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>> O show da exclusão na "Noite dos Desesperados"
Horace McCoy mostra o terror de um concurso de dança
no auge da depressão americana
HAROLDO CERAVOLO SEREZA
Por acaso, eles se encontram. Sem emprego e sem "capacitação
profissional" para entrar no concorrido mercado de figurantes
de Hollywood, Gloria Beatty e Robert Syverten aceitam participar
de um concurso de dança em que o mais importante é
resistir: vence a maratona quem agüentar por mais dias,
não o casal que tem a técnica mais apurada.
Uma espécie de No Limite de antanho, em que o esforço
físico também tinha de ser combinado com uma
resistência psicológica que Gloria não
possuía.
O livro começa com o julgamento de Robert, acusado
de matá-la - ele não nega o crime, apenas afirma
que o fez a pedido de Gloria, para livrá-la do sofrimento
que não procurava esconder. Essa não é
a única morte do breve romance - uma das mais assíduas
espectadoras da competição também acaba
sendo vítima das circunstâncias.
A trágica história recriada por Horace McCoy,
publicada originalmente em 1935, tornou-se uma das mais cultuadas
representações da depressão econômica
em que os Estados Unidos e o mundo mergulharam após
a crise de 1929. A Noite dos Desesperados (They Shoot Horses,
Don't They?) é reeditado agora no Brasil. Marca o lançamento
de uma nova editora, a Sá, fundada pela jornalista
Eliana Sá, ex-editora de livros da Globo. Eliana, que
deixou a empresa em meados deste ano, dirigia o setor quando
a Globo lançou as Obras Completas de Jorge Luis Borges
e o livro-reportagem Rota 66, de Caco Barcelos. A obra de
McCoy já havia sido publicada no Brasil em 1945 e 1969,
pela Livraria do Globo. A tradução era de Érico
Veríssimo. Agora, ela é de Renato Pompeu.
A Noite dos Desesperados é um atento olhar de um escritor
(e roteirista, na época também com problemas
de falta de emprego) sobre uma cruel realidade social. Num
estilo que lembra o do jornalismo (em alguns momentos, utiliza-se
inclusive explicitamente desse gênero narrativo), McCoy
faz um retrato dos símbolos que garantiam que o show
não parasse.
A derrisão de Gloria é a outra face da felicidade
aparente do concurso e de um mundo que abusa das forças
e das necessidades da juventude. O título em inglês
(Eles Matam Cavalos, Não Matam?) serve tanto para mostrar
como Robert estava embrutecido quanto para mostrar que aquela
sociedade era capaz de conceder mais a uma velha égua
acidentada que a uma jovem mulher entristecida.
"Foi engraçado o modo como conheci Gloria. Ela,
como eu, também tentava trabalhar no cinema, mas só
fiquei sabendo disso depois", conta Robert, narrador
da história. Os dois são do interior dos Estados
Unidos, ele do Arkansas, ela do Texas. O sonho do cinema acaba
por se transformar no conformismo de comer de graça
durante a maratona de dança, em troca da possibilidade
de serem vistos por um produtor e de US$ 1.000, caso vencessem
as dezenas de outros casais, em mais de um mês de concurso
(quando tudo acaba, após 36 dias de competição,
ainda restavam 20 casais).
A organização mantém, durante todo o
concurso, médicos de plantão, para impedir problemas
mais graves. Mas a exposição dos participantes
vai além dos riscos de saúde. Para os casais
sem patrocínio, as roupas vão envelhecendo.
Os outros são obrigados a carregar anúncios
nas costas.
Empresas prometem prêmios de umas dezenas de dólares
para os casais que correm mais, pois há também
uma disputa diária, em que os casais têm de dar
voltas no salão juntos - a dupla que chega por último,
desde que não atrapalhe os planos dos organizadores,
é desclassificada. A eliminação do outro
torna-se, portanto, banal, como se fosse também inconseqüente.
O concurso de dança nos anos 30, assim como No Limite
de hoje, expressa muito bem a realidade que está em
seu entorno. Afinal de contas, a exclusão não
é privilégio dessas criações esdrúxulas.
Ocorre que elas não são apenas "espelhos"
da realidade. Eventos como esses auxiliam a construir ideologia
da exclusão, a torná-la "natural".
O que tornou o livro de McCoy um marco é justamente
essa percepção. Sua anti-heroína, Gloria,
não pede para ser morta por perder os US$ 1.000 destinados
aos vencedores, mas apenas por não aceitar mais participar
do jogo - não o concurso em si, mas a disputa desenfreada
que o mundo vivia, especialmente quando a depressão
ampliava ainda mais o rol dos excluídos.
Não por acaso, o livro é relançado agora.
Mas o mundo não é exatamente o mesmo: hoje,
a banalidade da eliminação do outro é
capaz de conviver até mesmo com um cenário de
crescimento econômico, como o dos EUA nos anos Clinton.
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