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ADOLESCER
NO MUNDO ATUAL
Cybelle
Weinberg
Seja jovem, seja feliz, seja magro, seja bem informado, seja
alguém de sucesso!
Estas são as palavras de ordem do mundo contemporâneo.
Se o mundo está difícil para nós, adultos,
o que pensar para os adolescentes?
Vivemos numa época em que as mudanças, decorrentes
de novas descobertas e invenções, ocorrem num ritmo
vertiginoso.
A minha questão é: o que os jovens estão fazendo
com essas novas informações, em que estão sendo
beneficiados e/ou perturbados pelas transformações
sociais?
O que tenho ouvido na clínica e fora dela são queixas
de adolescentes que se sentem perdidos, apáticos ou ansiosos
quanto ao seu futuro. Os pais parecem ainda mais perdidos do que
eles.
O que significa, então, adolescer no mundo atual?
Outro dia, conversando com um jovem rapaz sobre seu amigo que caíra
em profunda depressão, ele me fez a seguinte observação,
num tom mais de constatação do que de melancolia:
"É, deu tudo errado!"
Perguntei-lhe o que significava esse seu comentário, e ele
me disse: "Veja meus pais e os amigos dos meus pais: são
gente boa, deram duro na vida, investiram na gente, fizeram tudo
o que puderam. E olhe nós: um drogado, outro deprimido, outro
que morreu, outro que surtou, outro que não conseguiu estudar,
outro que não tem profissão... É isso, eu não
sei por quê, mas deu tudo errado!"
Este livro, destinado prioritariamente a professores, orientadores
e outros profissionais que trabalham com adolescentes, é
uma tentativa de responder a esse jovem. E a todos aqueles que sentem
que deu tudo errado.
Todos os que aqui escrevem - médicos, psicanalistas, psicopedagogos,
professores - têm como objetivo mostrar que esses adolescentes,
assim como seus pais, "não deram" nem "fizeram"
tudo errado. Mas esta geração, por ser de transição,
fim de milênio, uma época de mudanças de valores,
sofre "na pele" as conseqüências dessas transformações.
Ser adolescente, hoje, é muito mais difícil do que
o foi em épocas passadas, ainda que aparentemente as coisas
estejam muito mais fáceis para os jovens. Os pais são
mais compreensivos, mais tolerantes, há maior liberdade sexual,
maior liberdade de expressão, maior liberdade para escolha
profissional, maior liberdade para isto, maior liberdade para aquilo.
Os adultos dizem que no seu tempo não era assim, que era
tudo mais difícil, que seus pais não os compreendiam,
que era preciso "pegar cedo no batente", que logo deixaram
a casa dos pais e foram cuidar da própria vida. Então,
parece que realmente hoje está tudo mais fácil.
No entanto, o que vemos são jovens com pouca iniciativa,
angustiados diante da escolha profissional, deprimidos, estressados,
com dificuldade para sair da casa dos pais e definir seu próprio
caminho. Evidentemente, isso não pode ser generalizado, mas
é espantoso o número de meninos e meninas nesta situação.
Analisemos,
então, algumas destas "facilidades" do mundo moderno
- sexo, por exemplo. Realmente, falar sobre sexo, hoje, é
muito mais fácil do que antigamente. Discute-se sexo na escola,
em casa, na televisão. É mais fácil fazer sexo,
também. Existe a pílula anticoncepcional e uma maior
tolerância dos pais com relação à prática
sexual dos filhos.
Por outro lado, o sexo, hoje, está associado ao perigo da
Aids. Morte e sexualidade caminham juntas. À insegurança
das primeiras experiências sexuais juntou-se o medo da contaminação.
Além disso, sabendo dos riscos de uma gravidez precoce, alguns
pais, aflitos (e com razão!), se antecipam aos pedidos dos
filhos, levando a pobre menina de doze anos ao ginecologista, assim
que ela diz que "ficou" com aquele menino. Ou comprando
caixas de camisinhas para o moleque que mal saiu das fraldas! Isso
apavora qualquer criança, principalmente numa fase da vida
em que a privacidade é tão prezada.
Aliás, esta é outra questão: há privacidade
no mundo contemporâneo? De tudo se fala abertamente. Pais
comentam com os filhos sobre sua vida sexual. Se são separados,
contam aos filhos sobre seus namoros, paqueras, com quem "ficaram".
Não parece que as coisas estão um pouco invertidas?
Não é (ou era) esse justamente o papel dos pais, escutar
as aventuras dos filhos?
Será que ser amigo é ser confidente? Atendo uma garota
que me diz que ela e a mãe são muito amigas, que a
mãe lhe conta tudo, não tem segredos para com ela.
Só que ela não conta tudo à mãe. Primeiro,
porque não sobra espaço para ela, pois sente que suas
histórias "são um lixo" comparadas com as
grandes histórias da mãe. E depois, porque a mãe
faz tantas coisas de adolescente, que ela se pergunta quem deve
dar conselhos a quem.
