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De Moto pela
América do Sul Se ainda pairavam dúvidas sobre a bravura do guerrilheiro argentino, elas caem por terra diante deste memorável diário de viagem. Imagine que antes mesmo de concluir a faculdade de medicina, o rapaz se atracou à garupa de uma precária motocicleta e, alternando o guidom com o colega Alberto Granado, foi de Buenos Aires a Caracas em oito meses (dezembro de 1951 a julho de 1952).
Diário
de Che Baseado nas anotações
do jovem Guevara, livro é reeditado no Brasil pela Sá
Editora, narrando a viagem que modificou a vida do futuro revolucionário Difícil imaginar
que Ernesto Guevara de la Serna se transformaria num mito mundial, que
hoje estampa camisetas e botons da juventude globalizada, se não
tivesse cortado a América do Sul numa aventura ao lado do amigo
Alberto Granado, em 1952. Aos 23 anos, o estudante de medicina não
tinha postura política definida, mas se incomodava com seu cotidiano
em Córdoba Argentina. Era uma rapaz inquieto, mas moldado
a uma rotina padrão, que incluía o namoro sério
com uma garota de uma família tradicional. Trilha dos conquistados
Saga na telona
Selvagem da motocicleta
ISABEL TRAVANCAS
Neste sentido, o livro De moto pela América do Sul, um diário da viagem que o jovem Che, então estudante de medicina com 23 anos, empreende com seu amigo Alberto Granado, médico especializado em leprologia, traz para o leitor brasileiro a intimidade dos sonhos e pensamentos do jovem argentino. O relato, organizado a posteriori pelo próprio autor, traz a marca do seu olhar extremamente humano para as pessoas, as paisagens e a história deste continente. Para Che Guevara, esta viagem não foi apenas uma ''aventura'' juvenil. ''Esse vagar sem rumo pelos caminhos de nossa Maiúscula América me transformou mais do que me dei conta''. Ao longo de todo o diário, notam-se indícios das metas futuras do guerrilheiro como justiça social, liberdade, condições humanas de trabalho, saúde e educação para as populações miseráveis da América Latina. Entretanto, em nenhum momento o livro perde a ternura. Há um olhar extremamente preocupado, angustiado mesmo com as perspectivas destes países tão sofredores, submetidos ao poder econômico e político dos Estados Unidos. Poderosa - A viagem de Che e Granado em ''La poderosa 2, (motocicleta Norton 500 que transporta os dois durante boa parte do trajeto) começa em Córdoba, Argentina, em dezembro de 1951. Durante 8 meses de muitas emoções e grandes dificuldades, eles atravessam cinco países, chegando Che a Miami em julho do mesmo ano. Se La poderosa foi o ''tapete mágico'' que os levou a desbravar o continente, ela foi também fonte de inúmeros percalços como as peças quebradas constantemente e os acidentes - alguns tragicômicos - descritos no diário. Até que os dois jovens desistem da empreitada sobre duas rodas e tornam-se andarilhos e caroneiros, numa viagem de poucos recursos e muito desprendimento. Na primeira parte do percurso há sempre um amigo, um parente ou um conhecido para recebê-los e lhes dar um prato de comida. A medida que a distância da Argentina aumenta, precisam cada vez mais contar com a sorte e com os amigos que fazem no caminho. E não foram poucos. São quase pitorescas as descrições dos lugares onde conseguem dormir, em situações de muito desconforto e frio. Por outro lado, Che não ameniza o sofrimento diante de necessidades básicas como alimento, bebida e sono. E percebe, cruzando as fronteiras da América, como a solidariedade é muito maior do que podia imaginar, particularmente no Chile, que ele descreve como a ''hospitaleira terra chilena''. Percepção - Creio que o mais extraordinário deste diário de viage0m é apresentar um jovem igual a tantos outros de sua geração e ao mesmo tempo singular. Esta viagem poderia ter sido empreendida por qualquer outro jovem aventureiro curioso em conhecer a América. Che e seu amigo Granado não estão atraídos apenas pelas estradas poeirentas e grandes dificuldades. Eles também querem se divertir, conhecer