Aventuras do Jabuti Miri

Era uma vez um jabuti manso e pacato, que não fazia mal a ninguém neste mundo e só tratava de comer bem, passear e dormir. Estava ele um dia embaixo de um sombroso e copado pé de taperebá, juntando sua comida para jantar, quando apareceu uma anta que vinha esfomeada lá do mato e disse com ares de mando:

— Sai daí, Jabuti miri, que estou com muita fome e não tenho tempo de procurar comida.

O jabuti era bom, mas ficou encolerizado diante de tanta sem-cerimônia, e gritou:

— O quê? Você está doida, anta? Pois eu tive o trabalho de juntar meu jantar, e você que vai comê-lo? Ora, não falta mais nada! Passe seu caminho, que esta fruta é minha!

A anta não respondeu mais nada: saltou em cima do jabuti, furioso, e pôs-se a pisá-lo com tanta força que em breve o pobre animal caiu para o lado e não se mexeu mais.

Então a anta cobriu-lhe o corpo com terra, comeu o jantar que estava debaixo do taperebá e foi-se embora. Não contava ela, porém, com as grandes chuvas tão sobrevieram semanas mais tarde – chuvas tão copiosas que arrastaram toda a terra que sepultava o corpo do jabuti e o deixaram descoberto, recebendo em cima toda a água que caía do céu.

Assim refrescado e lavado, o jabuti voltou a si, recordou-se de tudo quanto sucedera e jurou vingar-se da malvada anta. O difícil seria encontrá-la, mas ele ia empregar todos os meios, e começou por descobrir o rastro da sua inimiga entre as árvores da espessa mata que se estendia por ali fora. Agachou-se e perguntou:

— Rastro, meu rastro, há quanto tempo tua senhora te deixou?

— Há quinze dias, jabuti mirim, respondeu o rastro.

Outro mais adiante informou que se o jabuti andasse mais dois dias, acharia a anta; mas o terceiro, a quem o jabuti falou, já impaciente com tanta demora e tanta dificuldade, pareceu indeciso e aconselhou-o que se orientasse com um rio que corria ali perto.

Esse rio, entretanto, nada quis dizer e iam brigando, o jabuti e a sua corrente de água caudalosa, quando a anta surgiu inesperadamente na margem e parou, estupefacta, vendo ali vivo o bicho que ela suponha Ter matado e enterrado. Já o jabuti, porem, pulava em cima dela e pegaram-se os dois com valentia e ousadia, sendo vencida a anta pelo seu inimigo, — Meus parentes! meus parentes! venham ver! Matei a anta que me tinha matado para comer meu jantar!

A onça, que ia passando, ouviu aquele berreiro e chegou-se curiosamente, para saber o que era aquilo. Viu a anta estendida, morta, e logo se dirigiu toda risonha e amável para o vencedor, propondo-lhe artirem a caça pelo meio: uma banda para ele e outra para ela.

O jabuti não ficou lá muito contente com a proposta, mas olhou para as formidáveis garras da onça e não ousou resistir-lhe. Disse que sim. A onça, então, ordenou-lhe que fosse ao mato buscar lenha para assarem a anta, que ela não podia mais andar de cansada; e prometeu-lhe que não sairia dali, a vigiar o bicho morto, até a sua volta.

Apenas porem o jabuti se sumiu buscando lenha, ela carregou a anta nos dentes e fugiu, de modo que o outro nada mais achou quando voltou vergando sobre os galhos secos apanhados no chão. O seu desespero foi tão forte que disparou a chorar; depois exclamou:

“ Deixa estar, onça, que eu ainda me encontrarei com você....”

E deitou a andar, a andar, a andar, por aquelas terras todas, ao sol e á chuva, sempre na esperança de apanhar a maldita, até que deu numa arvore onde estavam trepados muitos macacos. O jabuti gritou para cima:

“ Macaquinhos! Atirem-me aqui algumas frutas, que estou morrendo de fome!”

Mas eles recusaram, a rir-se, dizendo que ele era um jabuti valente e podia muito bem subir para a arvore com seus pés.

— Vocês estão caçoando comigo, lastimou-se ele. Bem sabem que jabuti não pode trepar em arvore...

— Está bem, respondeu um dos macacos, o que fareié ir buscar-te lá embaixo. Espera ai um pouco.

Assim fez e o jabuti passou dois dias em cima da arvore, regalando-se de boas frutas.

No terceiro dia...

(continua)