Com carinho e com afeto (Revista Superpedido – Edição 18)

A má conservação dos livros indica desleixo e ainda significa problemas na hora da devolução. Saiba como preservar a estrela do seu negócio, esteja ela no estoque ou na prateleira.

Por ALICIA KLEIN

Não me amasse. Proteja-me do sol. Resguarde-me da umidade. Não anote nada em mim. Não me folheie de mãos sujas. Não me coloque grudado com meus pares. Não apóie peso sobre mim. Não me estoque em excesso. Não coma nem beba na minha presença. Atente para os meus malfeitores. Mantenha minhas prateleiras sempre limpas. Afaste o pó de mim. Amém.

Acredite, caro leitor-livreiro, se os livros rezassem à noite, depois que todos vão embora e apagam-se as luzes, esta seria sua oração. Sabemos que a maioria toma cuidado com eles, mas nunca é demais dar umas dicas de como preservar ainda mais as estrelas do seu negócio. Por isso, a Revista Superpedido foi atrás de livreiros, editores e bibliotecários para ajudá-lo nesta empreitada.

Não há estatísticas oficiais sobre quantos exemplares são danificados mensal ou anualmente nas livrarias; estipula-se que seja um número baixo, algo entre 2% e 5% no máximo. Mas esse valor pode pesar no bolso em tempos de consignação e de consumidores cada vez mais exigentes. Que cliente vai aceitar levar para casa um livro com a capa queimada de sol, ou que editora vai receber de volta um outro, todo vergado? A tolerância anda baixa por aí. “Não há nenhuma tolerância das editoras. Sorte que temos pouca perda???, pondera Patrícia Caleiro Rodrigues Costa, proprietária da Kids Books, em São Paulo. Já Eleotério de Oliveira Burrego, no mercado desde 1975 e hoje vendedor da paulistana Martins Editora e Livraria, pensa um pouco diferente: “Quando está muito danificado, a gente nem devolve. Mas não aconteceu este ano e é muito raro a editora recusar???.

Do lado de lá do balcão, Ivo Camargo Jr., diretor comercial da Sextante, acha que o cliente também deveria ser responsabilizado. “Poderia se estabelecer uma filosofia do tipo ‘se estragar, paga’. E a verdade é que se o livro vier danificado porque ficou na vitrine, foi exposto, a gente recebe de volta. A gente sabe quem tem cuidado e 99% têm.??? Eliana Sá, diretora da Sá Editora, acredita que instruções diretas aos livreiros poderiam ajudar a preservar os exemplares. “Faz falta ter algo por escrito, principalmente com livros especiais, como o em Braille que lançamos.??? Eliana se refere a Feche os olhos para ver melhor, primeira publicação comercial na linguagem dos cegos, que exige cuidados maiores, como não colocar nenhum peso sobre o livro, já que isso pode danificar as impressões em relevo, não desmembrar os dois volumes (obras em Braille são muito maiores que as tradicionais), além das dificuldades que qualquer livro grande, fora dos padrões, implica.

Flanela, lixa e lustra-móveis

Bom, voltando à vaca fria: o que fazer para manter os livros sempre apresentáveis aos clientes e em condições de devolvê-los à editora caso não sejam vendidos? “Recomenda-se que se deixe um exemplar sem plástico para manuseio e os demais plastificados, para que não se danifiquem. E o ideal é que TODAS as livrarias tenham ar condicionado???, ensina Regina Céli de Sousa, presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia de São Paulo. A manutenção da temperatura ambiente, da ventilação e a atenção à umidade (que entorta a capa e as folhas) e à luminosidade (o excesso de sol causa descoloração) são fatores importantíssimos na conservação dos livros.

“Como nossa loja é virada para a rua, não expomos os livros ao sol, se não as capas esbranquiçam???, explica Eleotério, da Martins. “Também comprei uma lixa 0100, dessas para madeira mesmo – afinal, celulose não deixa de ser madeira –, para raspar a lombada e deixá-la branquinha de novo, livre do pó. Com muita gente pegando, não tem jeito, então também passo uma flanela com lustra-móveis na capa. Fica brilhando e com cheirinho gostoso, como novo.??? Ainda no quesito limpeza, a bibliotecária Regina sugere: “Usar sempre uma flanela seca para as prateleiras e espanadores ou aspiradores de pó para as gôndolas e o recinto???.

O posicionamento dos livros é igualmente importante. Aqueles que ocuparão lugares nas prateleiras devem ficar em pé, em ângulo reto, sem pressionar uns aos outros, de forma que deslizem quando puxados, evitando danos à capa e à lombada – já pensou o cliente se digladiando com a estante para conseguir arrancar O pequeno príncipe da prateleira? Se necessário, use aparadores para que não fiquem inclinados. Já no caso dos exemplares expostos empilhados em mesas, o fundamental é evitar o excesso de peso sobre eles. Para assustar os mais descrentes, vale lembrar que descuidar da umidade e deixar os livros muito apertados favorece o aparecimento de seres bastante indesejados como fungos e cupins. Imagine só o cliente finalmente extraindo a obra-prima de Antoine de Saint-Exupéry da estante e encontrando mofo ou páginas carcomidas… Constrangedor.

Embalar ou não embalar?

