“Edição Viva”: um espaço para histórias, casos e memórias de uma editora profissional de livros

"A marcha para o Oeste" capa da edição da Globo de 1996

“Edição Viva” é o espaço que abro aqui no site de minha editora de livros.

Sou editora de livros profissional,  brasileira, trabalho com livros desde 1989;

Vou falar do trabalho editorial de quem tem o livro “vivo” nas mãos, matéria pulsante, ainda quente, sendo trazido ao mundo, i.é, , sendo publicado, nascendo nas mãos do editor.

Já editei centenas de livros em minha carreira e tenho o maior prazer em trabalhar com esse ofício.

Neste blog, pretendo contar algumas histórias do meu trabalho, passagens interessantes, descoberta de autores, trapalhadas e encontros, enfim vou falar do ” livro vivo”, pois também “vivo de livro”.

Espero que gostem, comentem e me ajudem a contar um pouco da história editorial do Brasil por aqui.

Primeiro post

“Escolher as fotos para o livro, foi um trabalho deslumbrante — ele as comentava, uma por uma, abrindo envelopes e o bau com milhares de lembranças.”

“A marcha para o Oeste” com os irmãos Villas Boas

Comecei a trabalhar com o sr. Orlando Villas Boas após uma visita que ele fez à editora Globo, onde eu trabalhava então. Orlando era quase vizinho da nossa sede em Pirituba, morava no Alto da Lapa; fui chamada para ir até a sala do Flávio Barros, diretor da empresa, e dou de cara com um dos mitos da minha infância.
Simpaticissimo, alegre, despachado, ele vinha nos procurar pois queria publicar um livro com suas memórias.
Quantas vezes eu o havia visto nos documentários do cinema, antes do filme, enfrentando a Madeira- Mamoré, quantas matérias eu havia lido sobre ele em O Cruzeiro!
Vários meses de trabalho, um texto fragmentado, difícil de ser editado, ele passou pelas mãos de um dos melhores textos do jornalismo brasileiro: Sérgio de Souza.
Escolher as fotos para o livro, foi um trabalho deslumbrante — ele as comentava, uma por uma, abrindo envelopes e o bau com milhares de lembranças.
Impressionou-me a simplicidade de Orlando, o descaso com o qual era tratado pelo governo, seu museu valioso num anexo de sua casa, num quase desamparo.
Na hora do almoço, em casa, sua cachorrinha se punha embaixo da mesa; seu Orlando comia uma colherada, dava outra pra cachorrinha, no mesmo talher; Dona Marina, sua mulher, contou-me depois que a cachorra se deprimiu depois da morte do velho sertanista.
Impressionou-me também sua “urbanidade”, não lamentava seu presente, tão longe da selva, dos índios, vivia feliz na Lapa, recordando e contando suas histórias com minúcias; tb sua fidelidade aos irmãos, jamais deixava de cita-lis; Ganhamos um Jabuti com o livro e eles foram até o Rio buscá-lo; ele vibrava com uma alegria juvenil quando subimos ao palco do Riocentro para pegar o troféu.
Comemoramos um dia comendo javali numa churrascaria; com mais de 80 anos, ele era um forte.
Irei correndo ver o filme do Cao que está estreando em São Paulo;
Este foi um dos trabalhos mais vivos dos quais participei.
O livro está sendo reeditado pela Companhia das Letras.
Eliana Sá

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