
224 páginas
R$ 32,90
ISBN: 8588193132




Mortalha não tem bolso
Horace McCoy
Escrito em 1937, Mortalha não tem bolso tem ainda hoje a força de uma obra viva e pulsante. Ele é centrado na figura exuberante de Mike Dolan, um repórter idealista, acossado pela Verdade, que acredita no poder de denúncia de uma imprensa livre, mas se depara com a corrupção e o jogo do poder econômico. A ação se passa em uma pequena cidade americana, um microcosmo provinciano capaz de representar todas as singularidades sociais. Combativo, McCoy/Dolan aproveita para meter o dedo na ferida dos grandes traumas da sociedade americana em crise pós-depressão: corrupção nas relações entre a polícia e o poder, grupos neofascistas que ressurgem, imprensa marrom.
Nosso jornalista, depois de se demitir da grande imprensa, tenta quixotescamente reagir, dirigindo sua própria publicação, porém encontra pressões mais fortes, que desencadeiam sua fúria sobre ele de forma brutal. A linguagem é ágil e cortante; os diálogos, vivos e intensos – McCoy foi jornalista e roteirista de cinema e consegue saturar esta short-story de emoção e realidade. Inédita no Brasil, No pockets in a shroud ganha agora a competente tradução do jornalista Renato Pompeu.
Para o professor: indicado para Faculdades de Letras, Jornalismo, Ciências Sociais. Para estudantes do Segundo Grau.
Autor
Horace McCoy nasceu em 1897, perto de Nashville, Tennessee. Começou a trabalhar aos doze anos como jornaleiro; mais tarde serviu um ano e meio na França, durante a Primeira Guerra Mundial. Seu variado currículo inclui as profissões de caixeiro-viajante, motorista de táxi, repórter e editor de esportes e guarda-costas de político. Trabalhou também como leão-de-chácara em concursos de dança, tão populares na época da Depressão americana e assunto de seu livro A noite dos desesperados (Sá Editora/2000), escrito em 1935.
Finalmente tornou-se roteirista de cinema e escritor. Fundador do célebre Teatro de Bolso de Dallas, seus outros romances incluem “I should have stayed home” (1938) e “Kiss tomorrow goodbye” (1948). Morreu em 1955. Horace McCoy é considerado um dos maiores escritores americanos do século XX.
Leia um trecho
Capítulo 1
Quando Dolan recebeu a chamada para se apresentar na sala do editor-chefe, sabia que isso significava o fim, e, durante todo o tempo em que subiu as escadas, só ruminava uma idéia: já não havia mais colhões no jornalismo atual. Ah, como gostaria de estar vivendo na época dos editores Dana e Greeley, quando um jornal era um jornal e chamava um filho-da-puta de filho-da-puta, e que fosse para o diabo! Deve ter sido ótimo ser um repórter num desses jornais antigos. Não como agora, quando o país estava cheio de pequenos editores semelhantes a Hearst e MacFaddens, tocando tambores e se embandeirando em todos os jornais e dizendo que Mussolini era um novo César (só que com aviões e gases venenosos) e Hitler era outro Frederico, o Grande (só que com tanques e piromaníacos homossexuais), e vendendo patriotismo com descontos e não ligando para mais nada a não ser os números da circulação. (Cavalheiros, sentimos muito que não possamos emprestar nossos caminhões esta tarde para tirar o butim da Prefeitura, mas simplesmente precisamos entregar nossa edição no final da noite. Depois das seis da tarde ficaremos felizes em deixar os caminhões com os senhores. Ou: oh, sim, sr. Delancey, entendemos perfeitamente: aquelas duas mulheres apareceram na frente do carro do seu filho. Oh, sim, senhor, hahahahaha! Aquele cheiro de álcool no seu filho vinha de alguém ter derrubado um coquetel no terno dele.) “Esses bastardos da imprensa marrom”, vociferou Dolan, entrando na sala de Thomas, o editor-chefe. “De onde veio essa matéria?”, já foi perguntando Thomas, segurando duas laudas datilografadas. “Está tudo certo”, disse Dolan. “Essa é uma matéria que não pode ser desmentida.” “Não foi isso que perguntei. Perguntei onde você conseguiu a matéria.” “Consegui anteontem. No último jogo do campeonato de beisebol. Por quê?” “Parece bastante fantástica.” “Ela não só parece bastante fantástica, ela é bastante fantástica! Quando um clube, numa bola decisiva do campeonato, deliberadamente joga errado em benefício de uns poucos apostadores, isso é o que você chama de matéria fantástica. Suponho que você vai jogar fora também essa matéria.” “Vou, mas essa não é a única razão pela qual mandei chamar você. Esqueça a matéria. O departamento empresarial…” “Um minuto”, interrompeu Dolan. “Você não pode esquecer uma coisa como essa. Caralho, o time pifou de propósito. Todo mundo que assistiu ao jogo viu que eles estavam na gaveta. Não foram nem espertos o suficiente para esconder o que faziam. Além disso, essa matéria não é exclusiva nossa. Os outros jornais também a têm – vão usá-la esta tarde. Temos de nos proteger.”