pessoas e lugares turísticos. Mas a percepção do futuro guerrilheiro é distinta. Ele não se encanta apenas com a catedral de Cuzco, o Museu Arqueológico e Antropológico de Lima ou a ''expressão pura da mais poderosa raça indígena das Américas '' como se refere a Machu Pichu. Che Guevara e o médico Alberto Granado têm também um projeto social nesta viagem: conhecer os médicos e os hospitais públicos dos países que visitam, particularmente os que atendem os leprosos. Certamente este não seria um ponto turístico numa excursão de outros jovens. Eles querem saber mais sobre a medicina local e fazem comparações com a saúde pública argentina. Permanecem em alguns hospitais como ''hóspedes'', o que dá aos dois forasteiros um outro status e um outro colorido à viagem. Como quando Che descreve a despedida do hospital de Lima. ''Ainda que tenha sido muito simples, uma das coisas que mais nos emocionaram em Lima foi o presente de despedida que recebemos dos pacientes do hospital. Eles arrecadaram 100 soles, que nos presentearam junto com uma carta muito grandiloqüente. Depois de um discurso, muitos deles virem falar pessoalmente conosco, e alguns tinham lágrimas nos olhos ao nos agradecer por ter vindo, por ter passado tempo com eles, aceitado seus presentes, sentado para ouvir futebol no rádio com eles.'' De moto pela América do Sul é uma bem cuidada edição da novata Sá Editora, que traz cartas, um resumo biográfico de Che, fotos e o mapa da viagem. Ela não acrescenta fatos novos que a minuciosa biografia de John Lee Anderson, Che Guevara, uma biografia (Objetiva) já não tenha dado, nem procura enfatizar o herói político, como é o caso da obra Che na lembrança de Fidel (Casa Jorge). Mas contribui e muito para apresentar um retrato bem humano de Che Guevara. Humano. Demasiado humano. *Isabel Travancas é jornalista, antropóloga e doutora em Literatura Comparada
Cannes Divulgação
O anúncio oficial de García Bernal e do restante do elenco será feito durante a 55ª edição do Festival de Cannes, que começa no dia 15 de maio. Junto com Sharon Stone, Claude Miller e Raoul Ruíz, Walter Salles integra o júri oficial, a ser presidido por David Lynch. Ao antecipar para o Correio o nome do ator escolhido para interpretar Ernesto Che Guevara no próximo longa-metragem, Walter Salles detalhou as razões que o levaram a preterir outros convites, como The Assumption of A Virgin (com Juliette Binoche), e se decidir pela recriação das aventuras do jovem que se tornaria um dos líderes da revolução cubana. É um claro retorno à questão do desvendamento de territórios ainda desconhecidos, afirma o diretor de Central do Brasil e Abril Despedaçado, que estréia no Brasil no dia 1º de maio. Salles acaba de voltar de viagem pela América do Sul para definição das locações do novo longa. O início das filmagens está previsto para setembro e a equipe comandada pelo diretor brasileiro seguirá o mesmo roteiro traçado por Che e o amigo, Alberto Granado: Argentina, Chile, Peru e Venezuela. Viagem iniciática
Eles (Guevara e Granado) partiram de Buenos Aires, uma cidade monocromática, do ponto de vista tanto de cores como das pessoas. No trajeto, descobriram não só as diferenças, mas tiveram contato com desigualdades sociais, muito claramente expressas nos lugares pelos quais eles passaram, detalha o cineasta. As histórias
da viagem estão documentadas no livro De Moto Pela América
do Sul, lançado no Brasil pela Sá Editora,
com dois mil exemplares vendidos até agora. É
um relato humanista com um humor típico da juventude, um encontro
de Easy Rider com O Capital, define Walter Salles. (Carlos
Marcelo)
