Sexta-feira, 30 de novembro de 2001
>> Editores queixam-se de compra do Minc
Em pouco mais de 20 dias, ministério publica duas
listas diferentes
HAROLDO CERAVOLO SEREZA
A mais recente compra de livros anunciada pelo Ministério
da Cultura, através do programa Uma Biblioteca em Cada
Município, provocou reações dos editores.
Isso porque o ministro Francisco Weffort lançou, no
dia 24 de outubro, uma portaria com uma longa lista de obras
pré-selecionadas por uma comissão para o programa;
e, no último dia 16 de novembro, uma nova lista, para
a compra, reduzida em cerca de um terço, assinada pelo
secretário do livro e da leitura, Ottaviano de Fiore.
Segundo o secretário, a compra deve envolver cerca
de R$ 9 milhões, o que pode variar de acordo com as
negociações de preço de cada título.
Alguns editores, especialmente os pequenos e médios,
tiveram suas listas de obras reduzidas consideravelmente -
ou mesmo eliminadas. É o caso da Relume Dumará,
do Rio de Janeiro, que, entre obras selecionadas em 1999 e
2000, contaria com cerca de 50 títulos no acervo -
e não vendeu nenhum, desta vez, ao governo. A Iluminuras,
de São Paulo, tinha 81 títulos na primeira lista,
e apenas 6 na segunda. Não são casos isolados:
a Sá tinha 5, caiu para 1; a Bertrand Brasil contabilizava
mais de 40, ficou com 6. Mesmo em menor proporção,
a queda atingiu também a Companhia das Letras, que,
de mais de cem títulos numa lista, disse ter ficado
com cerca de 70, e a Editora 34, que, de 9, ficou com 6 títulos
(a lista disponível na Internet, no site www.minc.gov.br,
não especifica a editora do livro: traz apenas o título
e o autor, o que dificulta a obtenção de dados
precisos).
"Quebrou-se uma tradição de comprar de
um leque amplo de editoras", disse Alberto Schprejer,
da Relume. "Achei no mínimo estranha essa seleção
e as duas listas, especialmente", afirmou Samuel Leon,
da Iluminuras. Ao todo, são 580 bibliotecas que devem
receber os títulos dessa compra (em geral, dois exemplares
de cada título).
A redução dos títulos, embora seja
a questão concreta enfrentada pelos editores (porque
envolve dinheiro), não é o único fato
que complica a compra. A segunda lista não é
uma simples redução da primeira: há títulos
não incluídos pela comissão que foram
comprados pelo Ministério.
Segundo De Fiore, a compra priorizou o público infanto-juvenil,
devido ao fato de as escolas estarem se utilizando da biblioteca
pública dos municípios. Ocorre que o programa
não descreve a biblioteca como prioritariamente voltada
para esse público, mas como sendo de interesse geral.
"A primeira lista não era para a compra, mas
para a seleção de um acervo, até porque
há mais livros nela do que cabem na nossa coleção",
diz o secretário. As bibliotecas do programa devem
receber, do governo federal, cerca de 3.000 obras. Ainda segundo
De Fiore, a prioridade foi o público infanto-juvenil
porque a freqüencia de estudantes às bibliotecas
chegam a 70%. De Fiore diz ainda que adicionou algumas obras
à lista.
"Nossa lista ainda é muito pobre na área
de matemática, por exemplo; inclui O Mundo dos Números
e O Mundo da Álgebra, do Isaac Asimov", diz ele.
"Mas não consegui comprar, porque não há
no mercado, Aritmética da Emília, do Monteiro
Lobato." Outra obra que entrou na segunda lista - e que
não estava na primeira - foi a versão bilíngüe
da Divina Comédia, da Editora 34.
"Entraram também títulos comprados no
ano passado." Fiore argumenta ainda que definir uma comissão
para realizar a seleção dos títulos para
serem comprados apenas tornaria o processo mais lento e mais
caro
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