Edna Uip:"os espelhos estão dentro de nós e se nos atrapalham, é preciso ter coragem para quebrá-los"

Leia, a seguir, entrevista com Edna Uip, autora de Espelhos quebrados

O que a fez escrever “Espelhos Quebrados”?
Sempre gostei demais de escrever e sempre escrevi muito sobre impressões que tinha e relatos de histórias. Sempre quis escrever. Um belo dia, minha filha estava estudando para o vestibular, resolvi pegar o computador e sentar ao lado dela. Aí, comecei a escrever uma história. Eu tinha uma necessidade muito forte de escrever e, no momento em que eu tive uma brecha, ela aflorou.

Você estudou ou fez alguma preparação para escrever o livro?Não fiz nenhuma preparação. Foi tudo intuitivo.

Quanto tempo você levou para escrever o livro?
Do momento em que comecei a história até ser publicada, foram seis meses.

Como era sua rotina durante este período?
Sou empresária, mãe de duas filhas, tenho minha casa para organizar. Por isso, escrevia quando tinha algum tempo livre e em qualquer lugar. Mas, como sempre tive muita facilidade para escrever, escrever 20 ou 30 páginas era muito fácil. Não mudei a minha rotina. Só quando estava terminando o livro é que fiquei alguns dias longe de tudo para acabar a história.

Qual a importância do livro em sua vida?
O livro é forrado de fragmentos de momentos que vi durante a minha vida. Considero-me uma pessoa muito vivida e sempre fui atrás de experiências para ver como é que as pessoas são. A conclusão a que eu cheguei é que poucas pessoas têm coragem de entrar a fundo na alma. O livro, basicamente, fala sobre crises emocionais que as pessoas tiveram durante a infância e que carregaram pela vida toda. As pessoas não têm consciência de que essas crises emocionais vão ficando tão impregnadas que vão contaminando o mundo. Todos nós somos fruto dessas crises/críticas. No livro, chamo isto de carimbos emocionais e, se conseguimos identificar que temos esses carimbos, às vezes é possível fazer pequenas mudanças que não nos deixam arrastar a vida.

É um livro autobiográfico? Você se identifica com alguma das personagens?O livro não é uma história pessoal e não tenho nada em comum com os personagens, mas têm muitos fragmentos que presenciei durante a minha vida. O personagem Enrico é o que mais se assemelha a mim, pois mesmo no caos de sua vida, ele acha uma saída, e é uma saída que vai ao encontro dos seus objetivos mais essenciais. Apesar de ele ter se rendido a tudo que acontecia em sua vida, manteve as paixões intactas.

O livro tem um lado psicológico bem marcante, você estudou alguma linha da psicologia para compor os personagens?
Não estudei nenhuma linha da psicologia para escrever este livro, mas alguns anos atrás eu li compulsivamente Freud, Jung e muito sobre filosofia, pois sempre gostei de ler sobre esses assuntos. Para escrever o livro, fui reunindo experiências que vivi e livros que li anteriormente.

Para você, o que representa quebrar os espelhos?
Quebrar os espelhos representa todos os conceitos internos que temos. Acredito que vamos destruindo os nossos espelhos e com base nos espelhos externos, construímos os internos. Tudo o que construímos pode vir a quebrar e virar pó.

Você acredita que o livro possa ajudar as pessoas a quebrarem seus espelhos?
Tenho recebido retorno dos que já leram o livro e uma leitora disse que o livro não é uma autobiografia da escritora, e sim de quem lê. Eu percebi que, quanto mais vivida a pessoa, mais ela se identifica com um dos personagens. O comentário que mais ouço dos leitores é que durante esta identificação eles descobrem o que não querem ser. Eles podem não ter descoberto o que querem, mas aqueles traços que você repete na sua vida, eles não querem ser. O livro são fragmentos de sentimentos e personalidades diferentes, e as pessoas se identificam, pois elas vão vivendo aqui e não sabem. Eu acho que nisso o livro tem uma função legal.

Você já quebrou seus espelhos?
Já quebrei alguns espelhos. Quebro todos, para chegar à velhice um pouco mais purificada.

Você quis passar alguma mensagem por meio do livro?
Uma mensagem que passo por meio do livro é que sempre existe outro caminho, e às vezes é melhor abrir o leque.

No livro você fala sobre angústia, você acha que a angústia é um sentimento muito presente nas pessoas, hoje em dia?É sim. A descrição de angústia que tem no livro é uma descrição minha. Algum tempo atrás, no meio de uma crise, gravei tudo que eu estava sentindo num minigravador. Quando comecei a escrever o livro, aproveitei esta gravação. Queria passar o sentimento mais realista possível da angústia. Percebo que, quando falo de angústia, a maior parte das pessoas já sentiu ou sente, mas nunca consegue identificar exatamente. Só quem tem coragem de fazer terapia, procurar psiquiatra, é que descobre o que é angústia. Para mim, pior que angústia só depressão profunda. E, infelizmente, hoje em dia, angústia é um sentimento muito comum entre as pessoas.