E já que alguém falou em livro plastificado, convém dizer uma coisa, sobre a qual todos os entrevistados foram unânimes: ninguém gosta de comprar algo em que não possa mexer. Se optar por manter os exemplares shrinkados, o que certamente garante sua integridade física, tenha sempre alguns abertos para que os clientes possam manuseá-los. “Guinness, o livro dos recordes, por exemplo, é um dos poucos que a Ediouro já manda fechado. Mas não tem jeito, toda a molecada gosta de abrir, de folhear. Então, é preciso deixar uma meia-dúzia sem shrink para o pessoal mexer. Mas a maioria, uns 85%, sai da editora sem shrink???, calcula Ivo Camargo Jr.

Eliana Sá está na mesma página. “Não trabalhamos com livro lacrado, não gosto. Quem gosta de ler quer sentir o cheiro do papel, da tinta, não quer cortar esse contato.??? O vendedor Rogério Ferreira, também da Martins, é mais radical: “Não existe trabalhar com livro lacrado! O cliente tem de mexer no produto. Mas dou uns toques quando acho que a pessoa está desatenta, peço para tomar cuidado, não forçar etc. porque não trabalhamos com quantidade. De muitos títulos só temos um ou dois exemplares e não se pode correr o risco de estragá-los por pura desatenção. Às vezes, a pessoa nem percebe, esquece que o livro não é seu. Nunca ninguém ficou chateado???.

Mesmo quem lida com consumidores um pouco mais “perigosos??? não gosta de deixar os livros embalados. Patrícia, da livraria infantil Kids Books, conta que já fez eventos com comida e massinha, e ainda assim conseguiu encerrar o dia com os produtos intactos. “Às vezes, fica tudo uma bagunça, mas a gente lava as mãos para mexer na loja e fica tudo bem – os livros infantis são mais resistentes por serem para criança, precisam durar. E só tiramos o plástico na hora de descer para a loja, no estoque fica tudo fechadinho. Também procuro pedir no máximo cinco de cada livro, aí gira bastante e não fica empoeirando ou muito tempo guardado. Se não está girando, seis ou oito meses depois eu devolvo.???

Este tipo de atitude também colabora bastante para manter os ditos cujos sempre em bom estado. “A consignação faz subir o número de livros guardados???, alerta Eliana, da Sá Editora. “Muitas vezes, o livreiro demora demais a devolver, não presta contas, não consegue vender e nem expor tantos livros. Deveria se fazer um gerenciamento profissional da consignação, pedindo só aqueles que se pode comercializar, com uma estocagem adequada, deixando os exemplares o menor tempo possível na livraria. Do nosso lado, procuramos fazer os livros na formatação padrão, para facilitar o uso dos suportes e guardá-los nas estantes.??? Na Ediouro, o diretor Ivo Camargo Jr. descreve outros procedimentos excepcionais: “Instruímos a área editorial a não produzir, por exemplo, livros de capa branca. E se é livro de arte, muito caro, com corte diferente, nem fazemos consignação???.

O momento de partir

Na hora de devolver à editora ou distribuidora os exemplares que não vendeu, não custa nada dedicar um tempo à acomodação dos viajantes (numa caixa de tamanho adequado, se possível com folhas de plástico bolha para evitar danos no transporte). Na hora de lacrar a caixa, o melhor é usar fita adesiva de papel – com ela, possíveis violações ficam mais evidentes do que com a fita de plástico tradicional. Antes disso, porém, promova uma pequena faxina nos passageiros. “Já passei dois dias só limpando livro antes de prestar contas de consignação”, relata o experiente Eleotério, da Martins. Muitas vezes, pequenos riscos, sujeira de pó ou outras marcas que talvez causassem má impressão podem ser resolvidos com um pouco de paciência, dedicação, uma lixa e uma flanelinha.

Quando nem isso dá jeito no danado, sempre há uma saída para minimizar o prejuízo. Os descontos provavelmente são os favoritos – dos livreiros, porque ainda ganham alguma coisa com o produto danificado, e dos consumidores, que levam o que queriam por um precinho camarada. “As livrarias grandes sempre fazem saldos, principalmente com os títulos da moda, que acabam passando muito de mão em mão???, lembra Rogério, da Martins. Só que isso não precisa ser privilégio das megastores, e outras idéias estão por aí para se copiar.

“Quando o livro fica queimado do sol, cai da prateleira, suja ou por qualquer razão não dá para vender nem devolver, eu dou para os clientes mais assíduos. A mãe vê o livro numa das mesinhas ou no balcão e pergunta se pode levar. Eu falo que pode e ela fica feliz???, revela Patrícia, da Kids Books.

E se o problema não for o livro, mas quem vai comprá-lo, não se avexe em abordar o freguês mais desleixado, que entre comendo um churro de doce de leite vazando por cima e por baixo ou tomando um milk-shake suado. Delicadamente, peça para que deixe as guloseimas de lado por um instante, ofereça para guardá-las no caixa, enfim, saia em defesa de seus protegidos, os livros. Eles esperam isso de você. Já quase não se fuma em lugares fechados hoje em dia, mas ainda há quem possa adentrar a sua loja com o cigarrão na mão, cinza equilibrada na ponta como a Torre de Pisa. Faça o que tem de fazer e solicite ao cliente que o apague no cinzeiro mais próximo.

Com tudo isso em mente, antes de pensar em bronquear todos os clientes mais afoitos, atentando para o produto não cair da prateleira, saque o paninho numa mão, o aspirador na outra, e pense no que diz o tarimbado Ivo: “O brasileiro gosta de ir à feira. Do mesmo jeito que gosta de pegar no abacate, quer pegar no livro também???. E quem vai querer um abacate todo sujo e machucado? Eu, hein.

Fonte:
http://www.superpedido.com.br/Site/Revista.aspx?ID=131

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