| >> De volta a Canudos
JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA
Coordernador-geral da Pós-Graduação em
Letras da UERJ
Dois títulos recentes lançados no Uruguai constituem
referência obrigatória para o leitor brasileiro,
sobretudo no ano do centenário de Os sertões,
de Euclides da Cunha.
Em primeiro lugar, destaca-se, a excelente tradução
realizada por Eleonora Basso de A Brazilian mistic, publicado
por Robert B. Cunninghame Graham em 1920. Trata-se de uma
autobiografia de Antonio Conselheiro, centrada no relato da
Guerra de Canudos e diretamente inspirada na obra de Euclides
da Cunha.
Cunninghame Graham, nascido em Londres em 1852, morreu em
Buenos Aires em 1936. Personalidade ímpar, viajante
incansável, concentrou-se em longas estadas na Argentina
e no Uruguai, tendo também visitado o Rio Grande do
Sul. Aí, em 1914, parece ter concebido o projeto de
dar a conhecer ao mundo de língua inglesa os eventos
ocorridos no sertão brasileiro.
A publicação de Un mistico brasileño:
vida y milagros de Antonio Conselheiro (Ediciones de la Banda
Oriental, Montevidéu) é ainda mais importante
porque, salvo engano, não existe uma edição
brasileira do importante livro de Cunninghame Graham. No prólogo,
Pablo Rocca contextualiza o livro e a obra do autor. Estabelece
um interessante paralelo biográfico e crítico
entre Euclides da Cunha e Mario Vargas Llosa. Aliás,
o escritor peruano conduz ao segundo livro.
É o Diário (Ediciones Trilce, Montevidéu),
de Ángel Rama, compreendendo o período de 1974
a 1983, ano de sua morte precoce. Um dos mais importantes
críticos de sua geração, foi autor de
obras fundamentais, como Transculturación narrativa
en América Latina (1982) e La ciudad letrada (1984).
Além disso, concebeu e dirigiu a Biblioteca Ayacucho,
que divulgou um grande número de clássicos brasileiros
em espanhol, já que Rama se esforçou precisamente
para criar vínculos orgânicos entre os intelectuais
latino-americanos.
Por isso mesmo, a leitura de seu Diário é relevante.
Consulte-se, por exemplo, a entrada, de 23 de fevereiro de
1980. Rama encontrava-se em Washington e assiste a uma conferência
de Mario Vargas Llosa no Wilson Center, onde o peruano esteve
por um ano como bolsista, a fim de escrever La guerra del
fin del mundo. Num dado momento, Vargas Llosa afirma que "também
se sentia atraído, na história de Canudos, pela
total incompreensão das partes que falavam duas línguas
sem comunicação". Uma notável percepção
que, infelizmente, ainda hoje permanece válida no tocante
à violência que domina o cotidiano dos centros
urbanos.
Rama também recorda encontros com Antonio Candido,
Walnice Nogueira Galvão, Davi Arriguci Jr., entre outros.
Registre-se a necessidade de aprofundar seu gesto, pois, na
busca de um vínculo maior entre as culturas latino-americanas,
talvez resida a chave para uma releitura da formação
da sociedade brasileira.
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