"(…) Este é um livro sobre coisas simples:
a tranqüilidade do medo e a vitalidade da morte. Em junho
de 1997 aterrei em Luanda com a intenção de
atingir Quelimane por terra. A razão para tal projeto
era a mais nobre de todas, ou seja, nenhuma em especial. Estas
páginas são o atlas para ler essa travessia:
a cartografia efetiva de uma rota cujos locais têm o
rosto de gente e onde espaço e tempo são as
coordenadas que mais mentem. Avisaram-me todos: a guerra permanecia
nessa latitude. Houve baixas entre os companheiros de estrada.
O meu regresso tembém não estava prometido.
(…)"
"(…) A minha existência aqui? Não
perco tempo. Estou a perder-me dele. Há vários
dias que não me vejo num espelho e a ausência
desse rosto acumula-me rancor. Em Kavaleka, também
no Cuando Cubango, esteve uma organização humanitária
francesa que trabalha sobre um conceito que me interessa:
a dor-fantasma.
Kavaleka é a aldeia com maior concentração
de mutilados por metro quadrado do mundo. A dor-fantasma acontece
a quem sofreu uma amputação de um membro e continua
a "sentir" dores ou comichões na perna, mão
ou braço amputados. (…)"
"(…) Um ex-combatente com dupla amputação
de pernas está erguido no alto das raízes que
lhe enchem as calças. Um dos pés é um
bocado de pneu, com a marca Michelin ainda visível
no relevo do "peito". Mostra-me as suas próteses
com orgulho, porque eu não acreditava que as usasse:
tinha-o visto chegar de bicicleta.
Um outro amputado pedala agora essa bicicleta em círculos
ao meu redor e as suas "pernas" formam com o velocípede
um todo orgânico. (…)"
|