Geração "Delivery"
Por DULCE NETO

Não era melancolia, era constatação. O rapaz dizia: "Olhe para os meus pais e os amigos dos meus pais: são gente boa, deram duro na vida, investiram em nós, fizeram tudo o que puderam. E olhe para nós: um drogado, outro deprimido, outro morreu, suicidou-se, outro conseguiu estudar, outro não tem profissão...É isso, eu nãosei por quê, mas deu tudo errado!".

Cybelle Weinberg, psicopedagoga, usa este desabafo real para dizer que "ser adolescente, hoje, é muito mais difícil do que o foi em épocas passadas". Porquê? Porque hoje é tudo mais fácil. Aparentemente, talvez.

"Os pais são mais compreensivos, mais tolerantes, há maior liberdade sexual, maior liberdade de expressão, maior liberdade para a escolha profissional, maior liberdade para isto, maior liberdade para aquilo". Porém, "o que vemos são jovens com pouca iniciativa, angustiados diante da escolha profissional, deprimidos, stressados, com dificuldade para sair da casa dos pais e definir o seu próprio caminho." Cuidado, isto não é para generalizar, mas, diz quem lida com adolescentes, é espantoso o número de rapazes e raparigas que estão nesta situação.

Esta ideia subjaz ao livro "Geração Delivery - Adolescer no mundo actual", coordenado por Cybelle Weinberg. Foi este ano publicado no Brasil (Sá Editora) e dá conta da preocupação de psicólogos, médicos, psiquiatras, pedagogos e professores com os nossos adolescentes. Ao longo de 16 capítulos, escritos por diferentes autores, se percebe a inquietação com os jovens, só aparentemente autónomos, só superficialmente independentes, nada preparados para a vida. De adultos, claro. Se a chegarem a ter, claro.

Fala-se de geração "delivery". O que é? Hipóteses de definição: 1. libertação, livramento, resgate; 2. Exoneração, desobrigação; 3. entrega; 4. distribuição, expedição; 5 transferência, remessa.

Percebe-se mal. O que é? Silvia dos Reis médica, responde: São jovens dos 15 aos 25 anos, aproximadamente. Não há um dia em que não estejam usando algo "delivery"... Estão "totalmente imersos na tecnologia, simplesmente adoram botões(...). Estes dão-nos soluções rápidas para as necessidades do momento. Trabalhos que antes levavam dias para ser elaborados, que requereriam amadurecimento de técnica, anos de prática, paciência e também amadurecimento psíquico e emocional, simplesmente são resolvidos em segundos, de forma automática".

É neste novo paradigma, o do botão, que o jovem "geração delivery" se está a formar. "Ele estuda dessa forma, distrai-se nesse esquema, vê televisão ligado a vários canais ao mesmo tempo através da TV Cabo, em três línguas diferentes. O computador tem cinco janelas activas trabalhando simultaneamente, eles estão "on-line" em todos os sentidos. Enquanto acedem aos amigos virtuais, numa orelha têm o telefone, na outra o telemóvel..." Eles estão o tempo todo a estabelecer contactos múltiplos, "rápidos porém superficiais, com o mundo todo, literalmente falando. Tudo ocorre por meio de soluções imediatas, não há tempo para esperar, as decisões e as soluções vêm completamente sem elaboração". O mesmo se passa nos vínculos afectivos onde é a geração do "estar com", que implica apenas o momento, "tudo rápido, até intenso, mas superficial".

Geração do "gadget" tecnológico e da cultura "trash" (tudo é descartável), são os "fast-kids" a quem não é exigido pensar muito ou imaginar muito pois está tudo prontinho para o "input".

Algum problema com isso? Sofia de Reis: "Quem trabalha ou convive com adolescentes precisa saber: o jovem que recebe tudo caidinho do céu, sem conversa, sem proximidade, sem ter de ouvir aqueles antigos blablablás de sempre (é claro que adptados aos dias de hoje) sente-se mais inseguro ainda, solitário, fica deprimido e inundado por uma terrível sensação de desamparo".

