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Eufemismos
Para quem não sabe, eufemismo é a figura de linguagem através da
qual substituímos uma palavra ou expressão que possa ser "pesada"
em determinada situação por outra que signifique a mesma coisa de
uma maneira mais branda. Exemplificando, é comum dizermos que alguém
faleceu, ou "foi desta para melhor", ao invés de dizermos que morreu;
ou referirmo-nos por obeso a alguém que é gordo; ou, ainda, trocarmos
velho por idoso. São eufemismos. Um aspecto extremamente interessante
nessa questão dos eufemismos é que muitas vezes a sua não utilização
pode significar algo ofensivo para muitas pessoas. Tive, durante
algum tempo, a experiência de trabalhar em uma agência bancária
onde havia muitas contas correntes e poupanças de pessoas bastante
humildes, muitas das quais analfabetas, que sequer sabiam assinar
o próprio nome. Tínhamos, nesses casos, que colher a digital da
pessoa e solicitar a assinatura de uma testemunha para que se pudesse
movimentar a conta. O curioso é que, para explicar aquela situação,
a pessoa jamais dizia "sou analfabeto", ou "não sei escrever". Ouvíamos
sempre "eu não assino". Instintivamente, aprendemos a retrucar no
mesmo tom... "O senhor não assina?" Nunca "O senhor é analfabeto?"
ou "O senhor não sabe escrever?" Certamente, percebíamos, aquilo
soaria agressivo. Modernamente temo-nos visto às voltas com essa
questão do eufemismo "obrigatório" em assuntos referentes ao problema
do racismo. Parece estar convencionado por aí, eu próprio às vezes
me confundo, já que até cheguei a ouvir o contrário, que se deve
dizer que as pessoas são "negras" e não "pretas", o que seria ofensivo.
Pode parecer estranho que alguém exija ser chamado de "negro" e
não admita o ser de "preto", se, em última análise são termos sinônimos.
Contudo devemos respeito a esse tipo de coisa. Quando digo que devemos
respeito a esse tipo de coisa, é porque sei "de carteirinha" sobre
o que estou falando. O eufemismo tem muito a ver com o problema
da calvície. O leitor atento terá observado que utilizei às vezes
o termo "careca" nos tópicos anteriores (e ulteriores). Noutras
preferi dizer "calvo". É que defendo a tese de que a escrita fica
mais elegante se nos servimos de sinônimos para evitar a repetição
de uma mesma palavra. Porém, devo dizer, e nisso tenho que incluir
a mim próprio: um homem que esteja perdendo ou tenha perdido seus
cabelos certamente não gosta de ser chamado de "careca" (odeia!).
O "calvo" é sempre de melhor tom. Assim, muitas vezes na vida já
falei que sou um homem calvo, mas provavelmente jamais me disse
careca. Se este é, e pretendo que seja, um relato sincero, isso
deve ficar registrado, pois é algo que espelha com clareza o problema
do abalo que sofremos em nossa auto-estima. Exigimos - não neguemos
- ser tratados por calvos, nunca por carecas. O pior de tudo é que
eu próprio, endossando o meu humano atestado de contradição, às
vezes "tiro um sarro" do eufemismo alheio. Naquela época do banco,
por exemplo... - Engraçado esse pessoal dizer "não assino"... Que
frescura! Porque não falam logo que são analfabetos se é o que eles
são? Eles não têm culpa, portanto que o assumam, oras! Hoje eu vejo
como cuspi para cima. E olhe que foi uma bela cuspida! Às vezes
sequer me digo calvo. Opto por "tenho pouco cabelo". Creio, de qualquer
forma, que tenho aprendido um pouco com a vida e progredido um pouco
neste aspecto, afinal estou aqui diante deste computador a digitar
estas palavras... É ainda duro, admito, mas lá vai... - Eu sou careca!!!
Pronto! Está dito!
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