Vida e obra de Zinedine Zidane (Trivela, 10/6/2008)

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Postado em 10/6/2008 às 18:53 por Alexandre Kazuo Aoki

“Zidane faz parte desses jogadores que fazem as pessoas felizes.???
(Diego Maradona)

Talvez aqueles que acompanhem o site Trivela há dois ou três anos tenham se habituado a ler as crônicas deste que escreve esta resenha. Por mais de uma vez transformei Yazid Zidane em personagem (meu favorito, diga-se de passagem). Talvez eu o tenha feito na impossibilidade de obter um vislumbre verossímil de determinados momentos da carreira de Zizou. Finalmente surge esta grande biografia. Se as rodadas se tornaram um pouco mais tristes depois de seu retiro, agora podemos ter as histórias de Zizou ao alcance da cabeceira.

Jean Phillipe é jornalista, cineasta e compositor francês. No prefácio da edição brasileira ele já se mostra intimo de nossa cultura. Patrick Fort também jornalista e também francês, segundo a informação da aba teria vivido em São Paulo durante a juventude. Ainda há um prefácio ‘normal’ escrito por Franck Ribéry, o primeiro de uma longa dinastia de ‘novos Zidanes’. A quatro mãos Phillipe e Fort nos trazem as origens de Zinedine Yazid Zidane. Da origem humilde em La Bocca quando seus pais mesmo tendo dificuldades, alimentam o sonho de Zinedine e segmentam a busca por este sonho. O jovem Zidane é descoberto por Jean Varroud, um recrutador. Isso seria uma espécie de olheiro sem interesses financeiros definitivamente. Nos primeiros capítulos temos uma noção geral do quão organizado é o esporte na França. Os aspirantes a futebolistas são designados enquanto ‘estagiários’. O garoto Zidane sai de casa aos quinze anos para ficar mais próximo das instalações do Cannes. Como se fosse um intercambista é acolhido por uma familia em La Castellane. O hábito hospitaleiro parece ser algo comum na cultura francesa um dos mais imponentes alicerces da civilização européia.

Os autores também ressaltam as qualidades individuais de Yazid. Introspectivo, sereno e atento. Segundo alguns um ‘filósofo’, um meio de campo pensador literalmente. Zidane possuía uma capacidade acima do comum para assimilar aquilo que escutava, algo pouco notado entre atletas mais familiarizados com as faculdades sensoriais do tato ou da visão. A chegada de Zidane ao Cannes coincide com a ascensão obtida pelo clube no fim dos anos 80. O Cannes atingiu a primeira divisão francesa num projeto que contou com Guy Lacombe em seus bastidores. Nesse período Zinedine Zidane estreiou entre os profissionais. Yazid faz seu primeiro gol na Liga Francesa num 10 de fevereiro, data do aniversário do autor desta resenha.

Sua personalidade continua a mesma e ele ainda chora após partidas ruins e más atuações. No Cannes, Zidane também disputa sua primeira Copa da UEFA (que virá a se tornar Champions League nos anos 90) numa vaga inesperadamente obtida pelo clube. Tudo isso num ciclo de cinco anos que culminarão no retorno do Cannes a segunda divisão. Zidane ainda tem tempo de conhecer Veronique seu grande amor mas deverá ser negociado. O próprio Guy Lacombe percebe que não permanecer na primeira divisão será um retrocesso na carreira do promissor meio de campo. Oferecido ao Monaco é preterido pelo jovem treinador Arsène Wenger. Zidane irá para o Bordeaux. Lá, ele reencontrará Christopher Dugarry, parceiro dos tempos de seleção juvenil francesa.

Junto aos girondinos, Zidane recebe um apelido e se torna Zizou. Ali ele também conhece o treinador Aimeé Jacquet e enfrenta seu ex-clube, o Cannes que agora contava com um desconhecido Patrick Vieira entre seus titulares. Zizou perde sua primeira final da Copa da Europa contra o Bayern de Munique e ainda jogará a Euro 96. Depois, chegará à Itália para vestir a malha 21 bianconeri. Zidane será o capitão da Juventus numa crescente meteórica cujo ápice será a conquista do Mundial de 1998 frente ao Brasil e em solo francês. Credenciais suficientes para que Florentino Perez desembolse uma quantia recorde e leve-o para o Santiago Bernabéu. Zidane possivelmente se tornará o mais brilhante de todos os galácticos do Real Madrid. Alguns aspectos dos bastidores da ‘era galáctica’ apresentados aqui servem até de contraponto para o livro ‘Anjos Brancos’ de John Carlin, que por sua vez retrata o início da queda dos ‘galácticos’. Zidane foi favorável à permanência no elenco do volante, incansável marcador e compatriota Claude Makélélé. Florentino Pérez dispensou-o porque as camisas de Makélélé não vendiam tanto quanto as dos outros astros.

Durante toda a obra Phillipe e Fort jogam luzes a respeito do comportamento de Zidane um homem calmo e respeitador, mas ainda assim um homem de forte personalidade e capaz de reações viscerais quando provocado. Dos ensinamentos dos treinadores onde um deles diz que não é golpeado aquele que não é bom. Sua angústia contida enquanto cumpria dois jogos de suspensão após ser expulso contra a Arábia Saudita na Copa de 98. As enumeradas três grandes decepções da relação que Zizou mantinha com a seleção bleu: a eliminação precoce no Mundial 2002, o fatídico amistoso entre França e Argélia (de onde descendiam seus antepassados da etnia cabila) em 2001. Além da eliminação na Euro 2004 onde supostamente haveria um grupo ‘rachado’ e um ‘complô’ por parte dos franceses do Arsenal. Enfim a despedida da seleção francesa e o súbito retorno prenunciado pela ‘voz do além’ e negociado por Patrick Vieira, o herdeiro da braçadeira de capitão. A malha azul parece manter uma relação de simbiose com a carne de Zidane.

Claro que também são mencionados a caminhada francesa rumo a final do Mundial 2006 bem como cabeçada em Materazzi marcando o crepúsculo da carreira de Zizou. Os autores apresentam todos os efeitos ‘midiáticos’ da cabeçada, além de ensaiar todo o ‘existencialismo’ nas entrelinhas do ato. Sobretudo, Zidane um ícone da mídia futebolística internacional ao findar da carreira numa final de Copa do Mundo ainda era apenas um homem. Sartre explica…

A prosa da dupla Phillipe/Fort é envolvente e direta numa verve que se aproxima do ensaio típica da tradição escrita francesa. Um ponto contra seria apenas o trabalho de tradução da edição nacional que aparenta ter sido feito as pressas. A biografia é válida não por fazer de Zizou um mito pomposo e intocável mas sim por enaltecê-lo enquanto herói humanístico. Que se deixa tomar pela fúria quando afrontado, que chora após uma derrota, que é feliz quando vê o sorriso das crianças. Nas últimas quatro copas do mundo, o Brasil venceu duas e foi eliminado pela França em duas. Talvez pudesse ter sido diferente se não houvesse no caminho Zidane, um adversário que exige e impõe respeito. O maior adversário do Brasil nos tempos em que vivi.

Zinedine Zidane
Autores: Jean Phillipe e Patrick Fort
Editora: Sá
Tradução: Valter Lellis
Páginas: 256