Há quem pense que se está a criar o homem "light", um homem descomprometido com posições, ideologias e papéis sociais, para quem tudo pode ser e tudo vale. "(...)Trata-se de um homem relativamente bem informado, mas de escassa educação humanista, muito votado ao pragmatismo, por um lado, e a vários assuntos, por outro. Tudo lhe interessa, mas de forma superficial; não é capaz de fazer uma síntese daquilo que percebe e, como consequência, se converte numa pessoa trivial, superficial, frívola, que aceita tudo, mas que carece de critérios sólidos em sua conduta. Tudo nele se torna etéreo, leve, banal, volátil, permissivo" ("O Homem Moderno - A Luta contra o vazio", 1996, edit.São Paulo: Mandarim)

Fala-se dos jovens com crises de pânico, depressão, violência, toxicodependência, anorexia, suicídio... Apetece perguntar, como Cybelle: E os outros, os adolescentes que não adoecem, que não dão trabalho, onde estão?

Ela responde: "Vivemos o fim das ideologias, não há conflitos de gerações, não há contra o quê se rebelar. Eles estão em casa, pedindo pizza pelo telefone, vendo o filme alugado, navegando na Internet. Sair de casa? 'Pra quê?'"

Citam-me Renato Russo: "O futuro não é mais como era antigamente...". E tem que ser? Corrigem-me a citação, indo buscar Adorno: "Não se trata de conservar o passado, mas de resgatar as esperanças do passado". E eu respondo com Gertrude Stein, nos anos 20, para Hemingway: "Vocês são a geração perdida, todos vocês". E fico na dúvida: Será que todas as gerações são perdidas? Eu gosto de pensar que a minha não é. Ou esta, a "geração delivery", do "quero-quero", "já-já", arrisca-se a ser mais perdida do que as outras? Lá dentro, do quarto das minhas filhas, vem uma voz de quatro anos que não me deixa pensar: "Mamã, vem cá". "Espera um pouco", respondo. A voz sobe de tom: "Vem cá, já, agora, já!"

 

ADOLESCÊNCIA E ANOREXIA NERVOSA
pela psicanalista Cybelle Weinberg

Cybelle Weinberg é Psicopedagoga; Psicanalista; Membro da Coordenação da Clínica de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia (CEPPAN); Colaboradora do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares (AMBULIM) do IPQ - HCFMSP; Membro da Equipe de Psicologia do Projeto Interdisciplinar de Atendimento, Ensino e Pesquisa em Transtornos Alimentares na Infância e Adolescência do AMBULIM.

"A pubescência é um ato da natureza; a adolescência é um ato do homem."
Peter Blos

Epidemiologia
Anorexia Nervosa é um transtorno do comportamento alimentar que se desenvolve principalmente em meninas adolescentes e caracteriza-se por uma grave restrição da ingestão alimentar, busca pela magreza, distorção da imagem corporal e amenorréia ( suspensão da menstruação ).
A Anorexia Nervosa é, segundo Cordás ( 1996 ), oito vezes mais comum em mulheres que em homens, seu pico de incidência ocorre entre os 15 e os 19 anos e nota-se um aumento significativo do número de casos descritos nas ultimas décadas, além de um início cada vez mais precoce.

Adolescência
A adolescência, por si só, já oferece uma campo propício para condutas de risco de qualquer espécie. Sabe-se que são próprios da adolescência o pensamento onipotente, do tipo "isso não vai acontecer comigo" / "posso parar quando quiser", a impulsividade, a necessidade de experimentar novas sensações, uma maior vulnerabilidade aos apelos da mídia, preocupações com o corpo e uma deturpação da imagem corporal.
Ser mulher e ser adolescente, então, é um duplo fator de risco para o desencadeamento de um transtorno alimentar.

