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Nascimento de um mito

Baseado nas anotações do jovem Guevara, livro é reeditado no Brasil pela Sá Editora, narrando a viagem que modificou a vida do futuro revolucionário

Difícil imaginar que Ernesto Guevara de la Serna se transformaria num mito mundial, que hoje estampa camisetas e botons da juventude globalizada, se não tivesse cortado a América do Sul numa aventura ao lado do amigo Alberto Granado, em 1952. Aos 23 anos, o estudante de medicina não tinha postura política definida, mas se incomodava com seu cotidiano em Córdoba — Argentina. Era uma rapaz inquieto, mas moldado a uma rotina padrão, que incluía o namoro sério com uma garota de uma família tradicional.

O sangue aventureiro o fez tirar da garagem a La Poderosa 2, uma moto Norton 500 de Granado. Ele e o amigo Alberto Granado (hoje um médico de destaque em Cuba) saíram em busca de diversão e liberdade. Na rota, queriam encontrar belas mulheres e conhecer lugares como Cuzco e Machu Picchu (Peru). A aventura, no entanto, foi além do entretenimento. Os dois rapazes ficaram diante da miséria e da falta de oportunidades dos povos latinos, massacrados por ditaduras e pela herança predatória dos colonizadores.

Os detalhes da saga estão registrados no livro De Moto pela América do Sul, que chega às livrarias brasileiras numa reedição da Sá Editora, autorizada pela casa italiana Feltrinelli, que detém os direitos do texto. Baseada nas anotações do diário de Che (a partícula che significa camarada na Argentina e foi incorporada ao seu nome durante a viagem), a obra já tinha sido lançada no país, em 1994, com o título Primeiras Viagens. Granado também publicou a sua versão da viagem que se chama El Che por Sudamerica, ainda não editada no Brasil.

O livro, que vai virar filme dirigido por Walter Salles, traz passagens curiosas, como a entrada involuntária no Brasil, pelas águas do rio Amazonas, a bordo de uma embarcação precária, na fase final da viagem. Foram seis meses cruzando Argentina, Chile, Peru, Colômbia e Venezuela. Partiram de moto, mas a La Poderosa 2 ficou no meio do caminho, pegaram carona, entraram na selva. A aventura funcionou como um laboratório, servindo para despertar o grande guerrilheiro que teve participação crucial na Revolução Cubana e foi morto, em 1967, tentando libertar a América.

Trilha dos conquistados

Com fome, frio, sede e exposto a intempéries em um fim de mundo sul-americano, o jovem Ernesto Che Guevara se faz a pergunta que deve ter se repetido muitas vezes ao longo de sua curta, mas intensa vida: ‘‘Será que isso tudo vale a pena?’’. Não há política no primeiro diário de viagem escrito por Che, mas já se vê aí sua vocação para ‘‘herói’’. Como diz o pai dele, Ernesto Guevara Lynch, no prólogo, o filho e seu amigo Granado refazem a rota dos conquistadores, ‘‘mas com um propósito bem diferente’’. Os dois amigos seguem, na verdade, a trilha dos conquistados.

É só na simpatia e solidariedade pelos índios e no desprezo pela classe média arrogante, no entanto, que o diário sinaliza para o homem que desabrocharia nos anos seguintes. No mais, é apenas um diário, algumas vezes divertido, noutras angustiante, de dois mochileiros destemidos. Guevara e Granado viveram quase um ano com as roupas em farrapos e mendigando comida em toda parte. Che sofreria ainda com os ataques da asma que o acompanharia até o final.

O socialismo dentro dele, se há, está embrionário. No resto do livro, ao contrário, é um Che ‘‘humano que aparece, capaz de passagens cômicas, como quando alivia a dor de barriga em uma janela. Um rapaz como outro qualquer, gozador, não muito trabalhador (até preguiçoso) e bom goleiro, além de insuspeitado crítico cinematográfico: odiou Stromboli (1949), de Rossellini, que viu no Peru.
Apesar de os dois amigos partirem de Buenos Aires sonhando também em encontrar belas mulheres, a presença delas é mínima. Certos trechos, porém, não deixam de exalar sensualidade. Apenas um problema, porém: a opção pela tradução a partir das edições inglesa e italiana mostra-se equivocada ao ponto de deixar confusos parágrafos inteiros e leva a pelo menos um erro grave: yuca (mandioca) é traduzido como iúca (flor), o que faz supor ser esta a base da alimentação dos índios.


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DE MOTO PELA AMÉRICA DO SUL
Ernesto Che Guevara
192 páginas
R$ 29,90
ISBN: 85-88193-06-X

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