Pequenas editoras, grandes sonhos (11/04/2003)
Pequenas editoras, grandes sonhos
Facilidades tecnológicas e segmentação do mercado abrem portas para o surgimento de inúmeros selos domésticos, tocados por uma ou duas pessoas e nos quais o profissionalismo convive com uma grande dose de romantismo. Algumas dessas editoras têm provocado boas surpresas com lançamentos ou relançamentos ousados.
Angélica Brum
Portal Literal
http://portalliteral.terra.com.br
Um macintosh usado, uma impressora a laser e uma sócia. O designer Joca Reiners Terron não precisou de muito para montar a Ciência do Acidente, que funciona desde 1999 em um dos quartos da casa dele. Histórias de editoras domésticas – ou quase – se repetem Brasil afora. Os avanços da tecnologia e a segmentação do mercado impulsionam a proliferação dos pequenos negócios. Em quase todos, faltam recursos e sobra autonomia. Com apenas um ou, no máximo, dois proprietários, os catálogos dessas editoras acabam saindo a imagem e semelhança dos donos, que geralmente se dão ao direito de publicar livros que gostariam de ler ou escrever.
Apesar da estrutura acanhada, volta e meia, editoras nanicas surpreendem. Recentemente, a carioca Azougue, dos irmãos Sérgio e Clarice Cohn, chamou atenção dos cadernos de literatura com “Mitologia do kaos”, de Jorge Mautner. Em São Paulo, Eliana Sá, da Sá Editora, vislumbra um futuro de bons negócios com a adaptação para o cinema de “De moto pela América do Sul – Diário de viagem”, de Ernesto Che Guevara. A obra, representada no Brasil pela editora, inspirou o novo filme de Walter Salles, que será lançado este ano.
A possibilidade de boas vendas anima. Mas, definitivamente, a idéia de retorno imediato não move esse tipo de empreendimento. “Quem dera viver dos livros. O sonho está longe, muito longe. Minha mulher e eu somos jornalistas. Eu dou aula no curso de Comunicação da PUC de São Paulo e nós dois fazemos frilas de textos, escrevemos roteiros e matérias”, explica Sérgio Pinto de Almeida, que divide as atribuições da editora Papagaio com a mulher, Denise Natale.
Laços familiares ou de amizade costumam dar origem às sociedades. O exemplo da paulista Ciência do Acidente – que conta com títulos de autores como Marçal Aquino (”Faroestes”) – estimulou uma dupla de amigos a lançar a Livros do Mal, em Porto Alegre. Assim com Joca Terron e a sócia Patrícia Perocco, Daniel Galera e Daniel Pellizzari investem os lucros – quase sempre discretíssimos – em novas obras. “Raramente algum centavo vai para o nosso bolso. No atual estágio, a Livros do Mal é muito mais um projeto afetivo do que rentável”, diz Galera, autor de “Dentes guardados”.
Um projeto afetivo, no entanto, pode se tornar rentável. Aos poucos, Thereza Christina Motta vem deixando de lado as atividades de advogada, tradutora e professora de inglês para se dedicar mais à ??bis Libris. “Hoje, posso dizer que a editora é minha principal fonte de renda”, comemora Thereza, que lançou o selo para publicar as poesias de um amigo. “Trabalhei como chefe de pesquisa da versão nacional do Guiness Book, o livro dos recordes, e também participei da redação de projetos especiais da Editora Três. Por causa da minha experiência, um amigo me pediu que fizesse o projeto editorial do livro dele.”
Geralmente, o surgimento de uma pequena editora coincide com publicação de um título assinado pelo próprio editor. “Depois do lançamento do meu livro, em 1999, comecei a ser procurado por outros autores que gostaram do resultado”, lembra Joca Terron. “Então, surgiu a idéia da editora, que foi crescendo conforme aumentava o número de cúmplices.”
Sérgio Cohn, que gosta de dizer que abriu a Azougue “no susto”, chegou a publicar um livro antes mesmo de se aventurar nos negócios da literatura. A experiência malsucedida ajudou a montar o perfil da empresa administrada por ele e pela irmã, Clarice. “Entreguei o livro a uma editora e arquei com todos os custos: o resultado foi traumático. Portanto, desde o início, temos como meta bancar os gastos de edição e comercialização. Com essa postura, deixamos claro que apostamos na qualidade do nosso selo”, justifica Sérgio, que abriu a empresa com o dinheiro de uma herança e, invariavelmente, lança livros com recursos obtidos através dos incentivos das leis de renúncia fiscal.
Os patrocínios de empresas e o financiamento de órgãos públicos costumam ser fundamentais para garantir a sobrevivência dos negócios. Graças ao apoio de um fundo da Prefeitura de Porto Alegre, o Fumproarte, Daniel Galera e Daniel Pellizzari lançaram as primeiras obras da Livros do Mal. Atualmente, os dois concentram suas forças para vencer o grande obstáculo do pequeno editor: a distribuição.
“Usamos diversas estratégias combinadas. Em Porto Alegre, fazemos tudo pessoalmente. Nas outras cidades, onde não conseguimos vender diretamente para livrarias de pequeno porte, buscamos nos associar com as distribuidoras locais”, conta Galera. A política dos gaúchos não difere muito das medidas adotadas pela Azougue. “Assumimos a distribuição no Rio de Janeiro e em São Paulo. Por enquanto, estamos satisfeitos com a atenção das livrarias”, garante Sérgio Cohn.
Para superar as dificuldades de distribuição, a Papagaio investe na divulgação. “Tentamos fazer a maior, mais ampla e melhor divulgação possível, apostando que isso possa despertar o interesse do leitor. Aí, é rezar para que os distribuidores tenham o livro e consigam espalhar no mercado. Já deu para perceber que esse processo não tem nada de científico. Salvo raríssimas exceções, os distribuidores não utilizam sequer a internet”, diz Sérgio Pinto de Almeida, que relançou por sua editora o tropicalista “Panamérica”, de José Agrippino de Paula.
As feiras também representam uma boa saída, como explica Eliana Sá, da Sá Editora. “Procuramos caçar os clientes um a um. Participamos de eventos como a Bienal e a Primavera dos Livros, e nos preocupamos em atualizar o nosso cadastro de jornalistas.” Para tornar a caçada ainda mais produtiva, Eliana prepara novas iscas para os leitores, deixando um pouco de lado suas preferências pessoais “Estou começando a me preocupar mais com o gosto do mercado. Produzi livros maravilhosos, que não venderam o suficiente. Como diz o Pedro Paulo Senna Madureira, você pode editar títulos que não tenham nada a ver com a sua biblioteca particular”, destaca Eliana, que abriu a editora “na base da emoção e do sonho” com os recursos de seu fundo de garantia, liberado depois de 12 anos de trabalho como executiva de uma grande editora.
