>> ADOLESCÊNCIA E ANOREXIA NERVOSA
CYBELLE WEINBERG
Cybelle Weinberg é Psicopedagoga; Psicanalista;
Membro da Coordenação da Clínica de Estudos
e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia (CEPPAN);
Colaboradora do Ambulatório de Bulimia e Transtornos
Alimentares (AMBULIM) do IPQ - HCFMSP; Membro da Equipe de
Psicologia do Projeto Interdisciplinar de Atendimento, Ensino
e Pesquisa em Transtornos Alimentares na Infância e
Adolescência do AMBULIM.
"A pubescência é um ato
da natureza; a adolescência é um ato do homem."
Peter Blos
Epidemiologia
Anorexia Nervosa é um transtorno do comportamento
alimentar que se desenvolve principalmente em meninas adolescentes
e caracteriza-se por uma grave restrição da
ingestão alimentar, busca pela magreza, distorção
da imagem corporal e amenorréia ( suspensão
da menstruação ).
A Anorexia Nervosa é, segundo Cordás ( 1996
), oito vezes mais comum em mulheres que em homens, seu pico
de incidência ocorre entre os 15 e os 19 anos e nota-se
um aumento significativo do número de casos descritos
nas ultimas décadas, além de um início
cada vez mais precoce.
Adolescência
A adolescência, por si só, já oferece
uma campo propício para condutas de risco de qualquer
espécie. Sabe-se que são próprios da
adolescência o pensamento onipotente, do tipo "isso
não vai acontecer comigo" / "posso parar
quando quiser", a impulsividade, a necessidade de experimentar
novas sensações, uma maior vulnerabilidade aos
apelos da mídia, preocupações com o corpo
e uma deturpação da imagem corporal. Ser mulher
e ser adolescente, então, é um duplo fator de
risco para o desencadeamento de um transtorno alimentar.
Adolescência e identidade
Faz parte do processo normal da adolescência a busca
de uma nova identidade. Questões existenciais se colocam
na adolescência, na forma de indagações
do tipo "quem sou eu?", "que profissão
seguirei?", "com quem quero me parecer?".
Isso implica um movimento de diferenciação,
de separação, o que significa um processo dificil,
gerador de muita angústia.
O que tenho lido e ouvido a respeito das meninas anoréxicas,
é que geralmente são boas filhas, boas alunas,
obedientes, "perfeitas". Por outro lado, o que ouço
delas próprias é que nunca tiveram oportunidade
de serem elas mesmas. São suas falas: "minha mãe
sempre falou por mim", ou "sempre fiz o que minha
mãe queria".
Então, quando estas meninas se tornam anoréxicas,
elas se apresentam como anoréxicas. Ser anoréxica
é ter uma identidade: "sou alguém que não
come". A preocupação com o peso e com os
alimentos ocupam seus pensamentos e tornam-se a sua vida.
Por isso, penso, é tão dificil o caminho para
a cura, porque abandonar a doença é abandonar
uma identidade adquirida.
O que observo, com relação às meninas
anoréxicas que atendo no Ambulatório de Bulimia
e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas
de São Paulo, é que elas se identificam umas
com as outras, se ajudam, se telefonam, trocam confidências,
saem juntas nos fins de semana. Formam, como todo bom adolescente,
uma verdadeira turma. A diferença é que jamais
saem para comer. Ainda que comida seja o assunto predileto!
Psicodinâmica
Vimos que os transtornos alimentares ocorrem preferencialmente
em adolescentes mulheres. Muitos são os escritos médicos
que tentam explicar esse fenômeno, assim com é
grande o número daqueles que o associam aos apelos
da mídia e às influências culturais. No
entanto serão privilegiados, aqui, os aspectos psicodinâmicos
da questão.
No mommento da adolescência, os conflitos edípicos
são revividos, porém com um colorido mais intenso.
Assim, normalmente as relações com as figuras
parentais são permeadas por sentimentos de muita rivalidade
e ambivalência.
Por outro lado, o processo da puberdade, na menina, é
acompanhado de uma grande dose de ansiedade. A menina assusta-se
diante das novas sensações que seu corpo lhe
propicia e diante do que seu corpo possa vir a despertar no
outro. Ela é levada então a reviver um vínculo
pré-edípico: busca a mãe nutriz e protetora
dos momentos precoces da sua infância. Mas, ao mesmo
tempo, esse vínculo é sentido como perigoso,
especialmente num momento em que ela precisa diferenciar-se
e separar-se de sua mãe. Ela quer e não quer
tomar a mãe como modelo: a relação com
a mãe é de amor e hostilidade.
Mas voltemos à fala das meninas anoréxicas.
Elas afirmam que sempre tiveram muita dificuldade em expressar
sua raiva.
É fato observável que, no processo normal
da adolescência, quanto mais dóceis as meninas
foram mais a rebeldia se manifesta através do corpo:
na higienização, na vestimenta, na alimentação.
Assim, a anorexia pode ser entendida como uma forma de manifestação
da raiva: essas meninas meigas controlam a família
que, impotentes, assistem ao seu definhamento. É comum
ouvis delas: "eu não queria ser minha mãe,
coitada, como eu a faço sofrer!..."
A anorexia, ao mesmo tempo, mantém uma dependência
infantil e um corpo infantil. Quando essas garotas falam de
um peso e corpo ideais, é o corpo da menina de 10,
12 anos que desejam ter: querem "apagar" os sinais
da feminilidade, não querem menstruar, não podem
ter uma identidade feminina.
As anoréxicas levam ao extremo as idéias de
morte "comuns" na adolescência. O suicídio
é, por excelência, uma questão filosófica
que se coloca nesse período da vida ( ao mesmo tempo
em que é visto como uma forma de escapar das dificuldades
). No próprio conceito de adolescência está
embutida a idéia de morte e renascimento: faz parte
dos rituais de passagem de alguns grupos primitivos separar
o jovem do grupo, "lamentarem a sua morte" com gritos
de dor e depois festejarem o seu renascimento, inclusive dando-lhe
um novo nome ( simbólicamente, o ritual representa
a morte da criança e o nascimento do adulto ). As anoréxicas,
incapazes de elaborarem essa passagem e os lutos próprios
da adolescência, como a perda do corpo infantil, afirmam
que gostariam de morrer e renascerem outras, com uma nova
identidade. Como disse uma garota que me procurou para análise:
"quero deixar de ser essa mancha que escorre para cá
e para lá".
Bibliografia
>> Bielsa E. La crisis adolescente y los transtornos
alimentarios. In: Lofrano V. Anorexias y Bulimias -las cosas
del comer. Buenos Aires: Fundatip, 1995
>> Morande G. Um peligro llamado Anorexia - la tentacion
de adelgazar. Madrid: Temas de Hoy, 1995
>> Cordás T A .Transtornos Alimentares. In:
Almeida O P Manual de Psiquiatria. Rio de Janeiro: Guanabara
Koogan, 1996
>> Weinberg, C. Por que estou assim? - os momentos
difíceis da adolescência. São Paulo:Casa
do Psicólogo, 1999
Vítimas da fome.In: Weinberg C.(org.)
>> Geração Delivery . São Paulo:
Sá Editora
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