>> Che na estrada
GUSTAVO WEBER
29/08/2001 - http://babel.no.com.br
Em janeiro de 1952, dois jovens beatniks zarpam em uma velha
motocicleta para explorar o continente. Sim, a América.
Mas a América do Sul. A jornada duraria vários
meses e milhares de quilômetros, de Córdoba,
Argentina, até Caracas, Venezuela. No caminho haveria
desastres e descobertas, drama, comédia, brigas, festas
e muito vinho. Iriam cruzar com as figuras mais diversas:
de mineiros explorados ao norte do Chile a leprosos no interior
da floresta amazônica. Durante a odisséia, seriam
vagabundos, médicos, bombeiros, clandestinos e até
técnicos de futebol. Amariam putas e participariam
de greves e excursões turísticas.
Não, essa não é mais uma viagem “On
the Road” de Jack Kerouac, apesar de ele ter feito seus
périplos pela América (do Norte!) no mesmo período.
É a história de outro viajante “sem destino”,
um argentino que esperava encontrar seu norte durante a odisséia.
Como Kerouac, era bonito, carismático – embora
um pouco tímido –, de classe média, universitário
e com uma sede insaciável de viver novas experiências.
Diferente do escritor norte-americano, porém, não
se conformava com todas as injustiças e misérias
do mundo que encontrava. Queria fazer algo para mudá-las,
apenas não sabia o quê. Seu nome era Ernesto
Guevara de la Serna. Anos mais tarde, em outra viagem, semelhante
a esta, encontraria seu norte e o nome pelo qual seria chamado
pelo resto da vida: Che.
“De moto pela América do Sul – Diário
de Viagem” (Sá Editora, 192 págs.) é
o envolvente diário de bordo de Ernesto Guevara aos
23 anos através de seu querido continente sul-americano.
Acompanhado pelo amigo Alberto Granado, 30 anos, bioquímico,
o jovem Guevarava vai seguindo o rumo inverso dos conquistadores
espanhóis, subindo os Andes de Bariloche à Machu
Pichu, enveredando-se ora por portos do Oceano Pacífico,
ora pelas cidades incrustadas na selva amazônica.
O livro começa como um típico relato de mochileiro,
com os dois beatniks iniciando a odisséia motorizados,
em cima de uma velha motocicleta, “La Poderosa”,
em vez de sair pedindo carona. O diário é dividido
em curtíssimos capítulos e a narrativa é
leve, como uma conversa entre amigos, um pouco semelhante
à espontaneidade de Kerouac. Mas, ao mesmo tempo que
nos insere no dia-a-dia pé na estrada, o autor vai
nos brindando aqui e ali com maravilhosas descrições
dos lugares por onde passa.
No quesito on the road, é uma jornada completa. Muitas
bebedeiras e busca incessante por comida e um teto para dormir.
Além disso, todos os tipos de transporte imagináveis
são usados. Rodam de motocicleta de Buenos Aires até
o Chile; pedem carona em caminhões e se escondem em
navios para chegar em Lima; descem em balsas até San
Pablo, na Amazônia peruana; voam em aviões de
carga no meio de bananas até Caracas; e flutuam em
uma jangada à deriva pelo Solimões. Mais aventura
impossível.
Mas o relato não se resume a aventuras tresloucadas.
No livro há exemplos claros da indignação
de Ernesto sobre a situação dos miseráveis
nos vários países que atravessam. Mas está
longe de ser o diário de um militante. Em vez disso,
o livro é um relato inesquecível de um estudante
de medicina de 23 anos, de mente aguçada e inquieta.
Além disso, é fascinante o modo como Guevara
se projeta como um “aventureiro romântico”,
de alguma forma ligando o jovem estudante de medicina ao futuro
ícone, Che, que, em 1964, criticaria severamente a
burocracia do governo revolucionário cubano e partiria
para iniciar novos Vietnãs pelo mundo.
Uma das partes do livro em que se nota a indignação
do jovem Guevara é a visita dos dois viajantes à
mina de cobre de Chuquicamata no meio do deserto chileno.
