Como tantos, comparo a riqueza da nossa música popular
à das nossas florestas.
Tanto numa, como noutra, temos preciosidades de fazer inveja
a qualquer país do mundo. Seja na floresta, seja nos
palcos, temos flores silvestres de rara delicadeza, frutos
de aroma e sabor incomparável, animais ariscos e misteriosos
e claras minas d’água que, mais adiante, formam
rios escuros, caudalosos. Há sobre ambas, também,
uma sombra densa que, exceto em algumas clareiras esparsas,
dificulta a visão simultânea do todo, de cada
uma das partes. A diferença é que a mata é
virgem, enquanto a música, qualquer música,
ao menos alguma vez, foi conhecida antes de cair na ignorância.
Voltar a trilhar e abrir as picadas da memória musical
brasileira, sem ressalvas contra nenhuma, e com os meios que
temos à mão no momento – os CDs, ainda
que, em certos casos, já não sejam assim tão
disponíveis... –, é o objetivo deste livro.
Ah! mais uma semelhança entre as florestas e a MPB:
em ambas são os estrangeiros quem mais se empenham
em pesquisar e extrair uma biodiversidade de inestimável
valor.
“Os 100 Melhores CDs da MPB” – mas o que
pode ser isso? Que critério pode apontar o sumo de
nossa tão vasta produção musical? De
fato, os juízos estéticos não seguem
formas objetivas e, portanto, a presente listagem –
assim como qualquer outra – está impregnada de
arbitrariedade. Em não havendo critérios absolutos,
preferi uma via mais democrática e escolhi um parlamento
para votar a questão. Busquei convidar pessoas de alto
gabarito musical, mas partidários de vertentes diferentes
da MPB, a fim de garantir a pluralidade que nos caracteriza
(e que muitas iniciativas do gênero deixam escapar).
Apurados os votos, havia então 100 títulos,
partes integrantes do seleto rol de obras de arte que chamamos
“clássicos”. Embora seja verdade que os
100 melhores CDs da MPB não são necessariamente
os aqui listados, posso garantir que cada um deles –
que ouvi muitas, muitas vezes – justifica esse título
de “clássico” já à primeira
audição. Jorge Luis Borges dizia que os clássicos
são obras que gerações e gerações,
urgidas por diversas razões, apreciam com prévio
fervor e misteriosa lealdade. Fico com ele. Os clássicos
me parecem uma livre criação e, mesmo, uma obsessão
da nossa memória coletiva. Contudo, Borges também
argumenta que, necessários ou não, os clássicos
têm uma particularidade muito importante: não
terminam em si mesmos; são destinados a repercutir
por anos e anos a fio, indefinidamente. Continuo com ele.
E acredito piamente que todos os presentes discos têm
essa qualidade. Sincero admirador de todos eles, torço
para que o tempo não me desminta!
Quem elegeu os 100 melhores CDs da MPB aqui listados:
• André Domingues
Jornalista e crítico musical
• Arley Pereira
Jornalista e crítico musical
• Carlos Rennó
Compositor, jornalista e crítico musical
• Éder Sandoli
Compositor, instrumentista e arranjador
• Hílton Valente, “Gogô”
Compositor, arranjador, instrumentista e professor de História
da Música Popular Brasileira da UNICAMP
• Luiz Melodia
Cantor e compositor
• Maria Alvim
Cantora e especialista em recursos da voz