Adolescência e identidade
Faz parte do processo normal da adolescência a busca de uma nova identidade. Questões existenciais se colocam na adolescência, na forma de indagações do tipo "quem sou eu?",
"que profissão seguirei?", "com quem quero me parecer?".
Isso implica um movimento de diferenciação, de separação, o que significa um processo dificil, gerador de muita angústia.
O que tenho lido e ouvido a respeito das meninas anoréxicas, é que geralmente são boas filhas, boas alunas, obedientes, "perfeitas". Por outro lado, o que ouço delas próprias é que nunca tiveram oportunidade de serem elas mesmas. São suas falas: "minha mãe sempre falou por mim", ou "sempre fiz o que minha mãe queria".
Então, quando estas meninas se tornam anoréxicas, elas se apresentam como anoréxicas. Ser anoréxica é ter uma identidade: "sou alguém que não come". A preocupação com o peso e com os alimentos ocupam seus pensamentos e tornam-se a sua vida. Por isso, penso, é tão dificil o caminho para a cura, porque abandonar a doença é abandonar uma identidade adquirida.
O que observo, com relação às meninas anoréxicas que atendo no Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de São Paulo, é que elas se identificam umas com as outras, se ajudam, se telefonam, trocam confidências, saem juntas nos fins de semana. Formam, como todo bom adolescente, uma verdadeira turma. A diferença é que jamais saem para comer. Ainda que comida seja o assunto predileto!

Psicodinâmica
Vimos que os transtornos alimentares ocorrem preferencialmente em adolescentes mulheres. Muitos são os escritos médicos que tentam explicar esse fenômeno, assim com é grande o número daqueles que o associam aos apelos da mídia e às influências culturais. No entanto serão privilegiados, aqui, os aspectos psicodinâmicos da questão.
No mommento da adolescência, os conflitos edípicos são revividos, porém com um colorido mais intenso. Assim, normalmente as relações com as figuras parentais são permeadas por sentimentos de muita rivalidade e ambivalência.
Por outro lado, o processo da puberdade, na menina, é acompanhado de uma grande dose de ansiedade. A menina assusta-se diante das novas sensações que seu corpo lhe propicia e diante do que seu corpo possa vir a despertar no outro. Ela é levada então a reviver um vínculo pré-edípico: busca a mãe nutriz e protetora dos momentos precoces da sua infância. Mas, ao mesmo tempo, esse vínculo é sentido como perigoso, especialmente num momento em que ela precisa diferenciar-se e separar-se de sua mãe. Ela quer e não quer tomar a mãe como modelo: a relação com a mãe é de amor e hostilidade.
Mas voltemos à fala das meninas anoréxicas. Elas afirmam que sempre tiveram muita dificuldade em expressar sua raiva.
É fato observável que, no processo normal da adolescência, quanto mais dóceis as meninas foram mais a rebeldia se manifesta através do corpo: na higienização, na vestimenta, na alimentação.
Assim, a anorexia pode ser entendida como uma forma de manifestação da raiva: essas meninas meigas controlam a família que, impotentes, assistem ao seu definhamento. É comum ouvis delas: "eu não queria ser minha mãe, coitada, como eu a faço sofrer!..."

A anorexia, ao mesmo tempo, mantém uma dependência infantil e um corpo infantil. Quando essas garotas falam de um peso e corpo ideais, é o corpo da menina de 10, 12 anos que desejam ter: querem "apagar" os sinais da feminilidade, não querem menstruar, não podem ter uma identidade feminina.

As anoréxicas levam ao extremo as idéias de morte "comuns" na adolescência. O suicídio é, por excelência, uma questão filosófica que se coloca nesse período da vida ( ao mesmo tempo em que é visto como uma forma de escapar das dificuldades ). No próprio conceito de adolescência está embutida a idéia de morte e renascimento: faz parte dos rituais de passagem de alguns grupos primitivos separar o jovem do grupo, "lamentarem a sua morte" com gritos de dor e depois festejarem o seu renascimento, inclusive dando-lhe um novo nome ( simbólicamente, o ritual representa a morte da criança e o nascimento do adulto ). As anoréxicas, incapazes de elaborarem essa passagem e os lutos próprios da adolescência, como a perda do corpo infantil, afirmam que gostariam de morrer e renascerem outras, com uma nova identidade. Como disse uma garota que me procurou para análise: "quero deixar de ser essa mancha que escorre para cá e para lá".

--------------------------------------------------

Bibliografia

Bielsa E. La crisis adolescente y los transtornos alimentarios. In: Lofrano V. Anorexias y Bulimias -las cosas del comer. Buenos Aires: Fundatip, 1995

Morande G. Um peligro llamado Anorexia - la tentacion de adelgazar. Madrid: Temas de Hoy, 1995

Cordás T A .Transtornos Alimentares. In: Almeida O P Manual de Psiquiatria. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996

Weinberg, C. Por que estou assim? - os momentos difíceis da adolescência. São Paulo:Casa do Psicólogo, 1999
Vítimas da fome.In: Weinberg C.(org.)