Na televisão, e em qualquer revista, já faz parte
de toda entrevista perguntar sobre a vida sexual do entrevistado,
quando transou pela primeira vez, se foi bom, com quem foi, se já
teve experiências homossexuais. Na novela, todo mundo transa
"no ar". Eu me pergunto o que esse saber acrescenta na
formação de uma criança.
Antigamente, havia coisas que as crianças não podiam
saber. É verdade que alguns pais exageravam. Mas, de
qualquer forma, havia uma limite, um saber que separava o mundo
adulto do infantil. Hoje, caiu-se no extremo oposto. As crianças
sabem tudo. (Aliás, mais do que nós, adultos: chamamos
as crianças para programar o vídeo, para fazer a gravação
da caixa postal do celular, para fazer os gráficos das nossas
palestras...)
Esse saber, penso, roubou o "infantil" das crianças.
Aliás, não só o saber, mas também
a moda e o excesso de erotização. O que se vê
são crianças falando como adultos, se vestindo como
adultos, dançando e rebolando como adultos. E, em contrapartida,
adultos cada vez mais infantilizados... mas muito moderninhos!
Outra "facilidade": famílias mais abertas, sem
aqueles papéis rígidos de antigamente. É claro
que isso é muito bom. Porém, com medo de repetir a
educação repressora que tiveram, alguns pais caem
no extremo oposto. Passam do "não poder nada" de
antes para o "pode tudo" de hoje. O resultado é
que esses pais se perdem no meio do caminho, e o que mais tenho
ouvido são pessoas pedindo, pelo amor de Deus, que alguém
os ensine a ser pais.
Além desta dificuldade, acrescente-se a competição
que se instalou dentro da família.
Há uma falsa promessa, veiculada pela mídia, de que
ser jovem é ser feliz. Ninguém quer envelhecer, ninguém
quer sair do palco. Pais e filhos estão competindo: quem
tem mais sucesso com as mulheres, quem usa a saia mais curta, quem
tem os seios ou o bumbum mais arrebitado - nem que para isso se
carregue quilos de silicone ou se faça implante na careca.
Os pais estão se pregando uma peça quando saem do
seu papel, quando pretendem ser coleguinhas dos filhos: os jovens
precisam de adultos fortes, que resistam a um enfrentamento. Do
contrário, o que sobra para o adolescente é um profundo
sentimento de decepção. Passaram a vida toda esperando
"crescer" e, quando crescem, se perguntam: "Mas,
espere aí, foi para isso que eu cresci? Para ser igual a
vocês? É melhor continuar criança!"
Ou, como me disse um rapaz: "Ser adolescente é cair
na real, é sair do sonho da infância e cair na real,
que vai durar para o resto da vida".
Esse "cair na real" é, também, admitir que
os pais são frágeis, que tentaram e fizeram o que
puderam fazer, que não são imortais, mas que, pelo
contrário, não só vão morrer um dia
como já estão envelhecendo. Porém, se os adultos
se recusam a envelhecer, como é que fica?
Outro problema é que os pais, que passaram a vida dizendo
ao filho que o importante é ser feliz, se arrepiam quando
eles jogam tudo para o alto e obedecem direitinho. Outra contradição
da modernidade.
Enfim, essa dupla mensagem da sociedade, de um lado acreditando
que hoje tudo é mais fácil e por outro sendo cada
vez mais exigente no que diz respeito à competência
profissional, à estética, ao sucesso, etc., é
responsável por novos sintomas que se manifestam nas relações
familiares, na escola e no próprio corpo. Por isso se justifica
reunir num mesmo livro assuntos tão diversos quanto adoção,
relações incestuosas, sexualidade e gravidez na adolescência,
escolaridade, depressão, pânico, drogadição,
transtornos alimentares.
São assuntos delicados - exigiram talento, conhecimento e
experiência dos autores dos diversos capítulos. Cada
um, a seu modo e ao seu estilo, e de acordo com sua especialidade,
soube superar as dificuldades do tema, a principal delas a de não
culpar ninguém, mas compreender.
Crise de pânico, depressão, violência, drogadição,
anorexia... Talvez sejam essas as formas, bastante trágicas,
que nossos adolescentes encontraram para denunciar. Ao ideal do
prazer e da beleza respondem com a morte e com a dor. Ao seja
feliz respondem com a busca de um prazer ilimitado. Ao seja
esbelta respondem com uma magreza cadavérica.
E os outros, os adolescentes que não adoecem, que não
dão trabalho, onde estão?
Vivemos o fim das ideologias, não há conflito de gerações,
não há contra o quê se rebelar. Eles estão
em casa, pedindo pizza pelo telefone, assistindo ao filme alugado,
navegando na Internet. Sair de casa? Pra quê?
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