Sérgio Sá Foto: Cristina Reis
Ecos do amanhã é o terceiro livro de Sérgio Sá (Fortaleza, Ceará, 1953) e marca sua estréia na ficção. Esse músico que completa 36 anos de carreira, autor de mais de 300 canções já gravadas, letrista inspirado, passa agora ao terreno da literatura, ampliando seu leque de ofícios e de expansão de sua imensa criatividade. Polivalente, sempre foi de muita briga: cego de nascença, desde que veio de Fortaleza aos 13 anos continuar seus estudos em São Paulo, Sérgio procurou desenvolver seu talento para a música -- tem ouvido absoluto --, incorporando--se a bandas de garagem, tocando, cantando e logo mais arranjando, produzindo e gravando. Aos 20 anos, com o pseudônimo de Paul Bryan tinha quatro músicas entre as dez mais executadas e vendidas no país; logo mais, teria suas composições gravadas por Roberto Carlos, Fábio Jr., Simone, Fafá de Belém, Jane Duboc, Chitãozinho e Xororó, entre tantos outros. Em 1985, embarcou para os Estados Unidos, onde permaneceu por mais de três anos apresentando shows e gravando com músicos latinos e americanos.

Destaca-se a coleção de vinhetas que criou para a FM de Stevie Wander. Nos anos 90, de volta ao Brasil, criou a trilha sonora da série Mundo da Lua (TV Cultura) e participou como arranjador do CD Quanta de Gilberto Gil. Em sua produtora, Fábrica de Sons, é responsável pela nova cara sonora da Voz do Brasil e por jingles vencedores na publicidade. Gravou Voa vida (1982) e Fora de prumo (1984). Juntamente com este livro, ele lança o CD Ecos do amanhã (Café Brasil). Publicou Fábrica de Sons (Editora Globo, 1994) e Feche os olhos para ver melhor (Sá Editora, 2003, edição em tinta e 2004, edição em Braille).


Para um cego, o som é a imagem, o reflexo de toda a atividade humana. Segundo Sérgio Sá, que é portador de catarata congênita, “soamos nos sonhos, nas catástrofes, na alegria, no lamento, até no silêncio”.

A falta da visão fez com que Sá se conectasse ao mundo por uma teia sonora e invisível, com sua sensibilidade sendo alimentada por ecos e vibrações que não cessam nunca de chegar para alguém sempre de olhos fechados -- sem acesso ao mundo fugaz e por vezes enganoso das imagens.

É dessa matéria prima que se alimenta este Ecos do amanhã, em que o autor transformou em palavras, que, por acaso também são silenciosas fontes de ruídos, suas inquietações e reflexões.

É para se ler em silêncio esse brado de alerta e de profundo amor à Humanidade, transformado também em um texto de ficção inventivo e saboroso (sim, Sérgio sabe como despertar vários outros sentidos!).

É para se prestar atenção quando ele nos fala desse ruído insidioso que invade o planeta: ele parece tocar na fonte mesmo de nossa angústia e de nossa salvação.

Eliana Sá