Editores se organizam e sonham com 'livro certo' (O Estado de S. Paulo, 10/02/2002)
10.02.2002 – O Estado de S. Paulo
‘Primavera dos Livros’ deu início a movimento que já rende frutos; segundo eles, mercado exige coerência e qualidade
HAROLDO CERAVOLO SEREZA
Desde o dia 31 de janeiro, a Receita Federal ampliou as exigências para editoras e gráficas comprarem papel com isenção fiscal (a questão está na Justiça; a legalidade da portaria é questionada pela Câmara Brasileira do Livro-CBL). Em 2001, uma grande rede de livrarias reduziu o tempo para que um livro mostre a que veio: se em 45 dias não der o retorno esperado, os exemplares voltam para o editor e os pedidos cessam. No final do ano passado, o Ministério da Educação organizou uma grande compra de livros não-didáticos, envolvendo mais de R$ 50 milhões; seis grandes editoras, mais preparadas para enfrentar prazos curtos e burocracia, dividiram o bolo. No fim de 2001, uma conquista: o Ministério da Cultura voltou atrás numa confusa aquisição de livros para bibliotecas públicas, depois da pressão dos editores que se haviam organizado a partir da Primavera dos Livros, uma feira alternativa que ocorreu em setembro de 2001 no Rio e deu um novo ânimo a pequenos editores. O evento deve se repetir em São Paulo neste ano.
“No ano passado, tive de aprender a ser uma editora pequena”, conta Eliana Sá, que fundou sua empresa, a Sá, em 2000. De lá para cá, lançou nove títulos. O primeiro produto, uma nova tradução de A Noite dos Desesperados, de Horace McCoy, lhe deu uma dura lição: após dois meses, o livro, que chegava às livrarias por meio de uma só distribuidora, vendera 70 exemplares. Eliana, então, assumiu o contato com as livrarias e pulverizou a distribuição. A obra de McCoy e uma edição de Os Maias mostraram ainda que, mais do que para os grandes, é preciso publicar na hora certa: McCoy saiu após os lançamentos de fim de ano dos concorrentes, e Os Maias, perto demais da minissérie.
Mudança – Nos anos 90, o avanço tecnológico reduziu o capital mínimo necessário para montar uma editora, ao mesmo tempo em que concentrou os negócios. Enquanto a Record comprava os selos Bertrand Brasil, Difel, Civilização Brasileira e José Olympio, pequenas editoras encontravam caminhos próprios: Annablume e Nankim publicam boas teses que as editoras universitárias inexplicavelmente deixam na gaveta; a Hedra aposta numa “erudição popular”, com sermões do padre Antônio Vieira e uma tradução de Mamede Mustafá Jarouche das Cento e Uma Noites; a Imaginário abastece o bolso dos jovens com a ideologia anarquista em pequenos livros. “A Labortexto nasceu com R$ 20 mil”, conta João Eduardo Pedroso. O dinheiro serviu para a compra de equipamentos, gastos com a burocracia e, especialmente, na impressão do primeiro livro, Capão Pecado, há dois anos.
Hoje com seis títulos, a Labortexto teve sorte: a obra deve agora ganhar uma terceira impressão. “Mas a empresa não gera ‘dividendos’”, diz Pedroso.
“Tudo o que faturamos é reinvestido.” Para manter os sócios, a Labortexto, que não tem funcionários, presta serviços a terceiros.
A busca do “livro certo” é uma obsessão dos pequenos, que têm menos espaço para “errar”. A Musa Editora aventurou-se, recentemente, no sonho da auto-ajuda: todos os editores são assediados por agentes literários oferecendo obras do gênero que, na maioria das vezes, não dão resultado (mas que podem ser um bilhete premiado). O Cristal da Sabedoria, de Irede Cardoso, custava R$ 12, mas encalhou. “Percebi que a editora tem um perfil; não posso fugir dele”, conta Ana Cândida Costa, da Musa, que publica História de Florença, de Maquiavel, e Mistério-Bufo, de Maiakovski.
Números – Para a CBL, uma editora se caracteriza por publicar, entre edições e reedições, ao menos cinco livros por ano. Das 405 empresas que se enquadram na definição, só 7 (1,7% do total) movimentaram mais de R$ 50 milhões – todas de obras didáticas -, formando o topo da pirâmide. Assim, a Sá se situa na “fundação”, porque é uma pequena entre as pequenas. A base, segundo critérios da CBL, inclui as editoras que faturam até R$ 1 milhão por ano – são 316 empresas, ou 78% do total; o segundo grupo, de R$ 1 milhão a R$ 10 milhões (55 empresas, 13,5%); o terceiro, de R$ 10 milhões a R$ 50 milhões (27, ou 6,7%); e, finalmente, as que faturam mais de R$ 50 milhões.
Fidelidade ao gosto público foi uma das receitas que ajudaram a fazer crescer a editora Estação Liberdade, segundo Angel Bojadsen. Ainda integrante do primeiro grupo, a Estação Liberdade espera, neste ano, passar para o segundo. Alguns livros marcaram a sua trajetória, como História da Alimentação, de 1997, atualmente na 3.ª edição, e o épico japonês Musashi, única tradução integral do texto no mundo, que já vendeu mais de 50 mil exemplares. Uma das marcas da editora é sua “internacionalização”: nomes japoneses, alemães, franceses e italianos estão sempre na sua lista de lançamentos, que deve chegar a 30 títulos em 2002. “Meu problema não é colocar livro no mercado, mas fazê-lo responsavelmente; se lançar cinco títulos por mês, terei problemas com capital de giro.” Que, na verdade, as editoras “emprestam” aos livreiros, na forma de consignação. “As livrarias compram estantes, computadores, softwares; só não querem comprar livros”, queixa-se Ana Cândida, da Musa.
Não há uma linha de crédito especial para pequenas editoras, que competem no mercado bancário com empresas de outros setores. O que causa dificuldades onde parece só haver realização: muitas vezes, faltam ao pequeno editor recursos para reimprimir, na velocidade que o mercado exige, um livro cuja edição esgotou.
