>> Pequenas editoras, grandes sonhos
Facilidades tecnológicas e segmentação
do mercado abrem portas para o surgimento de inúmeros
selos domésticos, tocados por uma ou duas pessoas
e nos quais o profissionalismo convive com uma grande dose
de romantismo. Algumas dessas editoras têm provocado
boas surpresas com lançamentos ou relançamentos
ousados.
Angélica Brum
Portal Literal
http://portalliteral.terra.com.br
Um macintosh usado, uma impressora a laser e uma sócia.
O designer Joca Reiners Terron não precisou de muito
para montar a Ciência do Acidente, que funciona desde
1999 em um dos quartos da casa dele. Histórias de editoras
domésticas – ou quase – se repetem Brasil
afora. Os avanços da tecnologia e a segmentação
do mercado impulsionam a proliferação dos pequenos
negócios. Em quase todos, faltam recursos e sobra autonomia.
Com apenas um ou, no máximo, dois proprietários,
os catálogos dessas editoras acabam saindo a imagem
e semelhança dos donos, que geralmente se dão
ao direito de publicar livros que gostariam de ler ou escrever.
Apesar da estrutura acanhada, volta e meia, editoras nanicas
surpreendem. Recentemente, a carioca Azougue, dos irmãos
Sérgio e Clarice Cohn, chamou atenção
dos cadernos de literatura com "Mitologia do kaos",
de Jorge Mautner. Em São Paulo, Eliana Sá, da
Sá Editora, vislumbra um futuro de bons negócios
com a adaptação para o cinema de "De moto
pela América do Sul – Diário de viagem",
de Ernesto Che Guevara. A obra, representada no Brasil pela
editora, inspirou o novo filme de Walter Salles, que será
lançado este ano.
A possibilidade de boas vendas anima. Mas, definitivamente,
a idéia de retorno imediato não move esse tipo
de empreendimento. "Quem dera viver dos livros. O sonho
está longe, muito longe. Minha mulher e eu somos jornalistas.
Eu dou aula no curso de Comunicação da PUC de
São Paulo e nós dois fazemos frilas de textos,
escrevemos roteiros e matérias", explica Sérgio
Pinto de Almeida, que divide as atribuições
da editora Papagaio com a mulher, Denise Natale.
Laços familiares ou de amizade costumam dar origem
às sociedades. O exemplo da paulista Ciência
do Acidente - que conta com títulos de autores como
Marçal Aquino ("Faroestes") - estimulou uma
dupla de amigos a lançar a Livros do Mal, em Porto
Alegre. Assim com Joca Terron e a sócia Patrícia
Perocco, Daniel Galera e Daniel Pellizzari investem os lucros
– quase sempre discretíssimos – em novas
obras. "Raramente algum centavo vai para o nosso bolso.
No atual estágio, a Livros do Mal é muito mais
um projeto afetivo do que rentável", diz Galera,
autor de "Dentes guardados".
Um projeto afetivo, no entanto, pode se tornar rentável.
Aos poucos, Thereza Christina Motta vem deixando de lado as
atividades de advogada, tradutora e professora de inglês
para se dedicar mais à Íbis Libris. "Hoje,
posso dizer que a editora é minha principal fonte de
renda", comemora Thereza, que lançou o selo para
publicar as poesias de um amigo. "Trabalhei como chefe
de pesquisa da versão nacional do Guiness Book, o livro
dos recordes, e também participei da redação
de projetos especiais da Editora Três. Por causa da
minha experiência, um amigo me pediu que fizesse o projeto
editorial do livro dele."
Geralmente, o surgimento de uma pequena editora coincide
com publicação de um título assinado
pelo próprio editor. "Depois do lançamento
do meu livro, em 1999, comecei a ser procurado por outros
autores que gostaram do resultado", lembra Joca Terron.
"Então, surgiu a idéia da editora, que
foi crescendo conforme aumentava o número de cúmplices."
Sérgio Cohn, que gosta de dizer que abriu a Azougue
"no susto", chegou a publicar um livro antes mesmo
de se aventurar nos negócios da literatura. A experiência
malsucedida ajudou a montar o perfil da empresa administrada
por ele e pela irmã, Clarice. "Entreguei o livro
a uma editora e arquei com todos os custos: o resultado foi
traumático. Portanto, desde o início, temos
como meta bancar os gastos de edição e comercialização.
Com essa postura, deixamos claro que apostamos na qualidade
do nosso selo", justifica Sérgio, que abriu a
empresa com o dinheiro de uma herança e, invariavelmente,
lança livros com recursos obtidos através dos
incentivos das leis de renúncia fiscal.
Os patrocínios de empresas e o financiamento de órgãos
públicos costumam ser fundamentais para garantir a
sobrevivência dos negócios. Graças ao
apoio de um fundo da Prefeitura de Porto Alegre, o Fumproarte,
Daniel Galera e Daniel Pellizzari lançaram as primeiras
obras da Livros do Mal. Atualmente, os dois concentram suas
forças para vencer o grande obstáculo do pequeno
editor: a distribuição.
"Usamos diversas estratégias combinadas. Em Porto
Alegre, fazemos tudo pessoalmente. Nas outras cidades, onde
não conseguimos vender diretamente para livrarias de
pequeno porte, buscamos nos associar com as distribuidoras
locais", conta Galera. A política dos gaúchos
não difere muito das medidas adotadas pela Azougue.
"Assumimos a distribuição no Rio de Janeiro
e em São Paulo. Por enquanto, estamos satisfeitos com
a atenção das livrarias", garante Sérgio
Cohn.
Para superar as dificuldades de distribuição,
a Papagaio investe na divulgação. "Tentamos
fazer a maior, mais ampla e melhor divulgação
possível, apostando que isso possa despertar o interesse
do leitor. Aí, é rezar para que os distribuidores
tenham o livro e consigam espalhar no mercado. Já deu
para perceber que esse processo não tem nada de científico.
Salvo raríssimas exceções, os distribuidores
não utilizam sequer a internet", diz Sérgio
Pinto de Almeida, que relançou por sua editora o tropicalista
"Panamérica", de José Agrippino de
Paula.
As feiras também representam uma boa saída,
como explica Eliana Sá, da Sá Editora. "Procuramos
caçar os clientes um a um. Participamos de eventos
como a Bienal e a Primavera dos Livros, e nos preocupamos
em atualizar o nosso cadastro de jornalistas." Para tornar
a caçada ainda mais produtiva, Eliana prepara novas
iscas para os leitores, deixando um pouco de lado suas preferências
pessoais "Estou começando a me preocupar mais
com o gosto do mercado. Produzi livros maravilhosos, que não
venderam o suficiente. Como diz o Pedro Paulo Senna Madureira,
você pode editar títulos que não tenham
nada a ver com a sua biblioteca particular", destaca
Eliana, que abriu a editora "na base da emoção
e do sonho" com os recursos de seu fundo de garantia,
liberado depois de 12 anos de trabalho como executiva de uma
grande editora.
11.04.2003
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