>> Selvagem da motocicleta
Diário narra aventuras do jovem Che Guevara que, nos anos 50, cruzou fronteiras de cinco países para chegar aos Estados Unidos
ISABEL TRAVANCAS

Ele nasceu no dia 14 de junho de 1928, em Rosário, na Argentina e morreu em 8 de outubro de 1967, perto da vila de Vallegrande, na Bolívia. Os seus quase 40 anos foram suficientes para transformar este ''eterno jovem'' em mito. Che Guevara é hoje um dos mitos do século que terminou. Seu rosto e seu sorriso continuam sendo reproduzidos em cartazes, camisetas e plásticos pelo quatro cantos do mundo, ainda que a globalização afirme que ''o sonho acabou'' e que não há mais espaço para utopias. Che Guevara, mais do que um símbolo do socialismo, tornou-se um herói da juventude.

Neste sentido, o livro De moto pela América do Sul, um diário da viagem que o jovem Che, então estudante de medicina com 23 anos, empreende com seu amigo Alberto Granado, médico especializado em leprologia, traz para o leitor brasileiro a intimidade dos sonhos e pensamentos do jovem argentino. O relato, organizado a posteriori pelo próprio autor, traz a marca do seu olhar extremamente humano para as pessoas, as paisagens e a história deste continente. Para Che Guevara, esta viagem não foi apenas uma ''aventura'' juvenil. ''Esse vagar sem rumo pelos caminhos de nossa Maiúscula América me transformou mais do que me dei conta''.

Ao longo de todo o diário, notam-se indícios das metas futuras do guerrilheiro como justiça social, liberdade, condições humanas de trabalho, saúde e educação para as populações miseráveis da América Latina. Entretanto, em nenhum momento o livro perde a ternura. Há um olhar extremamente preocupado, angustiado mesmo com as perspectivas destes países tão sofredores, submetidos ao poder econômico e político dos Estados Unidos.

Poderosa - A viagem de Che e Granado em ''La poderosa 2, (motocicleta Norton 500 que transporta os dois durante boa parte do trajeto) começa em Córdoba, Argentina, em dezembro de 1951. Durante 8 meses de muitas emoções e grandes dificuldades, eles atravessam cinco países, chegando Che a Miami em julho do mesmo ano. Se La poderosa foi o ''tapete mágico'' que os levou a desbravar o continente, ela foi também fonte de inúmeros percalços como as peças quebradas constantemente e os acidentes - alguns tragicômicos - descritos no diário. Até que os dois jovens desistem da empreitada sobre duas rodas e tornam-se andarilhos e caroneiros, numa viagem de poucos recursos e muito desprendimento.

Na primeira parte do percurso há sempre um amigo, um parente ou um conhecido para recebê-los e lhes dar um prato de comida. A medida que a distância da Argentina aumenta, precisam cada vez mais contar com a sorte e com os amigos que fazem no caminho. E não foram poucos. São quase pitorescas as descrições dos lugares onde conseguem dormir, em situações de muito desconforto e frio.

Por outro lado, Che não ameniza o sofrimento diante de necessidades básicas como alimento, bebida e sono. E percebe, cruzando as fronteiras da América, como a solidariedade é muito maior do que podia imaginar, particularmente no Chile, que ele descreve como a ''hospitaleira terra chilena''.

Percepção - Creio que o mais extraordinário deste diário de viage0m é apresentar um jovem igual a tantos outros de sua geração e ao mesmo tempo singular. Esta viagem poderia ter sido empreendida por qualquer outro jovem aventureiro curioso em conhecer a América. Che e seu amigo Granado não estão atraídos apenas pelas estradas poeirentas e grandes dificuldades. Eles também querem se divertir, conhecer pessoas e lugares turísticos. Mas a percepção do futuro guerrilheiro é distinta. Ele não se encanta apenas com a catedral de Cuzco, o Museu Arqueológico e Antropológico de Lima ou a ''expressão pura da mais poderosa raça indígena das Américas '' como se refere a Machu Pichu.

Che Guevara e o médico Alberto Granado têm também um projeto social nesta viagem: conhecer os médicos e os hospitais públicos dos países que visitam, particularmente os que atendem os leprosos. Certamente este não seria um ponto turístico numa excursão de outros jovens. Eles querem saber mais sobre a medicina local e fazem comparações com a saúde pública argentina. Permanecem em alguns hospitais como ''hóspedes'', o que dá aos dois forasteiros um outro status e um outro colorido à viagem. Como quando Che descreve a despedida do hospital de Lima.

''Ainda que tenha sido muito simples, uma das coisas que mais nos emocionaram em Lima foi o presente de despedida que recebemos dos pacientes do hospital. Eles arrecadaram 100 soles, que nos presentearam junto com uma carta muito grandiloqüente. Depois de um discurso, muitos deles virem falar pessoalmente conosco, e alguns tinham lágrimas nos olhos ao nos agradecer por ter vindo, por ter passado tempo com eles, aceitado seus presentes, sentado para ouvir futebol no rádio com eles.''

De moto pela América do Sul é uma bem cuidada edição da novata Sá Editora, que traz cartas, um resumo biográfico de Che, fotos e o mapa da viagem. Ela não acrescenta fatos novos que a minuciosa biografia de John Lee Anderson, Che Guevara, uma biografia (Objetiva) já não tenha dado, nem procura enfatizar o herói político, como é o caso da obra Che na lembrança de Fidel (Casa Jorge). Mas contribui e muito para apresentar um retrato bem humano de Che Guevara. Humano. Demasiado humano.

*Isabel Travancas é jornalista, antropóloga e doutora em Literatura Comparada


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DE MOTO PELA AMÉRICA DO SUL
Ernesto Che Guevara
192 páginas
R$ 29,90
ISBN: 85-88193-06-X

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