Capa: Moema Cavalcanti
Ilustração: Lúcia Brandão
Formato: 16 x 23 cm
Nós, as sogras
Christiane Collange
Nós, as sogras: as mulheres tomam a palavra e falam dos limites e dificuldades de viver este papel tão delicado
Nada fácil ser uma sogra. Mesmo que o mundo tenha evoluído, as sociedades tenham mudado seus valores, o papel da Sogra e os preconceitos que pesam sobre sua figura não parece ter sofrido tantas modificações historicamente.
Fruto de sua experiência – ela tem quatro filhos homens e quatro noras, a escritora e jornalista Christiane Collange decidiu conduzir uma pesquisa sobre esta relação tão delicada.
Autora de inúmeros livros sobre as mulheres e as relações familiares, ela foi escutar mais de uma centena de Sogras em toda a França, convidando-as a falar sobre suas relações com as novas famílias formadas por seus filhos.
A constatação final é inapelável: a relação sogra/nora não é nunca fácil para ambas as partes!
O livro apresenta inúmeras situações de confronto emocional e até mesmo as anedotas – freqüentemente trágicas, mas das quais conseguimos rir –, onde cada um(a) poderá se reconhecer. Mas iremos encontrar também algumas pistas preciosas para se ter um bom relacionamento com noras, genros, filhos casados e netos. E assim, podermos usufruir mais integralmente os prazeres dos “domingos em família”.
Jornalista, escritora e mãe de família numerosa, Christiane Collange (nascida Servan-Schreiber, em Paris, 1930) consagrou toda a sua carreira aos problemas da sociedade, à promoção da mulher moderna e à reflexão sobre as relações humanas e familiares numa sociedade em mutação.Foi redora-chefe de L’Express, editorialista de Elle e Madame Figaro, apresentadora de rádio e televisão na França.Também criou um site na internet dedicado à menopausa. Escreveu quinze livros, entre eles, vários best-sellers na Europa.Tem quatro filhos, quinze netos e acaba de virar bisavó. Dela a Sá Editora publicou também A segunda vida das mulheres (2005).
Autora
Cristiane Collange teve 16 livros publicados, quarto deles best-sellers europeus: Madame et le Management (1969, reedição em 2002) Je veux rentrer à la maison (I979) Moi ta mère* (1985) Moi ta fille* (1990).
Os outros títulos: Madame et le Bonheur, Ca va les hommes?, Le divorce-boom*, Chers Enfants*, Nos sous*. Dessine moi une famille, La politesse du coeur*, La grosse et la maigre com a colaboração de Claire Gallois., Toi, mon senior* , Merci mon siècle, Nous les Belles-mères e o último La deuxième vie des femmes lançado em fevereiro de 2005 na França e já traduzido em seis idiomas.
Christiane Collange já figurou na lista de best-sellers na Espanha, Itália, Alemanha, Suécia, Dinamarca, Argentina, México. Dois de seus livros já foram traduzidos para o japonês.
Curriculum completo:
* Nascida, Christiane Servan-Schreiber, em 29 outubro de 1930
* Formada pelo Institut d’Etudes Politiques , Paris, em 1951
* Condecorada “Chevalier” da Legião de Honra francesa
Como jornalista:
* Diretora de Madame Express, depois Redatora-chefe da revista “L’Express” (1953-1969),
* Diretora do Jardin des Modes (1970/72),
* Editorialista da revista ELLE (1972/78) e de Madame Figaro (de 1988 à 1995),
* Apresentadora de programas em rádio Europe1 (de I970/80),
* Editorialista em televisão – Telematin/ A2,
* Comentarista no canal francês LCI (de 1994 a 1996),
* Cronista sobre os acontecimentos da sociedade todas as sextas-feiras na Rádio Bleue de 1996/1999,
* Editorialista da revista “Vivre+” desde 2002,
* Participou de inúmeros programas de televisão na França.
* INTERNET : criou o site “seniorplanet.fr” em 2000
* Criou e dirigiu um site sobre a menopausa (2000-2005): ménopause.fr
Leia um trecho:
Capítulo I
ETERNAMENTE SOGRAS
Sábado à noite, horário nobre na televisão: numa loja de móveis usados, um senhor idoso não consegue se comunicar com o adolescente teimoso, protagonista da história, e grita irritado: “Caramba, como você é chato; parece até uma sogra!”. Ha, ha, ha, riso do responsável pelo programa, risadas da platéia. Vocês acham isso engraçado? Eu não.
Propaganda de uma operadora de telefonia oferecendo chamadas a preços reduzidos. Um jovem casal com ar ingênuo. Acima de sua foto, somente uma frase: “Sinto muito, mas com preços tão baixos sua sogra vai lhe telefonar todos os dias”. Vocês acham isso espirituoso? Nem eu.
Publicidade para conservas ou congelados, ainda no horário nobre, já que é preciso realmente uma grande audiência para tornar rentável um anúncio de alimentos de grande consumo:
– Querida, diz o maridinho, meus pais vêm jantar esta noite…
– Meu Deus! – exclama a jovem esposa apavorada –, logo sua mãe que é tão difícil (é claro que é sempre a mãe do marido que tem o papel de megera, embora o pai seja sempre o mais exigente quanto à comida)!
