>> Entrevista com David Servan-Schreiber
"Não inventei nada"
FERNANDO EICHENBERG
free-lance para a Folha de S.Paulo, de Paris
O neuropsiquiatra David Servan-Schreiber recebeu a Folha
de S.Paulo em seu apartamento em Paris, onde falou sobre as
idéias expostas no seu livro "Guérir".
Confira, abaixo, trechos da entrevista.
Folha - Segundo o sr., vivemos sob a tirania dos medicamentos
psicotrópicos, receitados de forma abusiva para combater
o estresse, a ansiedade e a depressão.
David Servan-Schreiber - Muitas pessoas tiveram a vida
salva pelos antidepressivos. Hoje, eles provocam muito menos
efeitos secundários que no passado. O que não
é normal é o desequilíbrio com que são
utilizados. Um francês em cada sete toma antidepressivo
ou ansiolítico. Nos EUA, cerca de 10 milhões
de americanos tomam antidepressivos. Isso é anormal.
O lítio e outros medicamentos são muito eficazes.
O importante é utilizá-los em casos legítimos
e justificados. Essa medicina não reconhece que o corpo
e o cérebro emocional têm sua própria
capacidade de adaptação e reequilíbrio.
Folha - Em relação à psicanálise,
o senhor chegou a dizer que, praticada seguidamente, é
uma perda de tempo.
Servan-Schreiber - O que eu digo é que o objetivo
da psicanálise não é curar. E foi Jacques
Lacan [1901-1981] quem disse isso. Ele afirmou: "O objetivo
da psicanálise é a compreensão de si
mesmo, e a cura, quando ocorre, é um benefício
em acréscimo". Eu sou médico, e o que me
interessa é a cura. Toda minha vocação
e meu interesse pela medicina está em aliviar o sofrimento.
É bastante presunçoso escrever um livro com
o título "Guérir" ["curar"],
mas me permiti fazê-lo porque a definição
de cura é muito simples: quando os sintomas da doença
desaparecem e não retornam. O que constatei —e
está nos livros científicos— é
que vi repetidamente pessoas serem curadas desses males por
esses métodos naturais, e os sintomas não reapareceram.
Então, pode-se falar de cura. Apresente-me um estudo
sobre a psicanálise que mostre isso. Não conheço
nenhum. Mas não se trata de dizer que a psicanálise
é uma perda de tempo. Depende do que você quer.
Folha - Por que falar, hoje, da medicina de "autocura
pelo corpo"?
Servan-Schreiber - Se eu corto o dedo e provoco uma
ferida, em alguns dias ela estará cicatrizada, e logo
nem saberei mais onde foi o corte. No cérebro emocional,
temos os mesmos tipos de mecanismos de adaptação,
de cicatrização, que podem ser aprendidos por
métodos naturais. Passei 20 anos estudando o cérebro.
Pude constatar a eficácia desses métodos naturais
de tratamento, os quais nunca me foram ensinados na universidade.
Quando constatei que esses métodos funcionavam, e ainda
melhor se comparados aos métodos tradicionais que havia
aprendido, resolvi falar deles. Mas não inventei nada.
Tudo o que está no meu livro são métodos
já citados na literatura científica.
Folha - O que é essa "nova medicina emocional"?
Servan-Schreiber - A idéia central não
é minha, mas, sobretudo, de António Damásio,
que é para mim o maior neurocientista do mundo. Nos
seus livros, ele diz que as emoções são
emanações de tudo que se passa no corpo. A emoção
é a sensação percebida do estado da fisiologia.
Não há nenhum sentido em separar as emoções
do que ocorre no corpo. Se vamos até o fundo da tese
de Damásio, devemos passar pelo corpo, pelo estado
da fisiologia, para transformar e curar os problemas das perturbações
emocionais. O controle da coerência cardíaca,
a hipnose usando os movimentos oculares, a terapia pela luz
e pela simulação do nascer do Sol, a acupuntura,
a nutrição, o exercício físico
e também a importância do afeto, tudo isso são
formas para aprender a utilizar o cérebro emocional
e entrar em conexão para colocar a fisiologia no seu
estado ótimo. Eu pego as idéias de Damásio
e as levo até o limite, coloco sua teoria em prática.
Aliás, é o que ele mesmo diz.
Folha - Alguns dos métodos que o sr. prega foram
modismo nos anos 60 e 70, período fértil em
terapias alternativas e de difusão do ioga e da acupuntura.
A que o sr. credita o sucesso de seu livro hoje?
Servan-Schreiber - A primeira razão está
relacionada ao fato de que se ouviu muito falar desses métodos
por pessoas que não tinham credibilidade científica.
O que interessava ao público era ouvir alguém
como eu, que comandou o serviço de psiquiatria num
hospital de uma grande universidade ortodoxa de medicina convencional,
falando sobre isso. A mensagem nova foi alguém assim
dizer que há coisas na literatura científica
que funcionam bem e não são utilizadas como
poderiam. Outra razão está relacionada a um
movimento planetário, em que as pessoas desejam uma
indústria não poluente e que produza, mesmo
assim. Elas desejam uma agricultura que as alimente, mas que
não as envenene. E o mesmo vale para a medicina, que
utilize as capacidades do corpo para se reequilibrar, e que
seja uma medicina "ecológica", natural.
Folha - Em resumo, seus métodos não trazem
nenhuma novidade, mas a comprovação científica
de técnicas já conhecidas.
Servan-Schreiber - A idéia de que se pode ser
curado pela nutrição não é nova.
Hipócrates já dizia isso. Acupuntura, nutrição,
exercício físico, nada disso é novo.
