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Heitor não está contente

Era uma vez um jovem psiquiatra chamado Heitor que não andava lá muito satisfeito consigo.
Heitor não estava mesmo contente, mas, ainda assim, parecia um psiquiatra de verdade: usava óculos de aros redondos que lhe davam um ar de intelectual, sabia escutar as pessoas como quem está pensando no que dizem, às vezes até fazia uns “hummm... hummm...”, e tinha um bigodinho que entortava quando ele refletia muito.

Seu consultório parecia o de um psiquiatra de verdade: tinha um divã com jeito de divã antigo (foi sua mãe quem lhe deu, quando ele se instalou), umas réplicas de estatuetas egípcias, ou hindus, e uma estante repleta de livros complicados de ler, tão complicados, aliás, que alguns ele nunca lera.

Muita gente queria marcar consulta com Heitor, e não só porque ele parecia mesmo um psiquiatra de verdade. Heitor também tinha um segredo, o segredo dos bons médicos, e que não se aprende na faculdade: ele se interessava de fato pelas pessoas.

Não é nada fácil ir a um psiquiatra pela primeira vez. Todo mundo sabe que ele está habituado com essas coisas, mas mesmo assim dá um pouco de medo de que ele vá pensar que a gente é louco. Ou então que o caso não lhe pareça suficientemente grave e que ele mande procurar outro médico. Mas como a consulta já foi marcada, e a hora chegou, então a gente decide contar aquelas manias esquisitas, aqueles pensamentos estranhos que passam pela nossa cabeça, e que incomodam, mas que a gente nunca contou a ninguém, os medos de verdade ou as tristezas grandes demais que impedem de viver a vida. Dá medo também de não saber contar a história direito e de ser um pouco chato. Às vezes, é bem verdade, o psiquiatra parece mesmo entediado, ou então muito cansado. Quem não está acostumado até duvida que ele tenha de fato escutado alguma coisa de tudo o que a gente contou.

Mas Heitor era diferente: ele olhava para as pessoas quando elas contavam suas histórias, balançava a cabeça para encorajá-las, de tempos em tempos fazia seus “humm..., humm...”, remexendo o bigode, e às vezes até dizia: “Espere um pouco, explique isso melhor, não entendi muito bem”. Fora os dias em que estava mesmo muito cansado, as pessoas sentiam que Heitor ouvia o que elas diziam e até achavam que ele achava interessantes as histórias que contavam.

Então, voltavam de novo, marcavam novas consultas, recomendavam aos amigos, falavam dele a seu médico, que, por sua vez, indicava Heitor a outros pacientes. E, assim, logo Heitor começou a passar longas jornadas ouvindo as pessoas e a pagar muitos impostos, embora ele não cobrasse muito caro. (Sua mãe sempre dizia que devia cobrar um pouco mais, mas isso era mais complicado para ele).

Cobrava menos, por exemplo, que Madame Irina – era conhecida com esse nome –, uma vidente bastante célebre. Era ela, aliás, quem lhe dizia:
– Doutor, devia aumentar seu preço.
– Alguém já me disse isso – respondia Heitor.
– Estou falando como uma mãe, doutor. Vejo o que é bom para o senhor.
– A propósito, como vai indo? Agora está conseguindo ver melhor?

É que Madame Irina viera ver Heitor porque não conseguia mais ver o futuro direito. Tinha sofrido uma grande tristeza por causa de um senhor que se fora e desde então não via mais, verdadeiramente, quer dizer, não via como devia ver. Mesmo assim, como era esperta, conseguia ainda dizer coisas interessantes a seus clientes. Mas, como também era um pouco honesta, ficava chateada de não ver como via antes. Então Heitor lhe receitou uns comprimidos para as pessoas que estão muito tristes e ela agora estava vendo um pouco melhor.
Heitor não sabia muito bem o que pensar disso.

Assim, Heitor fazia sucesso porque sabia ouvir as pessoas. Mas não só por isso. Ele também conhecia as manhas do ofício.
Primeiro, sabia responder a uma pergunta com outra pergunta. Por exemplo, quando alguém lhe perguntava: “O senhor acha que vou me sair bem, doutor?”, ele respondia: “O que quer dizer ‘se sair bem’, para você?”. De cara, isso forçava as pessoas a refletir e era assim que Heitor as ajudava a encontrar sozinhas os próprios meios de se safarem.

Depois, ele conhecia bem os medicamentos. Para um psiquiatra, até que é simples, porque só existem quatro grandes tipos de medicamentos a ser prescritos: os comprimidos para quem está muito triste – os antidepressivos –, os comprimidos para quem sente muito medo – os ansiolíticos –, os comprimidos para quem tem idéias realmente muito bizarras ou para quem ouve vozes – os neurolépticos – e depois os comprimidos que servem para evitar os altos e baixos altos demais ou baixos demais – os reguladores de humor. Bem, é um pouco mais complicado que isso porque para cada uma dessas espécies de remédios há pelo menos umas dez marcas de comprimidos diferentes, cada qual com um nome mais esquisito que o outro, e o psiquiatra precisa saber aquele que melhor convém a cada caso. Os remédios são um pouco como as sobremesas: nem todo mundo aprecia as mesmas.

Enfim, quando os remédios não bastavam, ou simplesmente quando as pessoas não precisavam mais deles, Heitor conhecia outro modo de ajudá-las: a psicoterapia. É uma palavra complicada, mas quer dizer simplesmente que se pode ajudar as pessoas escutando-as e conversando com elas. Mas, atenção! Não é a mesma coisa que conversar como se conversa normalmente, mas segundo um método todo especial. Como no caso dos comprimidos, há tipos diferentes de psicoterapias e algumas foram inventadas por gente que já morreu há muito tempo. Heitor aprendera uma psicoterapia inventada por gente ainda viva, embora, é verdade, já bem idosa. Era um método em que o psiquiatra dialogava com seu paciente e essa era outra coisa de que gostavam, porque alguns já tinham ido antes a outros psiquiatras que quase não falavam nada e eles não conseguiam se acostumar direito com isso.

Com Madame Irina, Heitor não tinha experimentado muito a psicoterapia, não, porque, quando ia lhe fazer uma pergunta, ela dizia:

– Doutor, já sei o que vai me perguntar.

O pior é que muitas vezes (mas nem sempre) ela tinha razão.

Portanto, com o conhecimento que tinha, das manhas do ofício, dos medicamentos e da psicoterapia, e ainda mais esse seu segredo de se interessar de fato pelas pessoas, Heitor era um bom psiquiatra. Quer dizer que ele chegava aos mesmos resultados aos quais chega um bom médico, um bom cardiologista, por exemplo: Heitor conseguia curar completamente alguns de seus pacientes; outros, mantinha-os em boa saúde desde que continuassem a tomar todos os dias os remédios que prescrevera e viessem falar com ele de tempos em tempos; e tinha uns que ele só conseguia ajudar a suportar a doença, tentando fazê-la o menos grave possível.

Heitor, porém, não estava satisfeito.

Ele não estava satisfeito porque sabia muito bem que não conseguia fazer as pessoas felizes.