Geração Delivery . São Paulo: Sá Editora

 

Adolescente é tema de livro

São Paulo - A dificuldade dos pais em compreender os filhos adolescentes, a distância dos discursos de ambos e as dificuldades dos jovens de hoje em lidar com a avalanche de descobertas e invenções fez com que a psicopedagoga e psicanalista Cybelle Weinberg organizasse em livro textos de outros 14 especialistas sobre os assuntos que mais afligem pais e filhos. Geração Delivery - Adolescer no Mundo Atual acaba de ser lançado pela Sá Editora.

Por meio de textos bem fundamentados e de fácil compreensão, a obra, dedicada especialmente a professores e profissionais que trabalham com adolescentes, "tem como objetivo mostrar que esses adolescentes, assim como seus pais, não deram nem fizeram tudo errado", escreve Cybelle na introdução. "Mas esta geração, por ser de transição, uma época de mudanças de valores, sofre as conseqüências dessas transformações", explica.

Cobranças da sociedade do tipo ´o jovem deve ser feliz, bonito, inteligente e bem-sucedido´ e a extrema liberdade dos pais que não impõem regras e valores, na esperança de que a escola cumpra o papel de educadora, ou mesmo oferecendo tudo na mão, sem deixar que o filho sinta prazer em lutar e conquistar o que deseja, enfrentando as reais dificuldades da vida, acabam por provocar inúmeras conseqüências físicas e psíquicas ao adolescente. Sem falar na inversão de papéis, quando os pais são "moderninhos" e os filhos os conselheiros, quando, na verdade, eles é que precisam de apoio e orientação. "Os extremos são sempre ruins", garante Cybelle, também autora de "Por Que Estou Assim - Momentos Difíceis da Adolescência" (Casa do Psicólogo).

Entre outros assuntos abordados em Geração Delivery estão aids, gravidez, drogas, incesto, sexualidade, violência, distúrbios alimentares e escolha profissional. Segundo Cybelle, os pais devem ficar sempre atentos aos filhos e procurar auxílio ao menor sinal de problema como, por exemplo, atos delinqüentes, ir mal nos estudos, desistir de sua formação, distúrbios alimentares, uso de drogas e comportamentos estranhos.

Geração Delivery - Adolescer no Mundo Atual. Organizado por Cybelle Weinberg. Sá Editora, 213 páginas (R$ 27 90) - Lucinéia Nunes

 

Geração Delivery - Adolescer no mundo atual
Autor: WEINBERG, Cybelle (org.)
Editora: SÁ

Área: Ciências Humanas e suas Tecnologias
Categoria(s): Psicologia -
Temática:

ISBN: 8588193086
Resenha resumida: Adoção,sexualidade,gravidez,escolaridade,depressão,pânico,drogadição,são os assuntos delicados tratados por profissionais experientes em adolescência neste livro,destinado a pais e educadores.
Ano da publicação: 2001
Número da Edição: 01
Números de páginas: 216
Acabamento: costurado/colado
Idioma: português
Tradução: não há tradução
Premiação: não há premiação, por enquanto

Pequena biografia do autor: Cybelle Weinberg é psicopedagoga,psicanalista, membro da Coordenação da Clínica de Estudos e Pesquisa em Psicanálise da Anorexia e Bulimia; atende a pacientes em São Paulo.

Resenha Editorial

Ser adolescente, hoje, é muito mais difícil do que o foi em épocas passadas, ainda que aparentemente as coisas estejam mais fáceis para os jovens. A dupla mensagem da sociedade e suas exigências de sucesso e competência
favorece a aparição de novos sintomas que se manifestam nas relações familiares,na escola e no próprio corpo.Por isso se justifica reunir em um só livro assuntos tão diversos quanto adoção,relações incestuosas,sexualidade,gravidez,despressão,trastornos alimentares.São assuntos delicados,exigiram talento e conhecimento dos autores dos diversos capítulos; cada um de acordo com suas especialidade, soube superar as dificuldades do tema, a principal delas a de não culpar ninguém, mas compreender.