Edição Viva: novo post com memória da “Globo da Rua da Praia”

Publicado como posfácio à reedição do livro “A Globo da Rua da Praia” de José Otávio Bertaso/ Globo, 2012.

A Globo da Rua da Praia - capa da edição de 2012

 

Ao mestre editor, com carinho

Eliana Sá de Albuquerque Araujo (Editora Executiva da Globo de 1989 a 2000)

 

Em 1989, exatamente no dia 2 de janeiro, cheguei para meu primeiro dia de trabalho, assumindo a edição executiva de livros da Editora Globo, em São Paulo. Fora convidada por João Noro, então diretor do Departamento de Fascículos e Livros (DFL), uma nova divisão da casa, que recém se instalara na Rua do Curtume, Lapa de Baixo, na zona oeste da cidade.

A redação do DFL ficava no terceiro andar; logo abaixo, no segundo, o “Magoo”, um rapaz míope como próprio Mister, era o guardião do nosso tesouro: o acervo da “velha” Globo. As estantes começavam a ficar repletas de exemplares que saíam de caixas e caixas de papelão imensas e a equipe de bibliotecários catalogava e organizava centenas e centenas de livros.

Nós, do editorial, vibrávamos com o que víamos ali e que seria o sumo de nosso trabalho. O acervo da “velha” Globo, como nós carinhosamente a tratávamos, chegava da Fazenda Botafogo, Rio de Janeiro, para onde a família Bertaso o havia encaminhado depois da venda da editora aos Marinho.

A editoria de livros da qual eu me incumbiria pelos doze anos seguintes se encaixava nos planos de expansão comandada pelos paulistas Ricardo Fischer, e logo Flávio Barros (com a saída de João Noro no final de 89), na direção das revistas e fascículos. A Editora Globo cresceria assentada em um dos maiores patrimônios intelectuais brasileiros.

A riqueza do catálogo do qual eu iria cuidar me fascinava e assustava: obras completas de Erico, Balzac, Borges, clássicos da literatura mundial e nacional suscitavam estudos e tomada de decisões cuidadosas para que as futuras reedições trouxessem realmente de volta ao leitor a vitalidade de cada obra.

Nesse momento crucial de retomada, José Otávio Bertaso foi se tornando meu interlocutor mais frequente. Comecei falando com ele por telefone, e minhas demandas eram sempre atendidas com atenção e profissionalismo. Ora indicando-me um caminho para ressuscitar um contrato que estava quase expirando, ora contando-me com riqueza de detalhes o percurso de produção de uma coleção, sua palavra foi se tornando importante no meu dia a dia de ofício.

Decidi então ir a Porto Alegre para uma reunião presencial. Levei comigo uma longa lista de perguntas para questões mais complicadas: esta tradução tem qualidades para ser usada ainda? Quem de fato se esconde atrás desse pseudônimo? Quantas revisões teve esta obra? Como lidar com este autor? Quando saiu a primeira edição deste romance?

Solicitei a reunião ao José Otávio que assentiu com simpatia e tomei o avião rumo ao Sul.

A primeira vez em que pisei no prédio famoso da rua da Praia significou de fato um momento raro e emocionante em minha vida profissional e pessoal. Leitora, aliás, devoradora de livros desde a infância — seguira carreira com os livros, inclusive me formando em Editoração na ECA/USP —, eu agora estava ali, na porta da Livraria do Globo, no coração da casa dona do logotipo marcante que eu aprendera a reconhecer nos livros de Erico, Quintana, Mann, Balzac e tantos outros que habitavam minhas estantes e meus sonhos nas praias de minha infância e adolescência em Fortaleza.

Subi para o terceiro andar e fui levada até a sala do José Otávio, para conhecer um homem sério e elegante, que, de terno e gravata, ocupava sua mesa, agora como executivo da livraria, negócio que a família havia mantido.

Eu já sabia que ele não enxergava mais por força da diabetes. Tenho também um irmão cego e um aprendizado sensível e intuitivo de convivência que facilitou, penso, nosso contato.

Deixei fluir minha curiosidade, parte pessoal, parte profissional. Meu amigo respondeu a todas as minhas perguntas, ilustrando as informações com chistes que tornavam sua prosa saborosa e envolvente.

Foi uma longa conversa. Sem poder contar com nenhuma anotação ou referência, mas apenas com sua memória fantástica, Zé Otávio falava de obra por obra, relembrando detalhes contratuais, traduções não tão felizes, títulos que mereceriam nova publicação. Seus conselhos e observações foram abrindo picadas na selva em que eu me sentia mergulhada.

No dia seguinte, ele me conduziu a fazer duas visitas fantásticas: a um hotel, para conhecer o poeta Mario Quintana, e a uma casa, a de Erico Verissimo, para conhecer Dona Mafalda, a viúva de Erico, que era sua estimada amiga.

Nessa ocasião, também conheci Maria da Glória Bordini, professora e intelectual gaúcha, que se tornaria também uma habituée de nossos encontros, saraus que se repetiriam muitas vezes durante o longo período em que permaneci como editora de livros da Globo.

Irônico, brincalhão, mas também de um humor cortante, Zé Otávio tornou-se um amigo pessoal que pontualmente ligava todos os anos para cumprimentar a mim e a minha filha em nossos aniversários, para comentar os livros que eu lhe remetia e que ele “lia” pela voz de sua incansável Edda, ou simplesmente para falar de futebol, contar uma piada ou para falar de nosso assunto preferido: a edição de livros.

Numa dessas visitas, ocorreu-me a ideia de lhe pedir que escrevesse este A Globo da rua da Praia.

Sua alegria com o convite foi autêntica: passava agora da condição de editor para a de autor; sem contar que esse novo papel também gerou inúmeras brincadeiras dele sobre os direitos autorais milionários que iria receber e como ele iria “afundar” a Globo e seus novos proprietários.

Este livro foi inteiramente ditado pelo Zé Otávio à sua secretária, o que demonstra inequivocamente sua imensa memória afetiva. O contrato de direitos autorais, que levei pessoalmente a Porto Alegre, foi assinado e celebrado em um jantar em sua casa com a presença de seus irmãos, de Dona Mafalda, de Lucia e Luis Fernando Verissimo e de Caco Barcellos, o jornalista gaúcho que se tornara recentemente um honrado novo autor da casa; o lançamento, uma festa na Livraria do Globo, em 1993, repleto de amigos. Eu estava quase no sétimo mês de gestação da minha filha, mas não deixei de estar presente, dando à luz o livro do Zé Otávio, este que com muita alegria, vejo renascer agora.

Esta reedição de seus escritos é a prova de que a editora de seus ancestrais continua caminhando por esta “praia”, de onde se enxerga um horizonte que não tem fim.

 

São Paulo, abril de 2012

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