A meio caminho da mina, Alberto e Ernesto encontram um casal
de mineiros. O homem revela que tinha estado preso por fazer
greve e porque era membro do Partido Comunista Chileno e,
como tinha o nome marcado, não conseguia mais emprego.
Ernesto escreve longamente sobe o encontro. Para ele, ali
estavam exemplos de vítimas da exploração
capitalista. No dia seguinte, a visita dos dois à mina
de cobre torna-se uma experiência política. Com
desprezo, Ernesto descreve o administrador norte-americano
que o recebeu na mina como “louro, eficiente e arrogante”.
O autor dedica mais um capítulo especialmente para
descrever a mina, seu processo de produção e
sua importância política para o Chile. A chama
interna do futuro Che começa a arder.
Outros relatos, como a descrição da cidade
de Cuzco e das ruínas de Machu Pichu, surpreendem pelo
detalhamento. O jovem Guevara demonstra toda sua bagagem cultural
e nos descreve a geografia dos lugares, os aspectos econômicos
e sociais, a história dos povos. O autor evita maiores
pretensões literárias ou estilos rebuscados,
o que deixa a leitura simples e clara, sem nunca ficar cansativa.
Ao contrário, temos vontade de pegar um bom mapa da
América do Sul e ir marcando cada canto descoberto
por Ernesto e seu amigo.
O livro funciona como combustível para nossos próprios
desejos de aventura. Impossível ler o diário
e não querer estar com a dupla de desbravadores em
cima de La Poderosa ou pedindo carona e conversando com todo
o tipo de gente, jogando futebol em cada beira de estrada,
procurando comida e cama de graça. O relato vai nos
dando cada vez mais vontade de viajar pelo mundo, viver diferentes
lugares e indignar-se romanticamente tanto quanto Ernesto
frente às veias abertas de sua América.
Apesar de contagiante e comovente, o livro tem um pequeno
problema. A falta de apoio para contextualizá-lo na
vida de Che. Não há nenhuma ajuda para que o
leitor entenda alguns fatos ocorridos durante a viagem, ou
para entender o momento beatnik de seu autor. Aquela, por
exemplo, não era sua primeira viagem “sem destino”
– em janeiro de 1950, havia partido numa bicicleta motorizada
para o interior da Argentina. Além disso, fala pouco
em seu diário de seu namoro, parte importante de sua
vida naquele momento – sua namorada, Chichina, era filha
de uma das famílias mais ricas e antigas de Córdoba.
Uma pessoa que marcou a vida de Ernesto e certamente contribuiu
para o nascimento de Che também é pouco explorada
no diário: o Dr. Hugo Pesce, diretor dos centros de
tratamento de lepra que estavam visitando. Pesce era membro
do Partido Comunista Peruano e discípulo de um filósofo
marxista peruano que defendia o potencial revolucionário
dos índios e camponeses na América Latina. Hugo
Pesce foi o primeiro médico que Ernesto conheceu dedicando
conscientemente sua vida ao “bem comum”. As crenças
e o exemplo pessoal do médico proporcionaram o primeiro
modelo que Ernesto encontrou para si próprio.
Guevara escreveu o diário ao voltar à Argentina,
a partir de notas tomadas ao longo da viagem. Mas avisa logo
no início da narrativa: “A pessoa que está
agora reorganizando e polindo essas mesmas notas, eu, não
sou mais eu, pelo menos não sou o mesmo que era antes.
Esse vagar sem rumo pelos caminhos de nossa Maiúscula
América me transformou mais do que me dei conta”.
O inconformismo para com o estado dos povos da América
do Sul, dos indígenas miseráveis, dos pobres
e doentes, havia mudado radicalmente aquele jovem. Mas ainda
não sabia o que fazer com tanta raiva e indignação.
Ainda precisaria de mais uma viagem, essa por sua vez sem
retorno à Argentina, para descobrir-se Che, o revolucionário.
Mas, bem, esta é outra história.
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