Você pretende escrever outros livros com as mesmas personagens?Já tenho dois livros praticamente prontos. Mas de temas totalmente diferentes. “Espelhos Quebrados” poderia gerar uma continuação com todos os personagens, pois é um livro que não tem fim. Você pode parar e pensar no final de cada personagem. Tanto a Carmem quanto a Clara merecem uma continuação, por terem histórias bonitas para serem contadas.

Você pretende viver de literatura?
Infelizmente viver de livro neste país é muito difícil. Mas se eu pudesse só escrever, só escreveria.

“Espelhos Quebrados” inova? Em qual medida?

Pesquisa do Instituto Pró-Livro mostrou que a leitura está em quinto lugar no rol de preferências para os momentos livres. Um diagnóstico desta pesquisa diz que a leitura é classificada pelos entrevistados como um “trabalho” que cansa. A inovação é não querer parecer erudita, não rebuscar nas frases. É escrever como falo, sinto e penso.Tento inovar quando crio uma obra que pode ser lida por qualquer pessoa. E o que o livro tem de mais inovador, e isso eu descobri à medida que fui tendo o retorno das pessoas que o leram, é que ele se apropria do discurso indireto livre e joga o leitor dentro das próprias emoções.

Você vive o personagem ao escrever, é isso?
Quando escrevo, troco meu lugar pelo lugar do personagem e faço um exercício emocional para sentir o que aquele personagem está sentindo naquele exato momento. Daí, escrevo sem parar e sem revisar: do jeito que sai fica. O resultado que tenho acompanhado é que o livro é lido indiscriminadamente por pessoas habituadas à leitura e por quem jamais leu um livro inteiro, despertando em todos o mesmo interesse. Soube de pessoas que o leram em um dia. O interessante é que muitas dessas pessoas identificaram-se com algum personagem ou com alguns de seus aspectos e que essa identificação se deu muitas vezes de forma “negativa”: observaram em si comportamentos relatados no livro que não gostariam de manter.

Houve inspiração de alguma escola literária?Vejo o realismo europeu e o russo como grandes fontes para quem deseja ingressar no mundo da literatura do século 21. Despojar a realidade de ilusões e sonhos e mostrar a verdade, a mais absoluta verdade. Nossa vida contemporânea fica, assim, bem refletida. Temas como angústia, solidão, depressão, violência doméstica, bulling e tantos outros são tratados da forma que realmente acontecem. Infelizmente.
O título original era “Espelhos Inclinados” (que na verdade me agrada muito mais). Surgiu porque minha filha mais velha, então com 19 anos, leu o livro, capítulo a capítulo, na medida em que eram escritos e sugeriu “Caleidoscópio” como título. Não gostei e achei muito batido. Mas o espírito do nome se aplicava. Então, fui pesquisar e descobri que os caleidoscópios são feitos de espelhos inclinados. Múltiplas facetas aparecem quando se inclinam espelhos.. Mas, para fins editoriais, o nome escolhido foi “Espelhos Quebrados”, que também casa bem.

Tem um organograma no início do livro. Organograma e literura “conversam”?
A finalidade do organograma é transformá-lo em um livro acessível. Ele foi elaborado inicialmente para eu não me perder com idades e nomes. São muitos personagens. Então pensei: não há regra que dissocie a literatura do meu organograma. E não teve uma única pessoa que leu e não elogiou porque, se não existisse, os primeiros capítulos ficariam muito complicados. E, quando o mercado editorial fala em quedas acentuadas nos índices de vendas, a internet avança fortemente sobre todas as classes sociais, sem discriminação de idade ou sexo, que a TV e o cinema estão usando diálogos cada vez mais curtos, que os monólogos praticamente desapareceram, fica bem claro que as pessoas não estão disponíveis para grandes e complicados livros. A linguagem de hoje é outra, o tempo de hoje é outro. A literatura tem que acompanhar. Procurei também diluir as descrições dos personagem ao longo de toda a história para não inviabilizar o livro logo no inicio (são mais de vinte personagens!)

Comente

Seu email não será exibido. *  Campos obrigatórios

*
*
*
  • Categorias

  • Arquivos

Fone/Fax: (11) 5051-9085
Fone: (11) 5052-9112

Acompanhe nosso Twitter:
http://twitter.com/saeditora