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"A
Noite dos Desesperados"
....Um grande clássico de volta para os leitores brasileiros...
... Eles dançaram até o limite da condição
humana...
Debate
lançou "Noite dos Desesperados"
Romance de McCoy ganha nova tradução e marca
nascimento da Sá Editora
HAROLDO CERAVOLO SEREZA
Os críticos
Nelson Ascher e Gabriel Prioli e o tradutor Renato Pompeu
participaram do debate Quando o Limite Vira Espetáculo,
na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos (Av. das Nações
Unidas, 4.777, tel. 0--11 3024-3599). O encontro marcou o
relançamento no País de A Noite dos Desesperados
(They Shoot Horses, Don't They?), romance de Horace McCoy.
A obra, publicada pela primeira vez no Brasil nos anos 40,
pela Livraria do Globo, ganha nova tradução.
É a estréia de uma nova editora, a Sá,
empresa de Eliana Sá, ex-editora de livros da Globo.
McCoy,
que publicou o livro nos EUA em 1935, quando os efeitos da
crise de 1929 ainda se faziam sentir, narra uma tragédia
ocorrida durante uma maratona de dança nos Estados
Unidos. Os dois personagens principais, Gloria Beatty e Robert
Syverten, são interioranos que partem para Hollywood
com o desejo de se tornarem artistas, mas não conseguem
chegar nem a figurantes.
Aceitam,
em troca de comida gratuita enquanto a brincadeira dure, participar
de um concurso que lembra muito o programa global No Limite:
vence a maratona e, portanto, fica com os US$ 1 mil de prêmio
o casal que resistir mais tempo, ainda que não dance
melhor. A organização mantém médicos
no local, para "garantir" a integridade física
dos participantes - assim como a Globo deu o máximo
de visibilidade que pôde à nutricionista e à
psicóloga que participaram da equipe de produção
de No Limite.
A maratona
atravessa mais de cinco semanas, marcadas por confusões,
desgaste físico, golpes publicitários e brigas.
O livro começa com o julgamento de Robert Syverten,
que, a pedido da moça, a mata, pondo fim à agonia
em que sua vida se transformara. O romance de Horace McCoy
foi transformado em filme por Sydney Pollack, em 1969, com
Jane Fonda no papel da "existencialista" Gloria,
que não se conformava com o fato de não ter
coragem para se matar. Trechos do filme serão exibidos
no debate de hoje.
O show
da exclusão na "Noite dos Desesperados"
Horace McCoy mostra o terror de um concurso de dança
no auge da depressão americana
Divulgação
A dança se transforma numa tortura em A Noite
dos Desesperados, versão de 1969 para o cinema
do livro de Horace McCoy; Jane Fonda é Gloria Beatty,
e Michael Sarrazin, Robert Syverten
HAROLDO CERAVOLO SEREZA
Por acaso,
eles se encontram. Sem emprego e sem "capacitação
profissional" para entrar no concorrido mercado de figurantes
de Hollywood, Gloria Beatty e Robert Syverten aceitam participar
de um concurso de dança em que o mais importante é
resistir: vence a maratona quem agüentar por mais dias,
não o casal que tem a técnica mais apurada.
Uma espécie de No Limite de antanho, em que o esforço
físico também tinha de ser combinado com uma
resistência psicológica que Gloria não
possuía.
O livro
começa com o julgamento de Robert, acusado de matá-la
- ele não nega o crime, apenas afirma que o fez a pedido
de Gloria, para livrá-la do sofrimento que não
procurava esconder. Essa não é a única
morte do breve romance - uma das mais assíduas espectadoras
da competição também acaba sendo vítima
das circunstâncias.
A trágica
história recriada por Horace McCoy, publicada originalmente
em 1935, tornou-se uma das mais cultuadas representações
da depressão econômica em que os Estados Unidos
e o mundo mergulharam após a crise de 1929. A Noite
dos Desesperados (They Shoot Horses, Don't They?) é
reeditado agora no Brasil. Marca o lançamento de uma
nova editora, a Sá, fundada pela jornalista Eliana
Sá, ex-editora de livros da Globo. Eliana, que deixou
a empresa em meados deste ano, dirigia o setor quando a Globo
lançou as Obras Completas de Jorge Luis Borges e o
livro-reportagem Rota 66, de Caco Barcelos. A obra de McCoy
já havia sido publicada no Brasil em 1945 e 1969, pela
Livraria do Globo. A tradução era de Érico
Veríssimo. Agora, ela é de Renato Pompeu.
A Noite
dos Desesperados é um atento olhar de um escritor (e
roteirista, na época também com problemas de
falta de emprego) sobre uma cruel realidade social. Num estilo
que lembra o do jornalismo (em alguns momentos, utiliza-se
inclusive explicitamente desse gênero narrativo), McCoy
faz um retrato dos símbolos que garantiam que o show
não parasse.
