Comecei a trabalhar com o sr. Orlando Villas Boas após uma visita que ele fez à editora Globo, onde eu trabalhava então. Orlando era quase vizinho da nossa sede em Pirituba, morava no Alto da Lapa; fui chamada para ir até a sala do Flávio Barros, diretor da empresa, e dou de cara com um dos mitos da minha infância.
Simpaticissimo, alegre, despachado, ele vinha nos procurar pois queria publicar um livro com suas memórias.
Quantas vezes eu o havia visto nos documentários do cinema, antes do filme, enfrentando a Madeira- Mamoré, quantas matérias eu havia lido sobre ele em O Cruzeiro!
Vários meses de trabalho, um texto fragmentado, difícil de ser editado, ele passou pelas mãos de um dos melhores textos do jornalismo brasileiro: Sérgio de Souza.
Escolher as fotos para o livro, foi um trabalho deslumbrante — ele as comentava, uma por uma, abrindo envelopes e o bau com milhares de lembranças.
Impressionou-me a simplicidade de Orlando, o descaso com o qual era tratado pelo governo, seu museu valioso num anexo de sua casa, num quase desamparo.
Na hora do almoço, em casa, sua cachorrinha se punha embaixo da mesa; seu Orlando comia uma colherada, dava outra pra cachorrinha, no mesmo talher; Dona Marina, sua mulher, contou-me depois que a cachorra se deprimiu depois da morte do velho sertanista.
Impressionou-me também sua “urbanidade”, não lamentava seu presente, tão longe da selva, dos índios, vivia feliz na Lapa, recordando e contando suas histórias com minúcias; tb sua fidelidade aos irmãos, jamais deixava de cita-lis; Ganhamos um Jabuti com o livro e eles foram até o Rio buscá-lo; ele vibrava com uma alegria juvenil quando subimos ao palco do Riocentro para pegar o troféu.
Comemoramos um dia comendo javali numa churrascaria; com mais de 80 anos, ele era um forte.
Irei correndo ver o filme do Cao que está estreando em São Paulo;
Este foi um dos trabalhos mais vivos dos quais participei.
O livro está sendo reeditado pela Companhia das Letras.
Eliana Sá