A coerência cardíaca é inspirada em tipos
de meditação que datam de 5.000 anos. O novo
é que começamos a ter estudos científicos
que mostram que os métodos funcionam. Graças
às novas técnicas de obter imagens do cérebro
em atividade, começamos a entender como funciona a
acupuntura, como certos pontos podem anestesiar o centro de
ligação da ansiedade no cérebro. Isso
é apaixonante. Na questão da nutrição,
começamos a perceber no nível bioquímico
a importância dos ácidos graxos ômega 3
na própria constituição das membranas
neuroniais, no equilíbrio emocional e no controle das
reações de inflamação no corpo.
Isso é revolucionário. Sabíamos que a
nutrição era importante, mas não com
tanta precisão. O estudo sobre o papel dos animais
de companhia no equilíbrio emocional data dos últimos
cinco anos. Não é nenhuma novidade dizer que
ter um gato ou um cachorro faz bem. Mas, sem os estudos científicos,
não podíamos recomendar isso num dossiê
médico no hospital. Por isso me senti capaz de colocar
tudo num livro, com argumentos que pudessem convencer os leitores.
Os estudos científicos são novidade, mas a maioria
dos conceitos são antigos.
Folha - E quanto à coerência cardíaca?
Servan-Schreiber - A noção de coerência
cardíaca é nova. Há uns 15 ou 20 anos
compreendemos a importância da variabilidade do ritmo
cardíaco em cardiologia. Mas sua compreensão
no controle das emoções, sua importância
para o controle do cérebro, começou a ser compreendida
há cinco anos. Data de milênios a idéia
de que se pode controlar o corpo pela respiração
e pela concentração. Os budistas, por exemplo,
compreenderam isso há 2.500 anos. Mas compreender como
ela atua e precisar como se pode fazer isso da forma mais
eficaz possível é que é novo.
Folha - O tipo de hipnose citado, que trabalha com a reprogramação
dos movimentos oculares, pode realmente ajudar a resolver
problemas emocionais?
Servan-Schreiber - A idéia de que se pode utilizar
o movimento dos olhos e focalizar no corpo para estimular
os mecanismo de digestão dos traumas emocionais foi
inteiramente desenvolvida por Francine Shapiro, na Califórnia,
em 1982. Há 14 estudos devidamente testados que provam
esse método, recomendado por instituições
médicas em vários países. O método
foi aceito pelos ministérios da Saúde da Inglaterra,
da Irlanda e de Israel. Mas ainda é algo bastante controverso.
Há muitas pessoas que, apesar dos estudos científicos,
não querem acreditar que funciona, porque não
entendem como funciona.
Folha - O senhor diz que os Estados Unidos destinam anualmente
US$ 115 milhões para experimentação e
avaliação desses métodos. Há um
grande atraso nessas pesquisas nos demais países?
Servan-Schreiber - A França é um caso
particular, porque o público é extremamente
aberto, e as instituições, extremamente conservadoras.
Há uma tensão incrível. Era o caso nos
EUA, e foi preciso um grande esforço para chegar aonde
se está hoje. Foram os parlamentares que obrigaram
o Instituto Nacional de Saúde americano a criar um
centro de pesquisas sobre as medicinas complementares. Depois,
a coisa decolou. Nunca houve um aumento de orçamento
tão rápido. Começou com US$ 1 milhão
por ano, em 1992, para chegar a US$ 110 milhões, em
2002.
Folha - O senhor relata no livro experiências realizadas
em empresas. Existe algum programa de utilização
desses métodos nas escolas?
Servan-Schreiber - Sei que existe um projeto em estudo
pelo Ministério da Educação da Grã
Bretanha envolvendo cerca de 40 mil alunos, para ensiná-los
a praticar a coerência cardíaca para melhor administrar
suas emoções e suas próprias capacidades
de concentração. Por enquanto, ainda é
um projeto piloto.
Folha - Suas teses têm provocado polêmica
na comunidade científica?
Servan-Schreiber - Até agora, não houve
um verdadeiro debate na França. Na Suíça,
há neurologistas e psiquiatras que discordam das minhas
teses. Fico extremamente contente com esses debates. A principal
crítica que recebo é do tipo "se tudo isso
fosse verdade, todos saberiam", e não aceito esse
argumento. Tudo já é sabido, está escrito
nos livros científicos, mas o problema é que
há pouca motivação para desenvolver essas
técnicas. Não se pode patenteá-las, pois
são técnicas naturais. Ninguém poderá
patentear os peixes que têm ômega 3, o controle
da respiração, a acupuntura, os exercícios
físicos, o afeto, a luz, a hipnose. Portanto, não
se poderá ganhar dinheiro com essas patentes, o que
é uma motivação a menos. Em segundo lugar,
todos esses métodos exigem muito mais tempo do médico
do que escrever uma prescrição de Prozac, que
leva dois minutos.
Folha - O seu discurso, por vezes, assemelha-se a aforismos
budistas.
Servan-Schreiber - Gosto bastante da expressão
"mind-body medicine" ["medicina do corpo e
da mente"]. Ela define a integração do
que existe de melhor na medicina convencional com o que funciona
nessa medicina que utiliza as capacidades de autocura do organismo.
Mas não é preciso se tornar um budista. Estive
recentemente num debate com o dalai-lama [líder espiritual
do budismo tibetano], em Boston, e ele disse ao final de sua
conferência: "Você não precisa crer
na reencarnação, no nirvana ou nas divindades
budistas. Comece simplesmente tendo mais emoções
positivas do que negativas e a concentrar seu espírito
e sua atenção nisso. Já assim você
começará a ser um ser humano muito mais evoluído".
<< anterior |