– Mas não tem problema, com esse congelado ou esse enlatado, ela vai ficar maravilhada…
– Sua mãe? Duvido muito!
Vocês comprariam esse produto por causa desse anúncio? Eu não. Mas, se uma empresa alimentícia gasta fortunas para divulgar essa mensagem em um horário de grande audiência, é porque há pessoas que gostam desse humor racista.
Uma raça amaldiçoada
Eu disse isso mesmo: racista. Quando classificamos uma pessoa em uma determinada categoria, sem levar em conta sua individualidade, isto é racismo. Nós, as sogras, estamos assim condenadas de antemão na mente daqueles e daquelas que convivem conosco. Fazemos parte de uma raça cuja imagem será sempre vista de forma negativa ou ridícula. Maníacas, autoritárias, indiscretas, intrometidas, superprotetoras… A palavra “sogra” por si só provoca, infalivelmente, zombarias. Vocês sabem como os floristas chamam as enormes plantas vistosas com espinhos pontudos? “Travesseiros de sogra!”.
O que não impede que haja algumas exceções a essa regra lamentável. Às vezes se ouve: “Sogras costumam ser chatas, mas até que a minha é simpática”. “Como os “bons judeus”, há também as “boas sogras!”.
Na literatura francesa, o modelo da sogra-monstro sai da pena de François Mauriac no seu livro Genitrix. Ela chega ao ponto de matar a nora, com a conivência do filho para se ver, enfim, livre dela!
Esse crime em família parece pertencer mais ao universo da mitologia grega do que ao romance da Europa do século XX. Entretanto, esse livro foi escrito em 1923 e obteve um grande sucesso por corresponder, sem dúvida, a uma fantasia de seus leitores, e sobretudo de suas leitoras. Felizmente raros na vida real, esses crimes fazem parte de nosso imaginário. Que mulher não sonhou um dia ver “desaparecer” sua sogra de uma vez por todas? A recíproca é verdadeira. Hoje em dia, um contrato de separação de bens no momento do casamento, um divórcio amigável em caso de separação, ou uma casa de repouso que evite a convivência sob o mesmo teto tornam esses assassinatos, mesmo que sejam fantasias, supérfluos. Nenhum contrato entre dois seres pode ser considerado eterno “até que a morte os separe”. Não há mais espaço para grandes ódios. Conseqüentemente idéias ou tramas de assassinato já não têm mais razão de ser.
Uma reputação nem recente nem ocidental
Essa má reputação das “SOGRAS” não é nem recente nem ocidental. “Duas mulheres e um homem não podem viver sob o mesmo teto…” já diz a sabedoria popular. Um ditado do interior da França vai ainda mais longe: “Por mais que se cozinhem nora e sogra juntas, elas nunca ficarão no ponto”. Porque é sobretudo a mãe do homem que é considerada a mais difícil de se aturar: a mãe da mulher não está a salvo de críticas, mas as brincadeiras em relação a ela são mais leves. Como mãe de quatro filhos, há muito tempo notei essa diferença entre os dois ramos da árvore genealógica. No decorrer de minha pesquisa, fiquei cem por cento convencida de que não se tratava de um delírio de perseguição pessoal. A maioria de minhas entrevistadas não hesitou um segundo em evocar suas dificuldades com os casais formados por seus filhos. Como mães, elas se queixaram mais de suas filhas, raramente de seus filhos. Já como sogras, elas sistematicamente acentuavam as divergências com suas noras, mas raramente se queixaram de seus genros. Em se tratando de desentendimento conjugal, elas até encontravam desculpas para os maridos de suas filhas, atribuindo na maioria dos casos as desavenças ao gênio difícil ou caprichoso dessas últimas.
Em todas as civilizações asiáticas ou orientais e nos países de religião muçulmana a mãe do marido é vista como fonte de angústia e de ódio. Compreende-se facilmente de onde vem essa imagem negativa. Na China e na Índia, o filho leva sua mulher para a casa de sua família e dá à sua mãe pleno poder sobre ela. A matriarca, por sua vez, desconta em suas noras o que sofreu sob o jugo da sogra.
Em seu livro Mâ, a Índia ao feminino, Liliane Jenkins faz a seguinte observação sobre o papel das mulheres “velhas” nas casas de seus filhos:
A tradição exigia que uma mulher tivesse a terça parte da idade de seu marido. A Índia sempre teve um grande contingente de avós. Como nos últimos tempos os casamentos têm se realizado mais tarde, as casas estão sempre cheias delas, uma vez que os avós, em geral, já morreram…
Essas constatações feitas na Índia estão de acordo com nossa própria situação demográfica. Na Europa, também, o hábito de o homem escolher uma esposa bem mais jovem que ele perdurou até a primeira metade do século passado. As candidatas a uma vida de dona-de-casa viam nisso muitas vantagens: mais valia fundar uma família com um senhor profissionalmente bem estabelecido do que lutar ao lado de um eterno estudante. Como os homens têm o péssimo hábito de morrer, em média, sete anos mais cedo do que as mulheres, além de ter uma propensão natural de sair de casa à cata de aventuras, podemos ver em todas as nações ocidentais um nítido excedente de avós/sogras, viúvas ou divorciadas. Veremos mais adiante que a posição dessas mulheres junto ao casal formado por seus filhos é muito complexa, se comparada àquela de um casal de avós.