Vaguinaldo Marinheiro 05/08/2001 Nesta época de retomada das manifestações de rua e da morte de um jovem antiglobalização pela polícia, vale a pena acompanhar o nascimento de um revolucionário à moda antiga, do tipo bem mais focado. É isso o que permite o livro "De Moto Pela América do Sul, Ernesto Che Guevara, Diário de Viagem", recém-lançado pela Sá Editora. O livro traz os relatos de viagem do próprio Che, numa jornada que fez com o amigo Alberto Granado pela América do Sul em 1952. Ele era apenas um jovem estudante de medicina, de 23 anos, entediado com a vida classe-média argentina, que queria partir em busca de aventuras. Mas, em meio a relatos de fugas de maridos ciumentos, tombos de moto, jogos de futebol ou ataques de asma, já é possível perceber elementos que o transformariam no revolucionário que se uniu a Fidel Castro no México para depois seguir para Cuba, tomar Havana e construir um dos últimos governos comunistas ainda de pé. Nesses momentos aparece um Che antiglobalizante (apesar de o termo nem ser usado naquela época), anticapitalista e desejoso de uma América do Sul unida. E, passados quase 50 anos, seus comentários parecem ainda fazer muito sentido. A formação do "camarada" Che fica clara logo na primeira metade do livro, quando por exemplo ele critica duramente um início de globalização ao lamentar as condições insalubres de trabalhadores explorados pelas companhias norte-americanas nas minas de cobre do Chile. E fica ainda mais explicito quando ele conta a visita que fez a uma senhora asmática e com o coração fraco no mesmo Chile. Aí seu diário assume tons de discurso: "É em casos como esses, quando um médico percebe que não pode fazer nada, que ele deseja a mudança; uma mudança que impedisse a injustiça de um sistema no qual até um mês atrás essa pobre mulher tinha de ganhar seu sustento trabalhando como uma garçonete, respirando com dificuldade, ofegando, mas encarando a vida com dignidade. Nestas circunstâncias, as pessoas de famílias pobres que não podem se sustentar são rodeadas por uma atmosfera de aspereza mal disfarçada; deixam de ser pais, mães, irmã ou irmão, para tornar-se apenas um fator negativo na luta pela sobrevivência e, por extensão, fonte de amarguras para os membros sadios da comunidade, que se ressentem de sua doença como se fosse um insulto pessoal contra aqueles que têm de apoiá-los. É aí, no final, para as pessoas cujos horizontes nunca ultrapassam o dia de amanhã, que nós percebemos a profunda tragédia que circunscreve a vida do proletariado em todo o mundo. Nesses olhos moribundos existe um humilde apelo por perdão e também, muitas vezes, um pedido desesperado de consolação que se perde no vácuo, da mesma maneira como seu corpo desaparecerá logo em meio ao vasto mistério que o cerca. Quanto tempo mais essa ordem atual, baseada na idéia absurda de classes sociais, vai durar eu não sei, mas é chegada a hora em que o governo gaste menos tempo propagandeando suas próprias virtudes e comece a gastar mais dinheiro, muito mais dinheiro, financiando projetos úteis para a sociedade." Não parece um panfleto de um partido de esquerda de hoje? Por fim, ao comemorar seu aniversário de 24 anos, em junho de 1952, faz um discurso para médicos e doentes de uma colônia de leprosos no Peru conclamando o pan-americanismo: "Nós acreditamos (...) que a divisão da América em nações instáveis e ilusórias é uma completa ficção. Somos uma raça mestiça com incontáveis similaridades etnográficas, desde o México até o Estreito de Magalhães." A atualidade dos comentários de Che Guevara suscita uma pergunta: o que estaria fazendo esse argentino egresso da classe média alta hoje se não tivesse sido morto em 1967? Estaria rivalizando com o francês José Bové para saber quem é a estrela antiglobalizante do planeta? Estaria como seu companheiro de viagem, Granato, como um médico respeitável em Cuba? Ou teria se desiludido com a situação atual de Cuba, rompido com Fidel e se transformado em mais um crítico do comunismo? Nunca saberemos.
Mas o certo é que sua preocupação com as condições
de vida da maioria dos sul-americanos, demostrada neste livro, garante
que ele não entraria nesse oba-oba sem rumo das manifestações
de hoje, quando muitos autoproclamados revolucionários não
têm idéia por que estão lutando. Esses que invadem
lanchonetes ou protestam pela proibição de transgênicos
apenas para aparecer nas TVs. |
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