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AS ANDORINHAS DE CABUL
De Yasmina Khadra

Nestes últimos anos, o Afeganistão esteve bastante presente na mídia, mas, apesar das imagens e das reportagens impressionantes, é difícil ter-se uma idéia exata da vida e da maneira de pensar das mulheres e dos homens afegãos. O livro de Yasmina Khadra permite-nos uma abordagem dessa realidade graças a uma incursão na vida de dois casais de meios sociais diferentes, cujos caminhos se cruzam inopinadamente: um de intelectuais e o outro de um carcereiro e sua mulher doente. Com muita sensibilidade, o autor aproxima-nos desses seres perturbados pelos anos de guerra e o regime dos talebans, seres de quem roubam a vida, os sonhos e sobretudo a esperança.

O desespero deles situa-se no centro dessa cidade de Cabul em ruínas na qual sobrevivem temendo o dia de amanhã, os outros e a si mesmos. Mohsen confessa a sua mulher: “E hoje de manhã, Zunaira, simplesmente porque a multidão gritava, gritei junto com ela, simplesmente porque pediu sangue, eu também o exigi. Depois disso, não paro de olhar minhas mãos que não mais reconheço. Caminhei pelas ruas para semear minha sombra, para distanciar meu gesto e, a cada esquina, no desvio de qualquer monte de entulho, encontrei-me face a face com esse momento de desvario. Estou com medo de mim mesmo, Zunaira, não confio mais no homem que me tornei.”

Numa linguagem límpida e precisa, Yasmina Khadra traça um quadro muito negro dessa realidade de violência, de execuções públicas, de apedrejamentos, de suspeitas, de desprezo pela mulher; trememos ao nos perguntarmos como pode um regime chegar a anular seu próprio povo, retirando dele toda oportunidade de vida digna. Pois é finalmente esse único estado de dignidade que cada uma das quatro pessoas almejam como um último refúgio, antes de almejar a morte ou anular-se na loucura.

É um magnífico romance de uma terrível atualidade, que nos deixa estupefatos diante de tanto terror.
 
Françoise Summermatter Wunn