A derrisão
de Gloria é a outra face da felicidade aparente do
concurso e de um mundo que abusa das forças e das necessidades
da juventude. O título em inglês (Eles Matam
Cavalos, Não Matam?) serve tanto para mostrar como
Robert estava embrutecido quanto para mostrar que aquela sociedade
era capaz de conceder mais a uma velha égua acidentada
que a uma jovem mulher entristecida.
"Foi
engraçado o modo como conheci Gloria. Ela, como eu,
também tentava trabalhar no cinema, mas só fiquei
sabendo disso depois", conta Robert, narrador da história.
Os dois são do interior dos Estados Unidos, ele do
Arkansas, ela do Texas. O sonho do cinema acaba por se transformar
no conformismo de comer de graça durante a maratona
de dança, em troca da possibilidade de serem vistos
por um produtor e de US$ 1.000, caso vencessem as dezenas
de outros casais, em mais de um mês de concurso (quando
tudo acaba, após 36 dias de competição,
ainda restavam 20 casais).
A organização
mantém, durante todo o concurso, médicos de
plantão, para impedir problemas mais graves. Mas a
exposição dos participantes vai além
dos riscos de saúde. Para os casais sem patrocínio,
as roupas vão envelhecendo. Os outros são obrigados
a carregar anúncios nas costas.
Empresas
prometem prêmios de umas dezenas de dólares para
os casais que correm mais, pois há também uma
disputa diária, em que os casais têm de dar voltas
no salão juntos - a dupla que chega por último,
desde que não atrapalhe os planos dos organizadores,
é desclassificada. A eliminação do outro
torna-se, portanto, banal, como se fosse também inconseqüente.
O concurso
de dança nos anos 30, assim como No Limite de hoje,
expressa muito bem a realidade que está em seu entorno.
Afinal de contas, a exclusão não é privilégio
dessas criações esdrúxulas. Ocorre que
elas não são apenas "espelhos" da
realidade. Eventos como esses auxiliam a construir ideologia
da exclusão, a torná-la "natural".
O que
tornou o livro de McCoy um marco é justamente essa
percepção. Sua anti-heroína, Gloria,
não pede para ser morta por perder os US$ 1.000 destinados
aos vencedores, mas apenas por não aceitar mais participar
do jogo - não o concurso em si, mas a disputa desenfreada
que o mundo vivia, especialmente quando a depressão
ampliava ainda mais o rol dos excluídos.
Não
por acaso, o livro é relançado agora. Mas o
mundo não é exatamente o mesmo: hoje, a banalidade
da eliminação do outro é capaz de conviver
até mesmo com um cenário de crescimento econômico,
como o dos EUA nos anos Clinton.
Um
cinema no limite da civilização
Adaptação de Pollack transformou Jane Fonda
num belo símbolo do protesto
LUIZ CARLOS MERTEN
Faz mais
de 50 anos que saiu no Brasil a primeira edição
do livro de Horace McCoy. A editora era a Globo e o tradutor,
Érico Veríssimo. O livro foi relançado
no fim dos anos 60, aproveitando o impacto do filme de Sydney
Pollack. Ganha agora outra tradução, em outra
editora. Com todo respeito pelo trabalho de Renato Pompeu,
não será fácil para ele competir com
o grande Érico, o maior romancista do Rio Grande e
um dos maiores do Brasil.
Mas Não
se Matam Cavalos?, o livro, virou A Noite dos Desesperados
no Brasil, tanto o romance como o filme.
Diante
das banalidades da produção recente de Pollack
- o thriller A Firma, a comédia romântica Sabrina
-, você é capaz de nem acreditar, mas ele fez
um belo trabalho em A Noite dos Desesperados. Tem a ver com
a época, a atriz, com tudo. O fim dos anos 60, com
a radicalização do espírito revolucionário
de Maio de 68, foram essencialmente contestadores. E Jane
Fonda era a mais bela imagem da contestação
no cinema. Ela vinha de uma carreira como mito erótico
no cinema europeu, nos filmes dirigidos por seu então
marido, Roger Vadim. A Ronda do Amor, O Jogo Perigoso do Amor,
o episódio Metzengerstein de Histórias Extraordinárias
e, principalmente, Barbarella esculpiram o mito da mulher
sexy.
