Lendas Brasileiras – Coleção de 27 contos para crianças

Carmem Dolores

Ilustrações de Julião Machado

Publicado pela primeira vez em 1914, Lendas Brasileiras reúne dois talentos que muito contribuíram para a formação do imaginário brasileiro na virada do século XIX para o século XX: a carioca Carmen Dolores e o português radicado no Brasil, Julião Machado.

São 27 lendas recolhidas do nosso folclore, entre elas “O saci-pererê”, “O lobisomem”, “A mula sem cabeça”, e ilustradas pela pena genial de Julião Machado, um dos pais da caricatura em nosso país, que soube dar vida e graça aos personagens folclóricos suscitados, fornecendo elementos para o nosso imaginário coletivo. Narrativa ágil e envolvente – Carmen era também jornalista e sabia criar textos atraentes –, essa obra permanece no tempo.

Carmen e Julião formaram, sem dúvida, a primeira grande dupla autor/ilustrador brasileira da “literatura para crianças”, buscando atrair um público que ainda era considerado de menor importância, fechado na moral dura e nas austeras regras educacionais de então.

Sua nova edição que ora entregamos ao leitor brasileiro do século XXI vem com certeza preencher uma lacuna ao provocar um olhar mais atento ao nosso rico folclore e à história da nossa literatura popular. Com ela resgatamos aspectos da história editorial do nosso país, que nos permitem reavaliar nossas raízes sob vários e ricos prismas: psicológico, educacional, artístico, como se não fora importante ficar só no da própria literatura.

Emília Moncorvo Bandeira de Mello nasceu no Rio de Janeiro em 11 de março de 1852 e morreu em 1911. Usou vários outros pseudônimos em suas colaborações para os jornais Correio da Manhã, O País, Tribunal e Étoile du Sud, mas foi com o pseudônimo de Carmen Dolores que ficou mais conhecida. Apesar das limitações de sua concepção de libertação feminina, sua participação marcou para as mulheres uma conquista importante de espaço na imprensa. Deixou as seguintes obras: Gradações / Páginas soltas (contos), de 1897; Um drama na raça (contos), de 1907; Ao esvoaçar das idéias (crônicas), de 1910; A luta (romance), de 1911; Almas complexas (contos), de 1934.

O caricaturista português Julião Machado (1863-1930) chegou ao Brasil em 1894. Trabalhou nos grandes jornais como o Jornal do Brasil e a Gazeta de Notícias. Foi ele quem inaugurou a era da caricatura a traço na imprensa brasileira e é sob a sua influência que estréiam os três grandes caricaturistas do século: J. Carlos, Raul Pederneiras e Kalixto.

Ilustrações

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Leia um trecho

Aventuras do Jabuti Miri

Era uma vez um jabuti manso e pacato, que não fazia mal a ninguém neste mundo e só tratava de comer bem, passear e dormir. Estava ele um dia embaixo de um sombroso e copado pé de taperebá, juntando sua comida para jantar, quando apareceu uma anta que vinha esfomeada lá do mato e disse com ares de mando:

— Sai daí, Jabuti miri, que estou com muita fome e não tenho tempo de procurar comida.

O jabuti era bom, mas ficou encolerizado diante de tanta sem-cerimônia, e gritou:

— O quê? Você está doida, anta? Pois eu tive o trabalho de juntar meu jantar, e você que vai comê-lo? Ora, não falta mais nada! Passe seu caminho, que esta fruta é minha!

A anta não respondeu mais nada: saltou em cima do jabuti, furioso, e pôs-se a pisá-lo com tanta força que em breve o pobre animal caiu para o lado e não se mexeu mais.

Então a anta cobriu-lhe o corpo com terra, comeu o jantar que estava debaixo do taperebá e foi-se embora. Não contava ela, porém, com as grandes chuvas tão sobrevieram semanas mais tarde – chuvas tão copiosas que arrastaram toda a terra que sepultava o corpo do jabuti e o deixaram descoberto, recebendo em cima toda a água que caía do céu.

Assim refrescado e lavado, o jabuti voltou a si, recordou-se de tudo quanto sucedera e jurou vingar-se da malvada anta. O difícil seria encontrá-la, mas ele ia empregar todos os meios, e começou por descobrir o rastro da sua inimiga entre as árvores da espessa mata que se estendia por ali fora. Agachou-se e perguntou:

— Rastro, meu rastro, há quanto tempo tua senhora te deixou?

— Há quinze dias, jabuti mirim, respondeu o rastro.

Outro mais adiante informou que se o jabuti andasse mais dois dias, acharia a anta; mas o terceiro, a quem o jabuti falou, já impaciente com tanta demora e tanta dificuldade, pareceu indeciso e aconselhou-o que se orientasse com um rio que corria ali perto.

Esse rio, entretanto, nada quis dizer e iam brigando, o jabuti e a sua corrente de água caudalosa, quando a anta surgiu inesperadamente na margem e parou, estupefacta, vendo ali vivo o bicho que ela suponha Ter matado e enterrado. Já o jabuti, porem, pulava em cima dela e pegaram-se os dois com valentia e ousadia, sendo vencida a anta pelo seu inimigo, — Meus parentes! meus parentes! venham ver! Matei a anta que me tinha matado para comer meu jantar!

A onça, que ia passando, ouviu aquele berreiro e chegou-se curiosamente, para saber o que era aquilo. Viu a anta estendida, morta, e logo se dirigiu toda risonha e amável para o vencedor, propondo-lhe artirem a caça pelo meio: uma banda para ele e outra para ela.

O jabuti não ficou lá muito contente com a proposta, mas olhou para as formidáveis garras da onça e não ousou resistir-lhe. Disse que sim. A onça, então, ordenou-lhe que fosse ao mato buscar lenha para assarem a anta, que ela não podia mais andar de cansada; e prometeu-lhe que não sairia dali, a vigiar o bicho morto, até a sua volta.

Apenas porem o jabuti se sumiu buscando lenha, ela carregou a anta nos dentes e fugiu, de modo que o outro nada mais achou quando voltou vergando sobre os galhos secos apanhados no chão. O seu desespero foi tão forte que disparou a chorar; depois exclamou:

“ Deixa estar, onça, que eu ainda me encontrarei com você….”

E deitou a andar, a andar, a andar, por aquelas terras todas, ao sol e á chuva, sempre na esperança de apanhar a maldita, até que deu numa arvore onde estavam trepados muitos macacos. O jabuti gritou para cima:

“ Macaquinhos! Atirem-me aqui algumas frutas, que estou morrendo de fome!”

Mas eles recusaram, a rir-se, dizendo que ele era um jabuti valente e podia muito bem subir para a arvore com seus pés.

— Vocês estão caçoando comigo, lastimou-se ele. Bem sabem que jabuti não pode trepar em arvore…

— Está bem, respondeu um dos macacos, o que fareié ir buscar-te lá embaixo. Espera ai um pouco.

Assim fez e o jabuti passou dois dias em cima da arvore, regalando-se de boas frutas.

No terceiro dia…

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