Abha Dawesar fala sobre sexualidade e homossexualidade na sociedade indiana (Diário de Notícias, 3/4/2007)

Entrevista ao jornal português Diário de Notícias 3/4/2007

“Na India é muito difícil viver como homossexual???

por Isabel Lucas

Em 2005, foi considerada umas das 12 indianas mais notáveis pela revista Femina. No mesmo ano, a nova-iorquina Time Out nomeava-a uma das pessoas cuja marca iria ficar. Abha Dawesar é, ao terceiro romance, um dos nomes mais respeitados da actual geração de escritores indianos. Esteve em Lisboa para promover Babyji – segundo romance e estreia literária em Portugal -, depois de ter ficado sem voz em consequência das entrevistas que deu no Salão do Livro de Paris.

Um dos argumentos usados para situar quem não a conhece enquanto autora é comparar a sua escrita à de Philip Roth, no estilo com que fala, por exemplo, de sexo. Concorda com a comparação?

Sinto-me lisonjeada.

É leitora da obra dele?

Sim. Li tudo o que ele escreveu. Li metade de Everyman e só vou acabar de o ler quando sair o próximo. Senão, não me resta mais nada para ler… (risos)

Escrever sobre sexo é uma gestão difícil; segurar o texto sem passar a fronteira do mau gosto?

Deixo sempre que seja a voz da personagem principal a decidir por mim. Neste livro, falo como uma rapariga de 16 anos que está a descobrir a sua sexualidade. O primeiro (Miniplaner) era feito na voz de um homem, branco, gay, de 25 anos, a viver em Nova Iorque. Aí tudo é muito explícito. Cruza todas as linhas. Para mim a decisão é sempre de saber até onde levar o discurso e como o expressar e em que linguagem o fazer.

Neste livro, esse cuidado com a escolha da linguagem em função da personagem está muito presente.

Está a ler uma tradução mas o modo como mudo de uma linguagem para outra é diferente, como o ritmo é diferente. No meu próximo livro a personagem principal tem 75 anos. É um homem e fala de amor e de sexo, mas fala disso de um modo diferente.

Qual é o tema desse livro?

É sobre a escrita e sobre Paris e sobre sexo e amor e vida…

Em Babyji dá um retrato da ??ndia, enquanto narra a descoberta de uma sexualidade que foge aos cânones. Até que ponto a homossexualidade é tabu na ??ndia?

É uma sociedade que tenta manter uma certa tradição; então o que se vê ou o que se mostra ao mundo é muito importante. Mais importante do que o que de facto se faz. A homossexualidade existe, claro, mas na ??ndia viver uma vida assumidamente como homossexual é difícil e tecnicamente é ilegal. Não é uma lei que seja aplicada muitas vezes, mas pode ser. Pode prender-se pessoas por isso.

Como é que um indiano de classe média, por exemplo, pode reagir a este livro que fala de uma relação entre mulheres?

O que surpreende é falar abertamente destas coisas. Algumas partes da história surpreendem. Ela não é uma rapariga normal. Não é a rapariga indiana comum. Mas acho que muitos indianos de uma determinada classe, da classe média, já teve algum tipo de experiência ou iniciação sexual com alguém que trabalha para eles, ou com alguém da família. Isto é frequente. Ninguém fala disso, mas isso passa-se.

No caso, a descoberta dá-se através da homossexualidade, a homossexualidade feminina, cada vez mais presente na chamada literatura ocidental… É uma moda?

Em geral não se fala da sexualidade feminina e em qualquer sociedade tradicional fala-se muito pouco da sexualidade de alguém que é uma adolescente. O grande passo aqui nem é sequer o de ela estar a dormir com outras mulheres, mas de se falar dela estar a ter relações sexuais.

Ela está a descobrir o sexo…

Sim. Este é um livro sobre a descoberta sexual e também uma descoberta romântica. É uma idade em que tudo acontece; acontecem alterações no corpo e isso reflecte-se não só neste aspecto da vida dela. Muitas vezes ela sente-se como uma criança, outras comporta-se como adulta. Isto é o que significa ser adolescente em qualquer país ou sociedade…

A sensação que fica é que a homossexualidade surge um pouco para provocar os pais. Ela tem esse perfil…

Ela é rebelde. Surpreende-se e desafia-se a ela própria com as suas acções, as suas relações. Mas acho que ela gosta, de facto, de mulheres. Já não se pode dizer o mesmo da sua amiga Sheela, que está disposta a experimentar com ela, mas talvez goste de rapazes também. Elas estão as duas a descobrir as mesmas coisas mas com uma abordagem diferente. Babyji está sempre entre mulheres, as suas amantes, a sua mãe… O que é para uma mulher estar num casal? Ela não gosta do facto de uma rapariga ter de aceitar um casamento combinado e passar a vida a preparar comida e a lavar pratos para os maridos. Quer ter formação e um futuro diferente do que tiveram aquelas mulheres.

Aspiração de uma geração.

Sim. Na geração das suas mães há mulheres a trabalhar mas ainda são os pais a decidir. Ela quer ser diferente. Questiona isso. O poder que uma mulher deve ter na sua vida. Ela é rebelde e teimosa. Por exemplo, em certos estados, a primeira pessoa a ser tida em conta para casar com uma rapariga era o irmão da sua mãe, se não fosse ainda casado. Noutra parte da ??ndia, se o marido de uma mulher morria, o irmão mais próximo, se não fosse casado, seria o marido. Muitos destes costumes destinavam-se a manter o dinheiro na família.

Com a ocidentalização será cada vez mais difícil manter essas tradições?

Vão desaparecer não apenas por causa da ocidentalização, mas porque as razões que estiveram na sua origem vão desaparecer também.

Tais como?

A economia está a mudar. Vivia-se numa economia baseada na herança. As alterações económicas vão determinar as alterações sociais e a organização da sociedade, o que não é o mesmo que ocidentalizar


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