De volta
aos EUA, a erotizada Jane descobriu a política. Militava
na tela e fora dela. Mais tarde, casou-se com Ted Turner e
passou a viver mais preocupada com a aeróbica do que
com a política. Fazer o quê? Chorar pela velha
Jane revolucionária, talvez. Como a desse filme. Chorar
por Pollack, que também já foi grande. Foi -
um tempo passado, um sentimento, uma nostalgia. Pollack foi
mesmo grande na época em que fez a adaptação
de McCoy e, logo em seguida, o western Mais Forte Que a Vingança,
com o astro Robert Redford no papel de Jeremiah Johnson, o
lendário ermitão da montanha que enfrentou sozinho
os índios crow. Mais Forte Que a Vingança foi
a fonte em que bebeu Kevin Costner para fazer Dança
com Lobos, no tempo em que era bom.
Mas o
filme de Pollack é melhor.
Com Jeremiah
Johnson e, antes desse filme, com A Noite dos Desesperados,
Pollack propunha uma personalidade vigorosa, uma autoria que
terminou diluindo, a seguir. Os dois filmes o colocam na fronteira
da civilização. É um esteta e um humanista,
um civilizado que se horroriza tanto com a brutalidade que
descobre na história de McCoy quanto na de Jeremiah
Johnson.
A saga
desse último, o caçador que abandonou a civilização
para levar uma existência solitária na montanha,
poderia ser um veículo para que ele buscasse a recuperação
da barbárie e do orgulho como as virtudes supremas
do indivíduo, ou olhasse esse mesmo indivíduo
como o momento superior da raça.
Isso é
o que teria feito o roteirista de Mais Forte Que a Vingança,
o também diretor John Milius, mas não Pollack.
Na saga
de Jeremiah Johnson, o matador de crows, ele viu a possibilidade
de concretizar não uma vingança mas uma reflexão
sobre a impossibilidade de haver, nesse mundo, um lugar onde
o homem possa se esconder dos compromissos e conflitos básicos
da existência. É uma idéia que fecha com
a a adaptação de McCoy. Pollack transformou
um romance duro, cínico e brutal num lamento pela América
que se prometia como um grande baile e era apenas uma dança
louca para ganhar um punhado de dólares. A loucura
que move Gloria e Robert, os personagens de Jane Fonda e Michael
Sarrazin em A Noite dos Desesperados, no fundo é a
mesma que impulsiona Jeremiah, interpretado por Robert Redford,
à sua guerra solitária. É uma circunstância,
o resultado de um súbito e inesperado desafio da realidade
que os personagens tratam de enfrentar com os meios ao seu
alcance. Glória e Robert aceitam o grau de demência
que a sociedade lhes impõe e isso é que faz
a dor do filme, o seu final de impacto.
Um cinema
na fronteira da civilização, que mostra como
ela se constrói no fio da barbárie. A Noite
dos Desesperados passa-se durante a depressão econômica
dos anos 30, nos EUA. Não há emprego, as pessoas
sujeitam-se a qualquer coisa para sobreviver. Glória
e Robert participam de uma maratona de dança. Não
é um concurso para ver quem dança melhor, é
um teste de resistência para ver quem consegue ficar
mais tempo de pé. Por isso mesmo as duplas iniciam
o filme dançando e terminam, pateticamente, com seus
integrantes amparando-se uns nos outros, lutando para manter-se
de pé, independentemente do cansaço e até
da fome.
É
um universo derrisório, mais do que sórdido,
no qual o meneur du jeu, o animador da festa - interpretado
por Gig Young, que ganhou o Oscar de coadjuvante -, termina
fazendo as vezes de cínico e de bad guy, ao insistir
em vender, com slogans, palavras de ordem em que ninguém
mais acredita nesse mundo que se desintegra. O salão
e a própria maratona são representações
da vida, microcosmos em que miríades de tramas e personagens
se misturam ou entram em choque. São vários
esses personagens, mas o foco está em Glória
e Robert, a garota destrutitiva e o rapaz manipulável,
ambos convergindo para o desfecho trágico que dá
sentido à pergunta que McCoy colocou no seu título
- mas não se matam cavalos? A sociedade que mata cavalos
equipara as pessoas a animais. É contra isso que McCoy,
no livro, e Pollack, no cinema, se insurgem.
Talvez
alguém pudesse pensar que o filme, tão alicerçado
no espírito contracultural da época, poderia,
quem sabe, resistir mal ao tempo. Não foi o que ocorreu.
As últimas reprises de A Noite dos Desesperados na
TV - e faz algum tempo que o filme, infelizmente, não
passa - confirmaram que se trata de uma obra de rara potência.
Dramaturgia e imagens não perderam nada de sua força.
E Jane é esplendorosa. Foi indicada para o Oscar pelo
papel. Perdeu para Maggie Smith (por A Primavera de uma Solteirona),
mas ganhou depois, duas vezes, o cobiçado prêmio
- por Klute, o Passado Condena, de Alan J.
Pakula,
e Amargo Regresso, de Hal Ashby. Por melhor que seja nesses
dois filmes, fica a sensação de que a academia
não a reverenciou quando mais merecia.
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