate com jornalistas que conhecem de perto tal risco, como Juca Varella, subeditor de fotografia do Estado, além de Moisés Rabinovici (Diário do Comércio), Demétrio Magnolli e Nelson Ascher (ambos da Folha de S.Paulo). Sobre o assunto, Khadra respondeu às seguintes perguntas.
Como tratar de um tema explosivo?
Trabalhei como todo escritor que se arrisca assumir certos riscos para ajudar as pessoas a melhor compreender um mundo que lhe escapa das mãos. O conflito no Oriente Próximo me interpela todos os dias. Fico horrorizado com o que acontece e indignado com a indiferença que permite uma catástrofe humana se agravar atentado após atentado. Pode-se dizer que é falta de inteligência. Na verdade, o planeta está entregue à loucura de uns e à bulimia de outros. E os relatórios supostamente aptos a consolidar nossos sonhos e esperanças estão seriamente comprometidos. Durante essa época, os intelectuais silenciam-se, cada um preferindo manter intacta a própria notoriedade. Eu me recusei a cruzar os braços. Aceitei correr riscos. Sou alguém que acredita na lucidez. Escrevi O Atentado para esclarecer consciências. Para isso, era preciso me impor um livro inteligente, distante do militantismo barulhento e dos estereótipos. O romance é tocante para muitas pessoas justamente por sua sinceridade e honestidade.
O senhor acredita que a incompreensão leva ao conformismo?
Totalmente. Tememos o que desconhecemos. Desconfiamos do estrangeiro. Quando algo nos escapa das mãos, sentimo-nos fragilizados. O inquietante é que, apesar de todos os sofrimentos, as guerras e as misérias que marcaram a história da humanidade, continuamos a cometer os mesmos erros e as mesmas inabilidades. O problema começa quando as referências se perdem. O ofuscamento do ponto de vista dos outros e a indisposição em buscar a compreensão são formas de se isolar em torno de si mesmo. E essa indiferença normalmente induz à raiva, traduzida pelas agressões e, em seguida, a guerras abomináveis e inúteis até finalmente ao terrorismo cego.
Como é possível compreender os camicases islâmicos?
Quem os compreende? Ninguém. Nos os condenamos, os julgamos, os maldizemos, mas não tentamos decifrar as forças de suas motivações suicidas. Na imprensa, os fatos são reportados sem que as causas sejam explicadas – a opção é pelo espetacular, raramente se busca o fundo da questão. Meu romance oferece a possibilidade de se chegar um pouco mais longe, de se ouvir as partes suspeitas e de se interrogar os silêncios longamente imperceptíveis. Acredito que compreendê-los não significa afiançá-los. Sou contrário à violência em todas suas formas. Mas é urgente, é vital levar a sério esse fenômeno e popularizá-lo a fim de contê-lo e, por que não, tratá-lo. Também me preocupo em dissuadir outros jovens de escolherem essa vida perigosa e devastadora. Tenho a pretensão de acreditar que os jovens que me leram não serão jamais terroristas.
Caso o mundo ocidental não se solidarize com os muçulmanos, a vitória será do terrorismo?
Foi o que eu já disse em Madrid, Londres, Colônia e em todos os lugares a que fui. A indignação não pode ser ocidentalizada. Quando um atentado acontece em uma cidade européia, a marcha de solidariedade se encadeia em escala planetária, mas, quando um país muçulmano é alvo de idêntico terrorismo, torna-se um mero fato policial. Se o Ocidente realmente deseja lutar contra a violência, é imperativo apoiar os países muçulmanos. O verdadeiro combate é travado entre as elites muçulmanas. Apenas elas têm capacidade para aliviar as tensões. Portanto, vamos ajudá-las.


