Um banho turco nossos livros de literatura turca ganham resenha em A Gazeta do Sul
Segunda-feira, 16 de Abril de 2012


Romar Beling
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A literatura, ninguém nunca o duvidou, é expediente por excelência de mergulho em diferentes universos culturais. Na língua portuguesa, seja no Brasil, seja em Portugal, uma das lacunas mais evidentes ao longo do tempo esteve no acesso à produção turca, no contexto mundial uma das mais enigmáticas e talvez mais ricas dentre todas.
Por sua localização estratégica, essa nação dialoga de forma privilegiada, sincrética, com os dois polos do saber, Oriente e Ocidente, as duas metades de uma mesma moeda humana. Das poucas vozes que sua literatura ecoava em nossa realidade, a do Nobel de Literatura Orhan Pamuk talvez fosse a mais enfática, hoje leitura quase obrigatória de todos que queiram compreender minimamente o que se pensa e o que se compartilha nas lonjuras divididas pelo Bósforo.
Pois essa deficiência começa a ser corajosa e competentemente amenizada. Em parte por iniciativa de uma editora, em parte também por empenho pessoal de um grupo de tradutores, escritores turcos contemporâneos estão sendo trazidos à língua de Camões e Guimarães Rosa. A Sá Editora, estabelecida em Barueri, São Paulo, revoluciona a postura livresca brasileira e aposta com entusiasmo em romances turcos, num acervo que cresceu muito em 2011. O apuro formal das capas e o capricho na editoração devem ser desde logo mencionados.
Na verdade, esse movimento se iniciou com a tradução, inédita para o português, de O livro de Dede Korkut, o grande poema épico em língua turca (algo como Os lusíadas, ou A ilíada, ou A odisseia), enredo de autoria anônima. Quem empreendeu a tarefa foi o tradutor Marco Syrayama de Pinto, especialista em línguas orientais, no que se configurou a primeira publicação de livro traduzido diretamente do turco no Brasil, bem por isso merecidamente agraciada com o Jabuti de tradução em 2011.
PALAVRAS ACHADAS – Já no catálogo da Sá, Marco Syrayama foi responsável pela versão do primeiro romance da literatura turca moderna, diretamente do turco ao português, o volume As preces são imutáveis, de Tuna Kiremitçi. Nascido em 1973, Tuna é um dos autores contemporâneos mais lidos em seu país e trabalha, nesse texto especialmente, com a “preservação da memória”. Faz contracenar, na Europa, uma jovem estudante turca e uma velha senhora que vivera em Istambul durante a Segunda Guerra Mundial. Com esse livro, a Sá instituiu o selo Gesto Literário, que passou a identificar as obras nesse esforço de aproximação entre autores turcos e leitores brasileiros.
A esse título seguiu-se o cativante A concubina, da escritora Gül Irepoglu, historiadora com profundo conhecimento da realidade de seu país no século 18. A recuperação da atmosfera do Império Otomano, no reinado do sultão Abdulhamid Han, é primorosa. No centro dos acontecimentos, com base em fatos verídicos, está a paixão avassaladora entre o sultão e uma de suas concubinas, Askidil (“amor da alma”, ou “essência do amor”, em turco), a ponto de ele implorar para que ela viesse deitar-se em sua cama. Como contraponto, de efetivação impossível, tem-se o amor do eunuco-chefe por essa linda mulher. Aqui, a tradução coube a Marina Mariz.
Em outro momento foi viabilizada a edição do romance Palavra perdida, da escritora e socióloga Oya Baydar, em parceria de tradução entre Marina Mariz e Marco Syrayama. Nascida em Istambul, em 1940, Oya, uma das maiores expressões da literatura turca na atualidade, premiada em diversas ocasiões, aborda nesse romance as agruras de um jovem casal de curdos, povo que tem sido impiedosamente perseguido na realidade da Turquia. A palavra perdida alude justamente à língua curda, como cerceamento da liberdade de expressão.
Por fim, neste princípio de 2012 a editora acrescentou ao acervo do selo Gesto Literário o livro Um golpe de sorte, primeiro romance do escritor Reha Çamuroglu a ser versado ao português, novamente sob o encargo da tradutora Marina Mariz. Best-seller na Turquia, conjuga revolucionários armênios, um anarquista belga e espiões turcos em torno do plano de assassinato do sultão. Pelos indicativos, o próximo título a ser disponibilizado é Suflê, de Asli Perker, promovendo assim um verdadeiro banho turco de imersão na cultura e na literatura. Sem dúvida, eis uma leitura revigorante.
Trecho
“O que nós dois compartilhamos, naquela única noite até a manhã, pode muito bem ter sido mais pleno do que uma vida inteira. Sim, “pleno” é a palavra mais apropriada; “rico” não seria suficiente, pois esta palavra se presta prontamente a muitas outras interpretações. Pleno é muito mais adequado.
Que choque vigoroso no campo de batalha, que nuvem de energia que emana no coração da luta poderia se comparar com a radiosa luz que resultou do toque de nossos corpos? Que ribombar silencioso criado pelos corações dos guerreiros, pulsando violentamente ao se enfrentarem, poderia se igualar ao nosso tremor?”
De A concubina, de Gül Irepoglu.
http://www.google.comwww.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/338576-um_banho_turco.html


